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terça-feira, abril 16, 2013

Carta a Amélia



A Amélia não me conhece e, se calhar, nunca lerá estas linhas. Não faz mal. Escrevo-a num acto egoísta, se calhar nem é tanto pela Amélia. Escrevo porque tenho isto guardado entre o fígado e o coração desde domingo, quando vi esta reportagem da SIC, que há-de ser uma entre tantas que não chegam às televisões.
Não faz mal. As televisões têm critérios e agendas, tal como os jornais e as rádios. Não faz mal, por isso temos os blogues, que são alternativa e complemento. A história da Amélia revolta-me tanto quanto é a vontade que tenho de lutar ainda mais. Há muitas Amélias espalhadas por este país fora, e voltamos à questão central aqui que, quanto a mim, ao contrário do que é referido pelo jornalista, não é a pobreza envergonhada; é sim a pobreza dos trabalhadores, que, mesmo tendo emprego, não escapam à pobreza. Isto deve fazer a Amélia pensar. Por que raio é que a Amélia trabalha e, mesmo assim, o que recebe não chega para viver?

O caso da Amélia traz-me à memória coisas da minha vida, dos idos anos 80. Depois do fecho da FACAR, em Leça da Palmeira, que viria a dar lugar ao que são as famosas torres de Leça, deixando sem trabalho cerca de 1000 pessoas, o meu pai ficou desempregado, com quatro filhos para criar. A minha mãe era então empregada têxtil. O meu pai concorreu para cantoneiro de limpeza na Câmara Municipal de Matosinhos, onde entrou, foi varredor e, posteriormente, o que então se designava por lixeiro. Simultaneamente, trabalhava em transitários e, ao fim-de-semana, entregava gás ao domicílio. E eu aproveitava para ir com ele. Era, na verdade, mais algum tempo que eu podia passar com ele. Mas não fazia mal, porque éramos quatro filhos para criar.

Isto eram os anos 80, início dos anos 90, que a Amélia conhecerá bem melhor que eu. Mas, Amélia, passaram 30 anos desde então. Temos o direito e, mais que isso, a obrigação de exigir mais. O amor pelos filhos é incondicional e está acima de tudo, sei-o porque também sou pai. Compreendo que a vida me roubou tempo com o meu pai, porque eu precisava de sobreviver e de crescer, porque também sou filho.

Não, Amélia, não há gente que vive muito pior. Isso é o pior pensamento que pode ter, porque é o da resignação. A Amélia, como os outros, tem o direito a viver, mais do que a sobreviver, tem o direito a receber a retribuição justa pelo seu trabalho, que lhe permita viver, mais que sobreviver. Isso é o pensamento Isabel Jonet, Amélia, que em Portugal não há fome, fome há em África.

A Amélia tem o direito e o dever querer mais do que lhe é oferecido. De perguntar-se por que é que a Amélia trabalha e o que recebe não chega para as despesas e há quem ocupe cargos onde sobram dez ou mais salários como os da Amélia, depois de pagar todas as despesas. Mais, Amélia, é preciso ânimo e força para lutar, porque, ao que parece, os despedimento no sector do Estado que querem levar avante começam, precisamente, pelos trabalhadores menos qualificados.

A partir de agora, a Amélia, mesmo não sabendo, vai comigo a todas as lutas em que puder participar. Começando já no 25 de Abril, que nos deu a liberdade, e no 1.º de Maio, que é o Dia do Trabalhador, não é do colaborador, ou do agradecimento ao patrão por ter um emprego, mesmo que seja mal pago. Não. É o Dia do Trabalhador, esteja ele desempregado ou não.

Um beijo.

segunda-feira, março 25, 2013

Só o PS é de esquerda

A resposta a este post da Mariana, que conheço e de quem gosto muito, será no tom mais suave possível, precisamente por esse motivo. No entanto, há uma série de questões a que responderei em forma de post, porque um mero comentário não chegaria para apresentá-las e explicá-las.

Para começar, a "tentativa de reescrever a história" é directamente devolvida, pelo simples facto de que o governo do PS de Sócrates não foi demitido. Demitiu-se. E as verdades sobre o PEV IV, mais este anexo em inglês, que tanto incomodaram o PS, são factuais, não há quem as desminta. O PEC IV, dado o enorme sucesso que haviam tido os três anteriores, aprovados em conjunto com o PSD.

E, se hoje temos PSD e CDS no poder, é porque o PS assim o quis, pois foi com eles que andou de braço dado na aprovação de Orçamentos de Estado e dos PEC. E, se alguém tirou o tapete ao PS, foram os seus parceiros da coligação informal que estava instituída. O PCP não alterou o seu sentido de voto em qualquer dos PEC, o PSD fê-lo e o PS sabia que seria assim. O PEC IV não seria solução.

Mais: depois de na semana passada, na quinta-feira, o PS ter votado contra um projecto de resolução do PCP que recomenda a demissão do governo, da forma violenta que Jorge Lacão o fez, demonstra bem quem é o adversário de quem. Numa iniciativa que pretendia fragilizar o governo, o alvo do PS foi o PCP, deixando Álvaro, o ministro, com uma tarde tranquila no Parlamento. Um dia depois, o PS anuncia uma moção de censura, para um dia destes, depois da Páscoa, lá para Abril, porque, afinal, qual é a pressa? E, para quem acompanhou os debates de quinta e sexta-feira, o tom violento de Lacão em relação ao PCP contrastou de forma clara com a sonolência de Seguro, no dia seguinte, quando fez o grande anúncio.

Sobre a moção de censura, fica a insuspeita Ana Sá Lopes, hoje no i:

"Mas o sinal mais perturbador de todo este processo foi a cartinha para sossegar os representantes da troika. Em conjunto com o  anúncio da moção, Seguro decidiu enviar à Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI um texto a sossegar que o PS respeitará os “compromissos internacionais” e que a ruptura com o governo não é a ruptura com as verdadeiras centrais do poder em Portugal. A resistência de Seguro em romper com o Memorando da troika – como já tinha defendido Mário Soares há quase um ano – anuncia que um futuro governo PS tem todas as condições para se transformar num governo ao estilo Antonis Samaras". 

Quanto aos links para o insuspeito, factual e independente "Câmara Corporativa", posso esclarecer-te que:
  • O PCP votou contra o referendo para a despenalização do aborto, não obviamente, por ser contra, mas sim por entender que havia uma maioria na Assembleia da República mandatada para legislar sobre esta matéria, não sendo por isso necessária a realização da consulta popular. E, vais-me desculpar, nesta matéria o PCP está completamente à vontade: ainda o PS não estava na cabeça de Mário Soares e restantes amigos nacionais e internacionais e já Álvaro Cunhal defendia a sua despenalização. Estávamos em 1940.
  • O PCP é contra a Lei da Paridade por entender que ninguém deve ser obrigado a integrar a vida política. A participação cívica na política deve fazer-se em consciência e não por decreto. Sendo certo que, por motivos sociais, a participação das mulheres na política é condicionada, o PCP também é muito claro: é fundamental que haja igualdade entre homens e mulheres na sociedade, que possam usufruir dos mesmos direitos salariais, que possam conseguir conciliar a vida familiar com as actividades que pretendam desempenhar fora dela. E enquanto o PS aprovava a Lei da Paridade, aproveitava, com a UGT, para desregular horários laborais, acentuar desigualdades, facilitar despedimentos, incluindo de mulheres grávidas.
  • Quanto a este ponto não encontro fonte, que não seja esta. É disto que falas? repara na votação.
Ouvi toda a entrevista do Carlos Carvalhas e, sinceramente, não vejo lá nada de especial.

O gráfico da votação no PCP é como uma faca cravada no meu peito. Ah, não é. Não é pelo simples facto de que o PCP não se rege pelos gráficos de votações, não exulta com sondagens. Uma das grandes preocupações do PCP é de esclarecimento das populações e do povo. E bloqueio mediático a que o PCP está sujeito, a par da histeria que houve em torno do Bloco, torna a nossa tarefa mais difícil. Mas, se fosse fácil, não seríamos comunistas, estaríamos no PS... Exemplo prático? No comício de aniversário do PCP, no ano passado, no Porto, o JN, a voz do norte, não apareceu. Depois, há o MRPP, que, com a sua foice e martelo vai roubando votos ao PCP. Estou desde os 18 anos nas mesas de voto e passaram-me pelas mãos vários boletins com duas cruzes: no MRPP e na CDU. Recordemos que, em 2011, o MRPP ganhou direito a subvenção do Estado, por ter conseguido mais de 50.000 votos.

Acredites ou não, o PCP não pauta a sua acção pela conquista de votos. É, obviamente, importante, mas não é o nosso ponto principal. E é também esse o papel da esquerda, o de informar e formar os cidadãos, de dar-lhes novas perspectivas da realidade que nos rodeia, de dar-lhes outras alternativas que não as de comentadores/formatadores de opinião que entopem a cabeça daqueles que não têm sequer tempo para viver, ocupados que estão a sobreviver.

Mas, para terminarmos de forma parecida, podes sempre verificar as alianças governativas desde 1976. E não, não vais encontrar o PCP com o PSD.

quinta-feira, março 21, 2013

Fome não afecta desempenho escolar

Do PS-Açores, que podia ser de outro PS qualquer:


"Mas também acreditamos que não seja pela barriga vazia que possa haver ou não menor sucesso escolar".

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Ascensão e queda de Beatriz

Beatriz Talegón tornou-se viral na internet com o vídeo abaixo e fez feliz uma série de gente. Uma série de verdades ditas por alguém do PSOE que deviam fazer corar de vergonha qualquer partido que tenha estado na reunião da Internacional "socialista".

Confesso que o que mais me fez pensar no discurso de Beatriz foi o que leva alguém a estar num partido que pratica o contrário do que um militante defende. Entendamos: há sempre espaço para divergências dentro dos partidos. Há no qual milito e, creio, haverá também nos outros. Mas há questões de fundo, de princípio de que não abdico. E, como tal, não percebo a Beatriz. Como poderia eu estar, por exemplo, num partido que defende na opinião pública o aumento do salário mínimo mas que, no Parlamento, na casa da Democracia, rejeita duas propostas nesse sentido, considerando-as demagogas e populistas?


Falo agora directamente para a Beatriz, que é quase da minha idade e fala como se fosse minha camarada - e ela não há-de importar-se, que não me lerá. Não podemos defender o que não praticamos. Podemos. Afinal podemos. Mas isso é o PSOE, como cá é o PS. E se a tua prática não vai além das palavras - do que agora se chama, pomposamente, soundbites - então, estás no lugar certo.

Já sabemos que estiveste no Parlamento Europeu, onde ganhavas 3.000 euros por mês, se dividirmos o teu salário global por 14 meses. E bem. Todos pudessem ganhar o mesmo. Mas eras funcionária do PSOE e, daqui, podemos tirar duas confusões: uma, demonstraste uma coragem notável ao afrontar assim o teu patrão. Outra, foste na onda dos soundbites e criaste um fait-diver. Daqueles para enganar, dos que faz um partido parecer aquilo que não é aos olhos dos mais incautos. E dos que dão mau nome aos partidos, daqueles existem para servir e não para servir-se

Uma espécie daquilo que em Portugal se chama "a ala esquerda" do PS, como se fosse possível um partido verdadeiramente socialista não ser todo ele de esquerda. A partir do momento em que não é, deixa de ser socialista e passa a ser perpetuador de tudo aquilo que criticaste - e bem - a partir de um hotel de 5 estrelas em Cascais.

Há outra Beatriz nesta história. A minha. Tem seis anos e há-de ser o que quiser. Mas procurarei sempre fazer com que seja fiel a ela própria. E que seja verdadeira, genuína, que assuma os erros e virtudes que há-de cometer e ter. Que não tenha duas caras. Que seja sempre frontal e directa, mesmo quando a necessidade é maior do que a moral.

De acordo com o teu ex-colega no PSOE, Julián Jiménez, não o foste e ele explica os motivos que o levam a tecer a carta aberta publicada no La Republica. Eu não sei se, como ele, terás percebido e assumido os erros que cometeste e vais ser consequente com o que defendeste nos 10 minutos da tua intervenção.

"Pero cuando hacemos que nos hemos equivocado de “boquilla” pero no en nuestros actos, corremos el riesgo de aparentar lo que no somos. Por ello no creo tus palabras. Porque si fueran sinceras ¿Por qué no te has ido del PSOE?¿Donde dormiste tú cuando criticabas el hotel de lujo en el que os reuníais los “socialistas del mundo mundial”? ¿Dónde está tu carta de renuncia de tus responsabilidades? ¿Donde esa carta para unirte sinceramente posteriormente a quienes llevan años en la calle protestando?"

O que te pede o teu ex-colega é apenas que sejas consequente. Que, como dizes no texto, deixes o hotel de 5 estrelas e te juntes à rua com os cidadadãos que sofrem, no teu país como no meu, com as políticas levadas a cabo pelo teu partido e pelo seu partido-irmão, aqui em Portugal. Estamos sempre a tempo de mudar. Eu serei o primeiro a fazê-lo se o meu Partido deixar de ser aquilo que é.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Fome - estudo de época



Todos os anos, sazonalmente, surgem estudos de época que visam apenas legitimar ou, pelo menos, tirar o peso da consciência de determinados actos. Por exemplo, no Verão, surgem estudos que dizem que uma cerveja por dia faz bem à saúde e que nem sequer engorda. Lá mais para a Páscoa deverá sair outro a dizer que os doces beneficiam os dentes bonitos. Ninguém sabe quem encomenda estes estudos. Mas a impensa noticia-os como verdades.

Hoje, surgiu um novo estudo de época, bem mais grave do que todos os que visam acentuar o consumo deste ou daquele produto numa determinada época. Parece que a fome melhora a memória. Fome, que é uma coisa diferente de carências alimentares, segundo os mandamentos da Madre Jonet. O estudo foi feito em moscas. Moscas, sim, mas parece que pode aplicar-se a seres humanos e até será publicado na revista Science. Há um senão: têm de estar sem comer mais de 20 horas, ou o efeito é inverso.

Na prática, quem quiser ter uma memória melhor, deverá estar sem comer, pelo menos, 20 horas e 1 segundo. Este também é um estudo de época. Vivemos em tempos de fome e miséria, ainda que alguns teimem em dizer que é tudo normal, ou perguntem apenas "qual é a pressa"? Há cada vez mais fome e cada vez mais miséria, e a tendência é acentuar-se.

Novos pobres e novas formas de pobreza. Os pobres que precisam de dizer aos filhos para venderem as senhas de almoço para terem algum dinheiro e os pobres que precisam de comprá-las, porque por meia-dúzia de cêntimos não têm direito a apoios sociais. Depois deste estudo, fiquem descansadas as mais de 10.000 crianças que chegam à escola com fome, porque lhes beneficia a memória. Há aquele detalhe de poderem desmaiar, mas, pelo menos a história e geografia, terão boas notas. E saberão a tabuada. Não tarda, estarão a decorar as linhas férreas das ex-colónias.

Não vou ao extremo de dizer que este estudo serve para legitimar opções políticas. Tem pelo menos uma aplicação prática que poderá ser benéfica para todos. Ficar mais de 20 horas sem comer antes de votar. Vamos ver se ajuda mesmo a memória.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Agora a sério, feliz natal

As notícias de que os portugueses gastam milhares de milhões são cíclicas. Normalmente, aparecem por altura do Natal, juntamente com estudos que dizem que comer como se não houvesse amanhã não faz mal, o chocolate emagrece, o bolo-rei tem pouco açúcar e por aí fora.
Centrando-me no primeiro tema, seria interessante saber quanto é que os portugueses movimentam nos outros meses do ano; por outro lado, seria ainda mais curioso perceber quantas das pessoas não aproveitam o subsídio de natal - os que ainda o têm - para pagar contas que ficaram em atraso durante o resto do ano. De outro modo, tenho todo o direito e mais algum de achar que é uma notícia filha da puta, que visa atirar areia para os olhos dos portugueses, fazendo-os crer que os vizinhos não sofrem com a crise.

Por falar em crise, anda por aí um senhor famoso por causa do bolo-rei que se vangloria de ter concedido aos pensionistas o 14.º mês. Ora, convém dizer que faz tanto sentido dizer uma coisa destas, como dizer que foi Cavaco que permitiu o associativismo na PSP, por exemplo. Uma coisa como a outra não foram benesses, foram fruto de muitas e muitas lutas de milhares de trabalhadores que não se resignaram e fizeram valer a sua vontade.

O mesmo senhor, que afirma nada ter a ver com o BPN, ajudou o governo do PS a oferecer ao BPN mais do dobro do valor disponibilizado por Sócrates para combater a crise. Dos 2,2 mil milhões de euros disponibilizado, um terço foi para o sector bancário e o tremendo 1 por cento ficou para o apoio ao emprego. Portanto, quem criou a crise é ajudado; quem a paga, que se foda.

E quem a paga somos todos nós, incluindo aqueles a quem roubaram 15 euros no salário de Janeiro, incluindo estas trabalhadoras da Eurest, despedidas e/ou com processos disciplinares, por, imagine-se, levarem para casa restos de comida. Refira-se que a Eurest é propriedade do Compass Group, que apresentou, em 2010, os seguintes resultados:

"We have delivered another year of strong performance, despite the challenging economic conditions, with record operating profit of over £1 billion and a return to organic revenue growth. Our ongoing focus on operational efficiency has enabled us to both invest in future growth and deliver another increase in the margin of 40 basis points".

Percebe-se, portanto, que a Eurest não possa pagar aos seus empregados de forma a que não tenham de levar sobras para casa. Ou então são só uns filhos da puta.

Fiz questão* de escrever aqui, com as letras todas, o que me apeteceu, como também me apetece mandar para a grande puta que pariu os senhores, sejam eles quem forem, que decidiram censurar o Zeca, numa alegada homenagem, porque acham que "merda" é feio.

Posto isto, continuemos a luta, sem que tenhamos de chegar ao desespero.

Feliz natal.



* tenho um leitor!

quinta-feira, maio 13, 2010

O Roubo - este não é um post sobre gravadores

Hoje, depois dos telejornais da hora de almoço, José Sócrates veio anunciar-nos publicamente o que já sabíamos: Vai voltar a roubar-nos. Vai aumentar o IVA, o imposto mais injusto de todos os impostos, que tributa de igual forma quem ganha 400 e quem ganha 40.000. Na verdade, não surpreende, menos ainda quando foi firmado um pacto pelo gang do bloco central. E por aqui, ainda alguém se lembra do Passos Coelho da ruptura, do rasgo ou da união, que não seja a união ao PS?

Sócrates, por coincidência, anunciou o roubo ao Povo enquanto o Papa pregava por Fátima, num país que paralisou para ver um anti-homossexual que usa vestido e sapatos vermelhos. Mas há mais e haverá mais. Esperemos pelo Mundial, que enquanto os jogadores chamados por Queiroz procurarão fazer um milagre, haveremos de saber que lá se vai o subsídio de Natal.

Não há respostas únicas para os problemas. Para chegar ao 10, teremos sempre 9+1, o 8+2 e por aí fora. E a mesma resposta à nova velha crise há-de cansar os Povos. E os Povos vão organizar-se e escolher outro caminho. Começou na Grécia e há-de alastrar a Portugal.

O primeiro passo será a 29 de Maio, com a CGTP. Os seguintes, espero eu, hão-de ser mais duros e efectivos. Porque isto não é (mais) um plano de austeridade. Isto é um roubo.

quarta-feira, março 31, 2010

Quanto custa um trabalhador?

Voltou a estar na ordem do dia a luta dos enfermeiros pela equiparação salarial aos licenciados de outras áreas que entram na Função Pública, auferindo 1.200 euros mensais. E eu, de forma gratuita e sem dados que o comprovassem, disse que a tributação justa das mais-valias bolsistas serviam para pagar a colocação dos enfermeiros na posição remuneratória adequada durante 20 anos. No entanto, não encontrei dados objectivos sobre este facto. Encontrei outros, sobre a tributação à banca, feita a 15%, quando para as restantes empresas é de 25%. Vamos, portanto, aos factos:

Segundo a ministra da Saúde, há 6.000 enfermeiros que deveriam ser recolocados na posição remuneratória dos 1.200 euros . O salário dos enfermeiros que entram na Função Pública é de 1.020 euros. Tomando este valor chegamos a um reposição na tabela no valor de 180 euros, que pode muito bem ser inferior, atendendo a enfermeiros que ganhem mais por estarem noutras posições remuneratórias. Mesmo assim, façamos as contas:

Um aumento de 180 euros durante 14 meses vale 2.520 euros anuais para cada enfermeiro. Multiplicado por 6.000, custaria ao Estado 15.120.000 de euros anuais. Ora, 15.120.000 de euros é uma pipa de massa. E todos concordamos neste ponto.

Entra aqui a história dos sacrifícios repartidos, da situação difícil, do abismo e da insensibilidade dos sindicatos perante o país. Vejamos com factos a distribuição dos esforços:

"Segundo a dados da APB, no período 2005-2008, ou seja, com este governo, os bancos representados nesta Associação tiveram 10.588 milhões de euros de lucros. Por estes lucros a banca só pagou 1.584 milhões de euros de imposto, o que corresponde a uma taxa efectiva média de apenas 15%. Se a banca tivesse pago a taxa legal (25% de IRC mais 2,5% de Derrama) o Estado teria arrecadado mais 1.328 milhões de euros de receita."

Temos assim 1.328 milhões de receita perdida. Dividindo o valor pelos anos de 2005, 2006, 2007 e 2008, chegamos a cerca de 330.000.000 por ano. Pegando nos 15.120.000 euros que custará este ano a actualização dos salários dos enfermeiros e multiplicando por 20 o número de anos em questão, chegamos ao valor de 302.400.000 euros.

E pronto.

sexta-feira, março 26, 2010

Nada

Zero. É redondo, eu sei, anafadinho. Nos tempos em que gordura era formosura há-de ter sido um número belo. Hoje, o zero só vale à direita. Seja do que for.
Na política, um zero à direita tem valor, mesmo quando é um zero à esquerda e se posiciona no lado canhoto do hemiciclo.

É o preconceito contra o lado certo da coisa. O zero é nada. Nada é o que nós temos e o que a política dominante nos oferece todos os dias: zero.

As agências funerárias do povo gerem as expectativas do poder, mascaradas de ratings. Dizem elas que são árbitro. Melhor, avaliam. Avaliam quanto vale o que temos e o que produzimos. Não avaliam o que queremos nem o que não produzimos porque não nos deixam. E são os mesmos que fazem de árbitro em todo o sistema. Quem são eles? Ninguém sabe ao certo. Serão uma entidade abstracta, filosófica ou qualquer coisa parecida.

Hoje, o nosso Escudo vale zero. Há uns anos, valia pouco, mas pouco é melhor que nada. Por incrível que pareça, quando 200 escudos valiam 1 euro, 200 escudos tinham mais valor que 1 euro. Eu explico: Comprávamos mais com 200 escudos do que passámos a comprar com 1 euro, no minuto a seguir a entrar em vigor.

Para que serviu o euro? Nada. Para o comum dos mortais, nada. Serviu para conter os salários, logo, reduzir custos de produção, o que, associado ao aumento de preços, explica a paixão do capital e dos governos capitalistas pela moeda única.

Somos governados por zeros à direita. E, curiosamente, parecemos gostar.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

(Isto não) É a Economia, estúpido!

Sinteticamente, há três formas de combater um défice, seja ele qual for: Aumentar as receitas, diminuir a despesa ou as duas coisas.

Assim, comecemos então pela problemática dos salários:
São baixos. Não reflectem o valor de riqueza que produzem. Portanto, a fatia das mais-valias criadas há-de estar em algum lado, uma vez que não reverte para quem produz a riqueza. Por isso, este problema ficaria resolvido com um contributo maior de quem fica com a fatia de leão para o combate ao défice.

Se pegarmos nos lucros da banca, por exemplo, e verificarmos qual dessa fatia reverte para o Estado, veremos que é percentualmente menor do que o que o comum do cidadão paga. Mais não fosse, o IRC para a banca é de 9,0%.

Voltando à produção. De que serve produzir se, fruto dos baixos salários, não há quem compre? Para que servem os fundos de investimento das MPME's se não há quem pague o valor que geram? A contenção salarial é um caminho que já ouvimos há 30 anos e já provou estar errado, de outro modo, não estaríamos ainda hoje a falar da mesma coisa.

A receita também poderia ser aumentada se não houvesse privatizações. Sim, são um encaixe financeiro a curto-prazo, mas esgotam-se. E sejamos claros: Que empresário mostra interesse em algo que dá prejuízo? Nenhum. Logo, o Estado abdica de receita em favor de privados. Receita essa que seria fundamental para a sustentabilidade das contas públicas a médio e longo-prazo.

No entanto, o problema parece-me ir bem além do défice. Estamos a falar de um modelo económico - com as repercussões óbvias no modelo social - mais do que esgotado. As crises cíclicas serão cada vez mais e mais frequentes. Reparemos que, depois da crise da banca, nada foi feito para controlar a mão invisível que acabou amparada pelo colo dos Estados. Nada. Dizia um economista, no início da crise - e não, não leva aspas porque não é ipsis verbis: No crash dos anos 20, os gestores suicidavam-se, hoje pegam no dinheiro das garantias bancárias e vão de férias. E é a verdade. Há inúmeros casos de empresas onde o Estado não investe, porque não têm sustentabilidade, deixando cair os trabalhadores no desemprego. E que sustentabilidade tem esta sistema bancário?

Que modelo económico é este que não serve quem tem de servir? Um modelo económico que só pede mas nada tem para oferecer não pode ser perpetuado. É a negação do que é a Economia enquanto ciência. E não, este modelo não é o fim da História.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

O baile da Madeira

Sócrates é inteligente mediaticamente e sabe que Jardim é detestado no continente. Por isso, pretendia apostar num confronto directo com ele para forçar eleições, logo que fossem possíveis, criando um spin que seria perfeito quando estivesse aprovado o OE e já não houvesse grande memória sobre congelamentos salariais. E sabemos todos como este PS é exímio a criar não-notícias para distrair sobre o essencial.

Vamos aos factos: Digo, desde já, que considero que o resultado estatísco encontrado através da média é SEMPRE enganador, sendo apenas utilizado por ser o que tem um cálculo mais fácil: PIB/nºde habitantes e temos a média. No entanto, o mais representativo da realidade seria a MODA, ou seja, o número que aparece mais vezes nas parcelas que levam ao resultado do PIB....

O Rendimento Per Capita da Madeira: Para efeitos internos, o RPC da Madeira contabiliza os mais de 4 mil milhões de euros que circulam no off-shore, levando os incautos a assumir que na RAM só vivem ricos. No entanto, na UE, esses mais de 4 mil milhões não são contabilizados, para que, desta forma, a RAM possa receber mais apoios europeus. Já agora, este governo do PS, preocupado com o despesismo, prepara-se para perdoar fiscalmente 1,4 mil milhões de euros aos capitais que circulam no off-shore.

Há dois meses, no OE rectificativo, e só neste, o mesmo PS concedeu 73 milhões de euros à RAM, sem contar nos 60 milhões do OE09, pelo que seria incompreensível, não fosse o que escrevi atrás, esta postura do PS. Este acordo de toda-a-oposição-toda estabelece um tecto de 50 milhões para as duas regiões autónomas.

E até que ponto seria uma perda para o país se aquele que foi considerado o pior ministro das finanças da UE se demitisse realmente?

terça-feira, janeiro 26, 2010

Bruxo?

Em 9 de Janeiro de 2009:

São ciclos

Até há um ano, mais coisa menos coisa, estávamos todos desgraçados porque era preciso travar o défice e colocá-lo abaixo dos 3 por cento.

Neste ano - e no próximo, muito provavelmente - estamos todos desgraçados porque é preciso segurar os bancos, perdão, o sistema económico, e estamos em crise profunda. Para isso, vamos aumentar o défice e colocá-lo nos 3 por cento.

Quando passar esta crise, vamos voltar a estar desgraçados para voltar a baixar o défice.

Mas não desanimemos já a pensar como vamos desenrascar-nos a viver sem uma qualquer crise. Há-de vir outra crise depois da próxima para continuar a bater no mexilhão.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Eu, ignorante.

Não percebo por que é que o IEFP também divulga dados sobre o desemprego, quando temos o INE. Supostamente, o INE fornece os dados do desemprego em Portugal ao Eurostat, mas os números nunca coincidem. Supostamente, a OCDE usa os dados do Eurostat e também não coincidem.

Um dia vou averiguar isto.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Há dias assim

Às vezes acordo a pensar em coisas estranhas e sem sentido. Antes isso que acordar morto, não é? É. Hoje, acordei a pensar em portagens, no Porto de Leixões e na Petrogal.
Acordei então a pensar que é evidente que existe um estudo económico que verifique:
  • O impacto das portagens nos preços praticados no Porto de Leixões que, ao que julgo saber, não é propriamente barato;
  • O impacto nos preços da entrada e saída de matéria-prima na Petrogal;
  • O impacto nos preços de entrada e saída de mercadorias nos concelhos de área metropolitana;
  • O impacto no bolso de cada um de nós.
Há coisa mais estúpida para se pensar? Claro que não. Claro que há um estudo. Quem o conhecer, faça o favor de me informar. Agradecido.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Tácticas

Está à vista a nova táctica do patronato e não é preciso um Freitas Lobo da Economia para perceber o que está a passar-se no que respeita às "reestruturações" e "reorganizações" que ocorrem no mundo empresarial.

É muito simples e fácil de adoptar:
  1. Encontra-se uma empresa com mais de 100 trabalhadores*.
  2. Anuncia-se o despedimento de 80% da força produtiva.
  3. Dois dias depois, anuncia-se que, afinal, a administração vai apenas despedir 50% e isso passa por positivo.

    *O ponto 1 é o mais difícil de cumprir.
A novela da Delphi é um bom exemplo, tal como este título do Diário Económico:

Fábrica da Delphi admite recuar em 200 despedimentos

terça-feira, junho 02, 2009

As coisas são como são

O desemprego aumentou para 9,3 por cento nos países do euro, Portugal está nos 9,2. Atrás de Portugal só Hungria, Irlanda, Estónia, Eslováquia, Letónia, Lituânia e Espanha. Num ano - entre Abril de 2008 e Abril de 2009 -, a taxa de desemprego aumentou 1,7 por cento.
Em números líquidos, quantos faltam para os 150.000 empregos?

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Quimonda

Há uns anos, a então Infineon, que funcionava em laboração contínua, obrigou os trabalhadores a assinarem um compromisso para passarem a trabalhar 12 horas diárias em vez das 8 previstas para os três turnos, uma vez que funciona em laboração contínua.

Quem não assinou, não renovou contrato.

A explicação era óbvia: Suprir gastos com os trabalhadores e diminuir as perdas de tempo de trabalho que existiam a cada mudança de turno. Tudo em nome da competitividade, claro.

A agora Quimonda ainda no mês passado era estruturante para a economia nacional. Por isso teve direito a uma ajuda de 100 milhões de euros do Estado português, mais algum do governo alemão e da empresa mãe Infineon.

Hoje, a empresa entrou em processo de falência.

Só pode ser brincadeira.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Extra! Extra!

Ricardo Costa, na Sic:

"Este (o BPN) era um banco que já devia ter morrido, numa economia de mercado".

Pois. Mas não morreu e agora toca a reanimá-lo às custas de todos. Ricardo Costa consegue, numa só frase, explicar a génese da economia de mercado. Baseia-se em intenções e "dever ser". Mas não é. A regulação? O Constâncio que explique o que isso é. O que anda ele a fazer no Banco de Portugal. Ou o Greenspan. Ou tantos outros. Os verdadeiros utópicos.

Post-it: Então a Real Seguros fica de fora da privatização? Pois, às tantas dá lucro...

Post-it 1: O que vai acontecer aos trabalhadores do BPN?

E o burro era ele?




"Se é natural que alguns te esqueçam, como poderia o povo esquecer quem ergueu do chão os humilhados e ofendidos deste País, e com o seu nome assinou a Lei dos Baldios, a Lei do Arrendamento Rural, a Lei da Reforma Agrária, a Lei das Nacionalizações".