quinta-feira, abril 19, 2007

Olá desqualificação

Manuel Alegre já veio criticar a campanha "Novas Oportunidades", lançada pelo governo do seu partido. De acordo, a mensagem é passada de uma forma infeliz, denegrindo a dignidade de algumas profissões.

No entanto, a mim parece-me bem mais grave e tenho medo, muito medo, que a campanha tenha o resultado inverso, pelas seguintes razões:

Não sei o que é melhor: ser iletrado ou cantar como o Pedro Abrunhosa. Logo ele? Mas de quem foi a ideia? Cheira-me que há aqui o dedo do Manuel Pinho...

E que moral tem o Governo para incentivar a malta a regressar à escola, quando o nosso primeiro se desenrascou da forma que desenrascou para ser engenheiro, deixar de ser engenheiro e ser engenheiro outrra vez?

Qual é o risco de não estudar? Chegar a Primeiro-ministro?

segunda-feira, abril 16, 2007

Regresso ao passado - Parte III

Não, não é preciso ser engenheiro, nem doutor, nem arquitecto, nem professor. Preciso, mesmo, é a humildade para não ter vergonha disso. É só uma questão de valor(es).

105.3

Os olhos semi-cerrados pela força do sol, logo de manhã, fazem-me pegar nos óculos pretos, riscados, que me turvam a vista, enquanto os Sinais, do Fernando Alves, vão-me guiando pelo meio do trânsito caótico.

Hoje tenho a voz que quiser, porque hoje é o dia dela. Hoje as vozes soam mais alto e mais fortes, todas elas, e não só a do Fernando Alves, que chega a todo o lado, independentemente de ser o dia dela ou não.

A voz de quem a não tem vai sendo dada por roteiros que incluem. Incluem a voz dos mudos que são todos os dias esquecidos, menos um dia por ano, quando passam lá as tv's, as rádios e os jornais, que seguem o Presidente, avidamente, à espera de um registo da sua voz que possa fazer eco da voz dos outros.

Estranho. Não deixo de pensar que é, apenas, um monólogo de um surdo. Que fala mas não inclui na voz aqueles a quem o roteiro devia servir.

Diz ele: Incluir os velhinhos, os desempregados, os deficientes, ou todos aqueles que juntam tudo isto numa só voz, quando a têm. Não sabe, porque, afinal, parece mesmo um monólogo de um surdo, que há instruções expressas para atrasar ao máximo os apoios estatais às crianças com necessidades educativas especiais. É assim na DREN. É assim em todas as DRE's.

Saem caras e não têm voz. Menos hoje, que é o dia dela.

quinta-feira, abril 12, 2007

Regresso ao passado - Parte II

Também vale a pena passar os olhos aqui e ver como a ficção pode tornar-se realidade...

Regresso ao passado

Andei para trás até 2004 e fui reavivar a memória.

Passei por aqui e fui revivendo o que foi o princípio do fim.

Hoje, não tive necessidade de recuar tanto no tempo e vi aqui uma coisa parecida.

Mas parece que foi o princípio de coisa nenhuma...

quarta-feira, abril 11, 2007

Público-Alvo

Hoje foi um dia histórico para a justiça e jornalismo portugueses. Ficámos todos a saber que a verdade é crime.

O Supremo condenou o Público por ter publicado uma notícia verdadeira, relativa a uma dívida do Sporting ao Estado. Uma indemnização de 75 mil euros. Foi um atentado ao bom-nome do Sporting, porque, segundo os Conselheiros, a notícia não era do interesse público. Portanto, ficamos todos a saber que, para, os Conselheiros do Supremo, não é do interesse público saber quem deve ao Estado. Assim, a decisão de publicar online a lista de devedores ao Estado, uma medida tão saudada, poderá ser contestada e ganha no Supremo, uma vez que trata-se de um atentado ao bom-nome dos cidadãos e empresas, sem qualquer interesse público.

Voltando ao Público, mas não ao interesse, o director José Manuel Fernandes disse, aos microfones da TSF, que a maior expectativa para a entrevista de logo à noite está centrada em saber "as causas do abrandamento aparente nas reformas e quais os projectos do Governo para os próximos dois anos", deixando para segundo plano o esclarecimento sobre as habilitações do nosso Primeiro.

Primeiro: enganou-se. É apenas um ano e dez meses. Porque esta entrevista, diga-se, para balanço dos primeiros dois anos de governação, vai ter lugar quando passaram dois anos e dois meses desde a eleição.Segundo: O Público lançou a notícia sobre a licenciatura de Sócrates. José Manuel Fernandes está pouco interessado nisso. A mim também me preocupam os tempos que se avizinham. Mas também me preocupa saber se o primeiro-ministro mentiu ou não.

Pressões? Telefonemas? Nada disso...


Todos nós acreditamos na separação de poderes e tudo isto são apenas coincidências. Ainda bem...

terça-feira, abril 03, 2007

All - á é grande!

O ministro Manuel Pinho conta já com a minha pessoa entre os seus milhares de fãs.

Confesso que não estava à espera de falar mais dele do que do senhor Delgado.

O ministro é um génio incompreendido, e a polémica em torno do recém-baptizado Allgarve é a prova disso mesmo. Afinal, quem se lembraria de acrescentar um L só porque soa melhor (?) em inglês?

All-garve = Tudo-garve; Todo-garve;


Foi o All-garve. Se fosse Ll-isboa não fazia diferença, porque significa exactamente o mesmo que All-garve. Ou Allentejo.

Honra seja feita ao ministro. Se em vez do inglês ele tivesse optado por outra língua, ia ser ainda menos compreendido, ora vejamos:

所有-garve - chinês

alle-garve - holandês e alemão
tous-garve - francês
όλοι-garve - grego

tutti-garve - italiano
すべて-garve - japonês
모두-garve - coreano
все-garve - russo
todos-garve - espanhol

E ainda se queixam de quê?

Vou mais longe, sou uma pessoa ambiciosa. Por isso, proponho mais algumas alterações ao léxico português.

All-garve = ólgarve, por isso:

All-iveira do Douro (ali em VN Gaia, mas podia ser de Azeméis, do Bairro...)
All-aurindinha, vem à janela (música popular)

All-iud (coisa de filmes, nos EUA)
All-impo (divino, ali na Grécia, quem sobe, logo à direita)
All-facto (cheira, pois cheira)

Coca-c-All-a (para beber)
Carac-All (devagar, devagarinho)
Cachec-All (para o frio)
Interp-All (bófia)
Água m-All em pedra dura (provérbio)
T-All-a (em cima do pescoço)
Cervej-All-a (que faz barriga)


Viva Portugall!

segunda-feira, março 26, 2007

Grande português

A escolha do grande português só vem provar que somos, realmente, um país de gente pequena.


Disse.

terça-feira, março 13, 2007

Haja respeito!

Não tenho especial apreço por aves e afins. Mas respeito-as, como respeito todos os animais. Nunca, nos meus tempos de ganapo eu peguei numa arma de chumbos e atirei aos pardais.

Nunca!

Normalmente, ia para o quintal onde estava o tanque e, quando muito, tentava disfarçar as minhas insuficiências visuais com tiros que acabavam no cimento das pias, para depois dizer que "foi quase". A verdade é que os alvos, normalmente latas ou garrafas, só abanavam com o vento.

Mas nunca atirei aos pássaros. E aos gatos também não.

Ontem, quando passava pela Circunvalação, levei com uma cagadela no pára-brisas. Verde e com grumos. A cagadela, não o pára-brisas.

Foi para mim uma espécie de traição. Uma cagadela de pássaro é sempre desagradável, seja quando estamos na paragem do autocarro, ou quando vamos a passar na rua. Mas uma cagadela num carro em andamento é algo bem pior. Só acontece mesmo por maldade.

O sentimento de incapacidade e consequente raiva apodera-se de nós. É mais ou menos como as frequentes declarações do ministro Manuel Pinho, só que em dejectos palpáveis.

Fiquei, oficialmente, ofendido.

Passaram dois anos do Governo Sócrates. O ponto positivo: Já faltou mais para acabar o mandato.

segunda-feira, março 12, 2007

Silêncio

Não gosto muito do silêncio. Deixa-me nervoso.

Mas há vários tipos de silêncio e entre eles, o comprometedor, o comprometido e o cúmplice.

Passou um ano sobre a presidência de Cavaco. Um ano de silêncio comprometedor, comprometido e cúmplice. Em tudo.

Hoje Cavaco ri-se por estar de volta. O povo é sereno e tem memória curta. Cavaco ri-se dos trabalhadores da Manuel Pereira Roldão, na Marinha Grande, quando enviou o Corpo de Intervenção para dispersar os trabalhadores. Ri-se dos polícias molhados que hoje estão a seco. Ri-se dos manifestantes da Ponte 25 de Abril. Ri-se do interior que foi sendo alcatroado e agora re-alcatroado, porque as auto-estradas foram feitas à pressa e sem condições de segurança.

Os risos de Cavaco são em silêncio. Num silêncio de Bolo-Rei, que foi mastigando com a boca aberta.


Um ano de Cavaco: um ano de silêncio comprometedor, comprometido e cúmplice.


Pérolas do fim-de-semana

Rádio Clube de Matosinhos, durante o jogo de futsal Freixieiro-Junqueira:

Luís Almeida, repórter na pista: Joaquim Ferreira! Joaquim Ferreira! Faltam 2,6 segundos, é muito tempo para jogar, já vimos golos em menos tempo! Vamos lá ao lançamento!

Joaquim Ferreira: É verdade... vamos ao lançamento... acabou o jogo.

Antena 1, declarações do seleccionador nacional de rugby:

Isto é como as lutas de cães, nem sempre é o maior que ganha!

Parece-me, assim ao de leve, que as autoridades deviam investigar os passatempos deste senhor...

quinta-feira, março 08, 2007

Dia D(elas)

Não foi hoje, o Dia D(elas).

Tenho a forte convicção de que o verdadeiro Dia D para elas foi a 11 de Fevereiro.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Para sempre, Zeca! - Menina dos Olhos Tristes

E voltas em mim, a mim, 20 anos depois de teres partido.

Trazes As Pombas que Os Vampiros sugam, com a Canção Longe que vai fazendo erguer o Coro dos Caídos.

Os Bravos vão festejando o Natal dos Simples, em fundo, com a Canção de Embalar que adormece a Menina dos Olhos Tristes. Sonha ela com o Cavaleiro e o Arcanjo, no Tecto da Montanha. Ali Está o Rio - disse ela - e as Barracas, Ocupação, que vejo Por Trás Daquela Janela, mostrando as Saudades de Coimbra com a Balada do Mondego.

Qualquer Dia, Vejam Bem, Já o Tempo se Habitua, e A Formiga no Carreiro pergunta ao Senhor Arcanjo: Onde Lá Vai Jeremias? - Era de Noite e Levaram-no - respondeu -, Os Eunucos pela Avenida de Angola. Mais um para lamentar a Canção do Desterro.

Eu, o Povo, Tinha Uma Sala Mal Iluminada, onde chorava a Saudadinha da Mulher da Erva que ceifava o Milho Verde. Agarrava-te eu Se Voaras Mais ao Perto. Dei-te o nome de Maria Faia. Vai, Maria Vai, corre para os poetas d'A Cidade e Traz Outro Amigo também. Venham Mais Cinco, que Eu (não) Vou Ser Como a Toupeira. Vamos realizar a Utopia, que A Morte Saiu à Rua já vezes de mais. Vamos!, que O Que Faz Falta é acabar com o Avô Cavernoso, que quis esconder nos bosques densos e escuros Um Homem Novo [que] Veio da Mata!

Aproveitemos Enquanto Há Força! Ouvimos já o Coro da Primavera, num Cantar Alentejano que a Grândola, Vila Morena transformou em Letra Para Um Hino! Canta Camarada! Basta de comer só O Pão Que Sobra à Riqueza! Entoemos as Cantigas do Maio. Entoemos A Paz, o Poeta e as Pombas, Que o Amor Não Me Engana e eu amo a Liberdade!

Viva o Poder Popular!

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Perdido nas Maldivas

Introdução e conclusão:

As Maldivas são uma seca e Leça da Palmeira é que é bom.

Maldivas é um pequeno país - Leça da Palmeira é uma grande freguesia e uma cidade ainda maior.

Maldivas tem como única fronteira real o estado das Laquedivas, na Índia - Leça da Palmeira tem fronteiras reais com Matosinhos, Santa Cruz do Bispo e Perafita.

Malé é a capital das Maldivas - Leça da Palmeira é capital de si própria.

O presidente das Maldivas chama-se Maumoon Abdul Gayoom - O presidente da freguesia de Leça da Palmeira chama-se Pedro.

O hino das Maldivas chama-se Gavmii mi ekuverikan matii tibegen kuriime salaam - O hino de Leça chama-se Hino do Leça.

Maldivas também pode chamar-se Divehi Rajjeyge Jumhuria - Leça da Palmeira chama-se Leça da Palmeira.

Maldivas tem uma palmeira no símbolo do país - Leça da Palmeira não tem qualquer maldiva na sua bandeira.

É em Leça da Palmeira que se localizam dois equipamentos de importância nacional: a Refinaria da Petrogal e o recinto de feiras da Exponor - Não há registo de quaisquer equipamentos de importância nacional nas Maldivas.

Maldivas tem cerca de 1.100 ilhas e apenas 200 são habitadas - Leça da Palmeira tem todas as ilhas habitadas: Ilha do Volta, Ilha do Cunha dos Cães, Ilhas do Sardoal, Ilha da Avenida...

Aqui ficam listadas possíveis comparações entre Leça da Palmeira e Maldivas. Para quem defende que as Maldivas um local mais atractivo do que Leça da Palmeira, aí está a resposta.

Dedicado à Margarida, que, entre outras actividades, escreve coisas para depois um senhor dizer.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

"Maria... la chiave!"

... disse o Roberto para impressionar a principessa.

Hoje vou construir estradas novas para o interior e levar comigos anos de chumbo depositados à beira mar, para equilibrar este país inclinado para poente.
Vou pegar no meu plano tecnológico, nos meus 150 mil empregos e enfiá-los no meio do terreno montanhoso de Trás-os-Montes e no deserto do Alentejo.
Levo a Educação comigo para os dormitórios das periferias e aceno com a segurança e com estudos para rentabilizar meios.

Mas faço as estradas para o interior e fecho os hospitais, as maternidades e as urgências. Aumento os rendimentos dos taxistas, porque não há transportes públicos. Nem tudo é mau. Os dois ou três taxistas que servem 15 aldeias ficam contentes. Quinze? Menos duas, dentro de pouco tempo, porque os velhos morrem e os novos fogem. Fogem para onde há hospitais e maternidades e urgências.

Faço-me à estrada nova e percebo que o alcatrão não trata os esgotos, nem dá electricidade, nem aumenta as reformas de miséria, porque se dou o caminho para o desenvolvimento, retiro o que o faz desenvolver.

Pego nos 150 mil empregos e retiro os nove mil que foram criados em dois anos. Faltam 141 mil, está quase.

Vou aos caixotes das periferias onde fui guardando vidas e tiro-lhes a polícia. Racionalizo meios que não tenho.

Hoje quis ser governante e fi-lo até agora. Tive a chave e fui fechando fábricas pela fechadura que a eleição me deu.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

SIM e os testículos

SIM. Foi o que disse a maioria dos portugueses vontantes no referendo do dia 11.

Não foi vinculativo, infelizmente, mas obriga na mesma ao cumprimento da primeira promessa eleitoral da era socratista. Socrática, não. Isso é outra coisa, mais grega.

Depois de uma campanha cheia de coisas estranhas, desde os panfletos nas mochilas de crianças, aos vídeos do Marcelo Rebelo de Sousa no youtube. Ou o professor a conseguir dizer que a diferença de meios entre as campanhas do SIM e do NÃO foi enorme... Mas a favor do SIM. Certamente que o professor esteve muito tempo em casa a filmar os vídeos e não viu os milhares de outodoors espalhados pelo país, em que o "Não obrigada" foi rei e senhor.

E a questão é mesmo esta. A mulher continua a ser "Não obrigada" a abortar e os movimentos pela vida (?) podem continuar com o trabalho comunitário de apoio a grávidas que dizem fazer. Pena que não tenham apresentado números sobre as intervenções que fizeram desde 1998.

Jardim veio hoje lançar-se ao barulho. Falou nos testículos que faltam aos portugueses. Ao presidente do governo regional da Madeira não faltam os ditos. Tem-nos, certamente, juntinho ao cérebro, sendo essa a principal explicação para tamanha cara de cu...

terça-feira, dezembro 12, 2006

Carapaus de bacalhau

A sondagem da edição online do jornal "Público" trouxe-me à memória um episódio passado na Póvoa de Varzim, há quase dois anos.

A pergunta é muito simples: A sua ceia de Natal inclui bacalhau?

Dois anos atrás, na bancada de Imprensa do Estádio do Varzim, comentávamos a fraca presença de público nas bancadas. O clube poveiro não deixa de ser um histórico do futebol nacional, apesar do momento delicado que atravessa.
Clube de gente de trabalho, famoso pelas mulheres da Póvoa, acérrimas defensoras dos "Lobos do Mar".
Apesar da fúria


Em conversa, continuámos a avançar possibilidades. O preço dos bilhetes, claro. Mas houve um camarada que foi mais longe. E disse o que todos pensávamos mas que não dizíamos, porque é daquelas realidades duras.

"As pessoas não têm dinheiro para o bacalhau, quanto mais para vir ao futebol!". Simples, claro e directo.

"A ceia de Natal vai ser com carapaus".

Carapaus de bacalhau, portanto, para os homens e mulheres que vão ao mar buscar o sustento. Já foi tempo. A Póvoa transformou-se num enorme centro turístico de betão que esconde por trás os tradicionais bairros piscatórios, que ainda hoje rivalizam como há décadas.

Bairros de gente humilde, que recusam o destino que a CEE, CE e, agora, UE, lhes foi impondo.

Na casa dos pescadores poveiros, os carapaus cheiram a um bacalhau de faz de conta.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Bandeira Nacional

Vermelho.
Trocamos o olhar indiferente ou o simples desviar dos olhos pelo sentimento de culpa quando paramos num semáforo e vemos alguém bater no vidro para pedir esmola.
Seja debaixo de chuva, vento ou frio.

Depois o semáforo fica verde e seguimos em frente.

Vermelho.
Paramos nas montras e fazemos contas à vida. De preferência numa superfície comercial atafulhada de gente, com apelos à compra de tudo e mais alguma coisa.
Outra vez vermelho. Paramos e, por uns segundos, pensamos que estamos a fazer compras no dia 24 e que do outro lado do balcão está gente que também tem um dia 24, mas diferente.
Mas temos pressa, porque o dia 24 está a chegar ao fim.

Depois o semáforo fica verde e seguimos em frente.

Vermelho.
Santa Catarina, mas não muito. Quando o sol começa a baixar, não convém ficar por lá. Os sem abrigo incomodam mais do que nos outros dias. Outra vez aquele sentimento de culpa. São velhos, novos, desempregados, toxicodependentes e alcoólicos. Todos num só. Fazemos uma bola gigante de plasticina de cores diferentes, misturamo-los a todos e ficamos com a cabeça cheia de penas. Atiramos uma moeda que ficou no bolso.

Depois o semáforo fica verde e seguimos em frente.

Vermelho.
Comprámos cartões da Unicef, ajudámos a Legião da Boa Vontade, as Casas do Caminho e a Fundação do Gil. Está a chegar ao fim o dia 24. Agradecemos aos VIPs que juntaram-se a uma ou outra iniciativa que proporcionaram uma noite de 24 um bocadinho melhor. Fazemos a digestão ao sono das batatas com a noção de dever cumprido. Passou mais um dia 24 e até ajudámos os mais necessitados.
Jantar sem televisão, por favor. Muito menos os telejornais. Já sabemos que vão abrir com uma vigília à porta de uma fábrica que fechou em Agosto e continua sem pagar aos empregados. Sem televisão, por favor.

Depois o semáforo fica verde e seguimos em frente.

Vermelho.
O dia 25 repete o ritual. Telefonemas de ocasião. Esqueci-me de um postal. Penitencio-me por isso.

Depois o semáforo fica verde e seguimos em frente.

VERDE. Passaram os dias 24 e 25.
VERDE. Seguimos em frente.
VERDE. Venham mais 363 dias para podermos ficar de olhos fechados.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Cerco, ao Porto.

Invicta.

Invicta porque nunca foi conquistada. Resistiu a tudo e todos ao longo dos séculos. Cercos e tudo.

Mas há um que permanece há algumas décadas. Um Cerco por dentro, no coração da Invicta. Um Cerco decadente e degradado.

Em conversa com um amigo, uns dias depois das manifestações dos estudantes do secundário, contou-me que pelo espírito de liderança salientou-se entre os manifestantes um aluno do Cerco. Com consciência. Com razão.

Marcou presença na Praça porque estava ao lado das reivindicações que moveram milhares de alunos. Marcou presença na Praça porque o Cerco está cada vez mais isolado.

Não há investimentos, "porque somos pobres e vivemos num bairro degradado", disse.

Marcelo Rebelo de Sousa, na crónica dominical em que vai dando, ou retirando, valores a tudo e todos, disse concordar com as manifestações dos estudantes, mas não perceber bem como é que se misturam as lutas do secundário com as faixas, envergadas por alunos, contra a co-incineração.

Não me espanta. Não pecebe, porque vai distribuindo os valores do alto da sua intelectualidade. Não percebe, porque já se esqueceu, ou nunca soube, que há muitas coisas muito erradas, e muitas delas são trazidas a público para que não sejam esquecidas.

Enquanto isso, o Cerco vai-se apertando em miséria, insegurança e sujidade humana e material. E a escola, bem no centro do Cerco, vai asfixiando, com as paredes cercadas pela ausência de perspectivas num futuro.
Não é um futuro melhor. É apenas um futuro.

Talvez Marcelo Rebelo de Sousa tenha dado nota negativa ao aluno do Cerco. Não faz mal. Não é algo a que ele já não esteja habituado.

E assim fica a Invicta, afinal conquistada a partir de dentro das muralhas, com o porto a olhar para dentro do Cerco apenas através da ameias, com medo de lá entrar.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Sindicatos fora de moda

Obsoletos.

Desde a Greve Geral que entrou no vocabulário de comentadores e de quem sei deixa comentarizar que os dirigentes sindicais estão obsoletos, referindo-se, mais precisamente, a Carvalho da Silva.

O João Proença nem tanto, ainda está só um bocadinho obsoleto.

Mas então, os governantes que há tantos anos estão à frente do destino do país, não estarão eles também obsoletos? Os economistas que todos os dias apresentam soluções já tiveram, a grande maioria, mais do que responsabilidades políticas, responsabilidades governativas. E, no entanto, passa a mensagem de que estão sempre actualizados.

Outra questão da moda, que sempre serve para afastar os holofotes do descontentamento com o Governo, é da ligação dos partidos de esquerda às centrais sindicais.

Mau será quando, um dia, os interesses dos sindicatos deixem de ser, também, os objectivos dos partidos da esquerda.

E, em relação ao PCP, convém que se decidam... Ou bem que está a definhar e a caminhar para o abismo; ou bem que tem uma capacidade de mobilização impressionante e consegue mobilizar gente para assobiar o Governo em todas as partes do país...