quinta-feira, março 13, 2008

Democracia, essa grande filha da puta

Uma das coisas fantásticas da democracia é eu poder fazer o que quiser dela, enquanto palavra ou enquanto conceito.

Não é propriedade de quem quer que seja e todos podemos usá-la. Com ou sem manifestações, com ou sem contestação. Sofremos, depois, as consequências dela. Inerente à sociedade democrática surge a responsabilidade individual. Em democracia, eu posso fazer o que bem entender, sujeito depois às respostas socialmente instituídas, sejam sociais ou judiciais.

Aqui no Porto, o insulto assume uma beleza democrática considerável. Qualquer gajo que não abrande num sinal de aproximação de estrada com prioridade é um filho da puta; se conduzir um topo de gama ainda melhor, porque é um chulo filho da puta, cujo pai é o tio.

Levamos tudo isto no melhor espírito democrático. Nuns dias são eles os filhos da puta, no dia seguinte sou eu. Acho que aqui ganhamos fígados para aguentar estas coisas.

Eu já insultei tantas vezes tanta gente, até a mim, que não há texto legível que aguente tanto palavrão e tantos destinatários. Mas também já fui insultado. Também insultei enquanto manifestante, mas também já fui insultado enquanto manifestante.

Também já insultei figuras públicas, desde políticos, artistas, actores, actrizes, futebolistas, escritores, comentadores, tudo. Mas mesmo tudo. E não me considero por isso menos democrata.

Pode ser difícil de perceber, mas, mesmo assim, tenho respeito pelas instituições e pelas pessoas. O insulto é quase uma interjeição, ainda mais numa manifestação, seja ela política, desportiva, tantas...

Adoro a democracia. Todos os que lutaram e lutam por ela, seja desde 1973 ou desde 1921, merecem o meu respeito, concorde ou não com eles.

Mas negar ao PCP e ao Álvaro Cunhal o seu papel na história da luta democrática é cuspir na memória de muitos milhares de pessoas, como seria negar o papel relevante de Mário Soares até 1974.

Daí em diante, as contas são outras. Mas, até lá, a liberdade foi construída por todos os Álvaros Cunhais e Mários Soares dos partidos e movimentos democráticos de trabalhadores, operários, camponeses, mineiros, militares, intelectuais.

É esta diversidade da liberdade democrática que me permite dizer as enormidades que quiser, assumindo as consequências delas.

É uma consequência democrática da própria democracia, essa grande filha da puta!

quarta-feira, março 12, 2008

Cancio(neiro) do costume

À falta de melhor, a insuspeita Fernanda Câncio analisa a entrevista de Jerónimo de Sousa à SIC tendo como ponto de partida uma suposta deficiência no português utilizado pelo Secretário-geral do PCP.

Confesso que, se aconteceu, escapou-me, e não é algo que costume acontecer. Mas até dou isso de barato.

Começa, depois, num rol de certezas quase científicas sobre a criminalidade, quando, na verdade, confunde os números. A criminalidade não desceu dez por cento. A criminalidade violenta desceu 10 por cento, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, de que o MAI foi divulgando, às pinguinhas, números para combater o sentimento de insegurança, embora a divulgação oficial esteja apenas prevista para 15 de Abril. De qualquer forma, se a autora se permitisse a tal, importava esclarecer que a criminalidade geral aumentou 2 por cento.

Sobre isto, passo a transcrever, ainda sobre a confusão dos dez por cento: "O ministro da Administração Interna afirmou que «a partir de 2003» houve «uma tendência de estabilização e mesmo de algum decréscimo» na criminalidade, embora reconheça que «entre 2000 e 2006 aumentou 8.8 por cento», aproximando-se do INE, que aponta 10 por cento", no Portugal Diário de 14 de Fevereiro de 2008.

Passamos depois ao "portanto", que a Fernanda Câncio considera ser palavra-tique pc. Sugiro desde já que o anti-fascista-libertário-ex-trotskista-ex-maoísta elabore um dicionário de boas práticas linguísticas para que possamos escolher quais as palavras comunas e as mais democráticas, devidamente caucionadas pelo PS.

O PCP foi pioneiro, como em muitas outras coisas, em defender o papel activo das mulheres na sociedade, por muito que lhe custe, e quando Jerónimo de Sousa diz que "uma trabalhadora que chega a casa para tratar dos filhos" é porque as coisas se passam, de facto, assim. Por muito que lhe custe e por muito que custe a todos nós. Por uma questão de demagogia retórica, a Fernanda Câncio preferia que fosse utilizado o masculino. São opções.

O incontornável Cunhal também surge no texto. E, por estranho que possa parecer, surge em todos os textos que a autora escreve, escreveu e escreverá. Pelo simples facto de os poder escrever.

Voltando ao português, transcrevo: "
Há precisamente 30 anos, ao entrar pela primeira vez no Palácio de São Bento, Jerónimo de Sousa não fazia a mínima ideia de "como era isso de ser deputado".

Quando o DN lhe propôs um regresso às memórias dessa época, o actual secretário-geral do PCP lembra a ruptura que se registou entre a velha Assembleia Nacional da ditadura e a Assembleia Constituinte que contribuiu decisivamente para firmar os alicerces do regime democrático.

"Vínhamos de uma assembleia fascista, com uma composição muito classista, onde um operário não tinha entrada."Nesse mês de Junho de 1975, o contraste não podia ser maior até o PPD e o CDS exibiam operários na sua bancada. Mas nenhum outro grupo parlamentar como o PCP tinha tantos "membros da classe trabalhadora", como se dizia na terminologia marxista, muito em uso na época.Um desses operários, oriundo de Alpiarça, era António Malaquias Abalada - um operário agrícola já idoso que mal sabia ler ou escrever. Ao fazer uma das suas primeiras intervenções no plenário, com um discurso escrito na mão, este deputado começou a ser alvo de chacota generalizada, bem perceptível em diversas bancadas da Constituinte. Um episódio que indignou Jerónimo de Sousa.

Três décadas volvidas, o dirigente máximo do PCP guarda todos pormenores da cena, que reconstitui com visível emoção."Aconteceu num dia em que se discutia uma norma transitória que o PS e o PPD acabaram por incluir na Constituição da República. Esta norma, na altura, permitiu a libertação de todos os pides. Esse meu camarada António Abalada, que tinha passado pelas masmorras da PIDE, fez então uma intervenção, naturalmente sentida. Mas lia de forma muito deficiente - gaguejante, soletrando mal as palavras. Então a Assembleia Constituinte desatou numas gargalhadas visivelmente humilhantes", recorda Jerónimo de Sousa.O que se passou então? O secretário-geral dos comunistas continua a lembrar o episódio "Então esse meu camarada largou o papel que tinha na mão e falou assim: 'Estão-se a rir de mim porquê? Por eu não saber ler? Pois: é que eu, aos sete anos, já andava a guardar gado; aos 17, fui preso pela PIDE. E quando fui preso não me perguntaram se eu era do CDS ou do PS ou do PPD. Perguntaram, isso sim, se eu era do Partido [Comunista Português]. E foram os meus camaradas intelectuais deste partido que me ensinaram as poucas letras que eu conheço'.

"Aquelas frases espontâneas, proferidas como reacção à deselegância dos restantes deputados, constituíram uma autêntica lição de vida. "A verdade é que o hemiciclo emudeceu. E o camarada Abalada lá continuou a ler - manifestamente mal, como já fizera anteriormente - a sua intervenção sobre a tal norma transitória", recorda Jerónimo de Sousa, também ele com raízes operárias.Mesmo com tantos anos decorridos, a emoção é visível na face do secretário-geral comunista ao desfiar esta memória dos seus tempos de deputado constituinte. "Aquele foi um dos momentos mais impressionantes que eu testemunhei no hemiciclo de São Bento, no sentido de classe. E foi também uma lição para a arrogância intelectual de muitos deputados", conclui Jerónimo de Sousa.

E, já agora, falando em bom português, parece que as maiúsculas ainda constam na nossa gramática...

Pensamento vazio

"Não perdemos tempo a pensar no que fizemos mal" - Vitalino Canas.

Ora, eu diria que também não tem muito tempo para perder quando pensa no que fizeram bem...

Hum...

... E nestes três anos, alguém ouviu falar do Ministério do Ambiente?

segunda-feira, março 10, 2008

Postas com atraso (IV)

A Sic Notícias, na ressaca da despedida de Camacho, conseguiu um belo exclusivo:

Falou com Jorge Máximo.

Quem é? Sócio do Benfica.

Postas com atraso (III)

A campanha do Correio da Manhã e da Sábado sobre Salazar:

"Nem bom, nem mau.
Incontornável".


Posto isto...


... Vão brincar com o digníssimo caralho!

Postas com atraso (II)

No sábado, Santos Silva perdeu a cabeça, o tino, o tento na língua, a noção histórica e a vergonha.

Postas com atraso

Quando...

...tem de ser Mário Lino a sair em defesa da ministra da Educação, está tudo dito sobre o estado do Governo.

sexta-feira, março 07, 2008

A/C Pedro Correia

Confesso que discordo, quase em 90 por cento, do que o Pedro Correia escreve no Corta Fitas. Mas não é por isso que deixo de gostar da forma como escreve e como analisa uma série de factos e acontecimentos de forma bem diferente da minha.

Por isso, deixo aqui uma fonte quase inesgotável de conteúdos para alguns posts dele - sem querer condicionar, obviamente - a escolha dos temas. São só e apenas sugestões.

Basta clicar aqui para ter acesso a uma série de editoriais interessantes do jornal Avante! na clandestinidade.

quinta-feira, março 06, 2008

Encher as medidas

No plano de acção do MAI de combate à criminalidade que está a diminuir, pergunto:

As 9.000 armas de que o ministro fala são as mesmas que deviam ter sido entregues até 30 de Novembro?

As Unidades Especiais de Polícia não são isso mesmo - unidades especiais - pelo que não devem ser usadas de forma recorrente no patrulhamento, correndo o risco de descaracterizar o propósito para que foram criadas?

Quando o ministro fala em geo-referenciação, está a referir-se ao programa Táxi Seguro, que nem todos os taxistas têm porque são eles próprios a comprar o dispositivo? E, já agora, antes de alargar a outros sectores de actividade, não seria conveniente dotar os próprios veículos da Polícia com esse sistema?

Quem pode, com toda a certeza, definir o que é uma arma não letal?

A reforma das Polícias Municipais não vai agravar o problema de sobreposição de tarefas entre a PSP, a GNR e as Polícias Municipais?

Para além disto, o Governo, que quer uma polícia pró-activa e preventiva, faz papel de bombeiro para combater um tipo de crime que até está a diminuir. Avança com um pacote de medidas que, depois de uma leitura mais ou menos atenta, permite-nos verificar que a maioria delas estava já prevista no orçamento e no plano de acção do MAI.

De fora, mais uma vez, ficam os direitos sócioprofissionais dos profissionais da PSP, retirados ao longo dos últimos três anos, entre outros por que ainda lutam: continuam sem horário de trabalho; com material obsoleto; a trabalhar em contentores que o próprio ministro inaugura; sem pré-aposentação; aumentos nos descontos do SAD/PSP - subsistema de saúde da PSP; e muitas outras coisas.

Também nesta área o Governo continua a reformar e a anunciar medidas sem ter em conta o essencial para que qualquer medida funcione: o seu capital humano.

terça-feira, março 04, 2008

Arrastadeira

Eu também acho excelente que o PCP tenha feito uma manifestação com a sua bandeira. Adoro a bandeira do PCP, pelo seu significado e pela responsabilidade que significa envergá-la. Acredito que haja outras que significam o mesmo para quem as ergue. Mas não me recordo, muito sinceramente, de uma iniciativa semelhante, próxima, sequer, por parte de qualquer partido.
Independentemente disso, há alturas em que a minha bandeira fica em casa, por exemplo, nas iniciativas dos movimentos unitários.
Quando diz que o PCP deve "deixar que os movimentos sindicais e sociais sejam autónomos, participando neles com espírito de abertura, sem impor a sua agenda partidária e eleitoral. Seria um excelente sinal de honestidade democrática, como foi a realização desta manifestação assinada por quem a deve assinar", acerta no conteúdo, mas erra no alvo. Posso até dar-lhe um exemplo muito concreto: Quando tiveram início a invasão do Afeganistão e a guerra do Iraque, o Movimento pela Paz - Porto reuniu e houve uma força política que não abdicou de estar presente nas iniciativas com a sua propaganda. Surpreenda-se: O Bloco de Esquerda. Mais: foi referido numa das reuniões que, mesmo que mais ninguém fosse identificado partidariamente, dado que o Movimento pela Paz - unitário - pretendia iniciativas transversais a partidos, o representante do BE afirmou que não abdicava delas. Como disse, acerta no conteúdo, apenas erra no alvo. Confirme lá com o Teixeira Lopes para sabermos se não se passou assim.

Nas manifestações do 1.º de Maio, só há uma faixa partidária: a do Bloco. É este tipo de benevolência democrática, de não-ingerência partidária no movimento sindical que defende?

Por tudo isto e mais algumas coisas, caríssimo, deixemo-nos de tangas. A Marcha do PCP fez-lhe o que faz a muitos: obriga-os a reconhecer que os defuntos que propalam nas notícias, nas colunas de opinião e nos comentários na rádio e na tv estão, afinal, bem vivos. Mais vivos que todos os outros todos juntos.

E há que admitir que isso faz uma certa comichão, não faz?

Post it: E a urticária continua no Kontratempos. É uma seca isto de os comunas mobilizarem tanta gente... Mas o Tiago esquece-se que neste dia, para além desta marcha, houve também manifs de professores, na margem sul, supostamente também intrumentalizadas e organizadas por comunas.

Fujam! Fujam! Eles andam em todo o lado!

segunda-feira, março 03, 2008

Número





Se em vez de 50.000 pessoas tivessem estado em Lisboa 500 militantes do PCP, as primeiras de domingo seriam outras...

A luta continua!

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

A voz de Portugal

Parece que hoje a Imprensa russa está a anunciar Dulce Pontes como a "voz de Portugal".

Tendo em conta a actuação dela na cerimónia de assinatura do Tratado de Lisboa, Portugal está esganiçado, histérico e cheio de uma espécie de convulsões.

Na pia

Do debate de hoje na AR, o que, até agora, foi destacado pelas rádios, pela Lusa e pelas edições online, foi aquela surreal lavagem de roupa, perdão, dentes sujos entre o Governo e Paulo Portas.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Quando eu era pequenino...

Quando eu era pequenino, vivia num país que tinha uma Constituição tão marxista, tão desadequada, tão ideologicamente vincada, que até o preço do pão era fixado pelo Estado.

Hoje, porque somos um país moderno e virado para o futuro e acreditamos no milagre da auto-regulação do mercado, já não temos isso.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Futebóis II

RMS pergunta:

Deverá Rui Santos ser contratado para suceder a Rui Costa no Benfica, depois de ter efectuado um pontapé de belo efeito e com toda a sua força, desferido num gajo que tentou bater-lhe?

Não perca, no Tempo Extra.

Futebóis

Tinha prometido a mim mesmo que não ia escrever aqui sobre futebol. Não porque não goste, longe disso, ou seja um tipo de intelectual-fundamentalista-anti-futebol, tipo Pacheco Pereira. É mesmo porque há futebóis que não me interessam, cheios de pontapés na lei - do jogo e não só - e com uma componente empresarial tão forte que descaracteriza os clubes enquanto entidades de paixão para uma espécie de racionalidade bolsista.



As declarações de Camacho, em relação a este Benfica, são paradigmáticas. Para ele, o segundo lugar é fundamental, porque dá acesso à Champions League. E a Taça UEFA não é tão importante, porque não garante nada para a época seguinte. Só que a Champions também não. Veja-se o exemplo do Liverpool, que um ano depois de ter-se sagrado campeão europeu, teve de disputar a terceira pré-eliminatória para conseguir qualificar-se.



Não gosto. Se para os grandes não há salvação - o caminho é mesmo este, até por uma questão de competitividade -, continuo a ir à bola com os clubes mais pequenos.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Legalize!


SEDES - Alerta II

A Comunicação Social serve para desculpar quase tudo…

Os casos da criminalidade violenta no Porto e em Lisboa, por exemplo, foram desvalorizados pelo MAI, atribuindo aos OCS a mediatização exagerada de um tipo de criminalidade que, segundo o ministério, até desceu.

Sem explicar que, a ser verdade que desceu - aguardamos o RASI de 2007 -, a criminalidade violenta, particularmente os homicídios, deixaram de ser praticados em zonas rurais e por motivos, essencialmente, passionais e de desavenças entre vizinhos, para serem levados a cabo nas grandes cidades e como ajustes de conta entre grupos criminosos rivais.
E a culpa foi dos OCS, que mediatizaram os crimes.

Voltando à questão, é pena que quem elaborada o resultado da SEDES, pessoas com responsabilidades políticas, incluindo ex-ministros, só agora, fora dos cargos, se preocupem com estas matérias, que têm, objectivamente, uma forte componente sócio-económica, fruto das políticas praticadas pelos governos nos últimos anos.

SEDES - Alerta

"Calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas de Berlim, colheres de pau ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodioviária e confronte-se com o zelo que o Estado visivelmente lhes dedicou", sublinhou a SEDES, responsabilizando os legisladores portugueses, que "transcrevem para o direito português, mecânica e por vezes levianamente, as directivas" europeias".