segunda-feira, agosto 04, 2008

Eu andei por aí - Parte II

Coisas que aprendi durante esta pausa de Verão:

No dia 4 de Agosto, em pleno mês de férias, de turismo, de desenvolvimento da nossa grande actividade económica - dizem - a PSP do Porto tinha apenas duas brigadas (quatro elementos) da Divisão de Trânsito para tratar dos acidentes rodoviários. Aprendi da pior maneira possível, estive à espera de uma delas.

Cavaco falou ao país para dizer ao Governo que ele também manda.

Já rola por aí que os centros comerciais vão estar abertos 24 sobre 24h. Assim de repente, acho que já vi este filme. Os patrões depois recuam e, para demonstrar toda a sua humanidade, não querem abrir 24 horas por dia, mas sim apenas aos domingos. Já me lembro do filme, foi o que se passou com o despedimento sem justa causa do Código Laboral do Governo, da UGT e do patronato.

Há uma proposta lançada para a opinião pública que pretende permitir qualquer coisa como prisão preventiva em part-time. É avançado que, depois de ser condenado em primeira instância, quem está em prisão preventiva e optar por recorrer da pena, passe apenas as noites na cadeia. Ou seja, fica em prisão preventiva mas, depois de condenado, passa os dias em liberdade. Faz sentido, não faz?

O Daniel Oliveira deixou de defender o Bloco para defender o Sá Fernandes.

Já temos cartaz para a Festa do Avante!.

Depois d'O Comércio do Porto, é a vez d'O Primeiro de Janeiro passar por dias terríveis para quem lá trabalha - ou trabalhava. Hoje saiu para as bancas feito pela redacção d'O Norte Desportivo.

Relacionado com o parágrafo anterior, é uma pena que o blog do JPMeneses tenha fechado - espero eu que apenas para férias e vou enviar um mail a tratar disso -, gostava de saber o que tem a dizer sobre esta situação.

Os salários dos trabalhadores podem vir a ser pagos em géneros. Eu sugiro que também os membros do Governo passem a ser pagos em género. Ontem o jantar estava algo picante e, apesar das dores abdominais e do aroma, estou disponível para ceder todos os géneros, devidamente isolados por causa da ASAE, para pagar aos súbditos de Sócrates.

"Ópera para operários

Na Festa do Avante! deste ano haverá ópera. Será, de resto, a grande novidade da festa do jornal do PCP. No Palco 25 de Abril poderá deleitar-se com árias de ‘O Barbeiro de Sevilha’, de Rossini, ‘As Bodas de Fígaro’, de Mozart, ‘Madame Butterfly’, de Puccini, e ‘Porgy and Bess’, do muito americano Gershwin. Para compensar estes desvios claramente burgueses deste Partido-Comunista-em-versão-São-Carlos, também haverá, claro... ‘A Internacional’."

O texto acima lê-se n'O Tempo das Cerejas, foi transcrito do Expresso. Para o imbecil que o escreveu, resta só dizer que, para já, os gostos musicais não pagam imposto, nem são propriedade de quem quer que seja; burguês, nobre, operário ou simplesmente estúpido. Ah! Já agora, a imbecilidade também não paga imposto. Nalguns casos, infelizmente.

Já temos Acordo Ortográfico e parece que vai mesmo para a frente. Sou frontalmente contra e a fúria deste Governo avança até ao ridículo de decretar a forma como escrevemos. Dizem que é importante por causa da projecção internacional do português. Já agora, alterem também a Lei da Rádio e universalizem o português. É que a lei considera os cantores brasileiros, que cantam no agora português universal, música estrangeira.

Amanhã há mais.

segunda-feira, julho 07, 2008

O medo

Já tinha saudades de ler o Pedro Correia escrever sobre o PCP. Desta vez o tema foi a incontornável Ingrid.

Depois de, surpreendentemente, elogiar Saramago, que ainda há uns tempos era um decrépito apoiante das atrocidades cubanas. Nos comentários ao texto cuja ligação está na primeira linha do texto, o autor fala ainda em clima claustrofóbico dentro do PCP.

Por coincidência, ainda ontem conversava sobre a minha desconfiança em relação a elevadores, quando olhava para um submarino que passava na tv.

Voltando ao post do Pedro Correia, aqui fica o esclarecimento às afirmações falsas que faz. Falta é saber se quer ser esclarecido...

VOTO DE CONGRATULAÇÃO
Ingrid Betancourt em liberdade


Após seis anos de cativeiro na selva, é motivo de justa satisfação o regresso à liberdade de Ingrid Betancourt, ex-candidata presidencial colombiana. O resgate de Ingrid Betancourt coloca em evidência a gravidade da situação em que se encontram centenas de prisioneiros na posse da guerrilha e nas prisões do regime de Álvaro Uribe e a necessidade de encontrar uma solução humanitária. Assinale-se que, sistematicamente, o Governo da Colômbia tem vindo a sabotar negociações, mediadas por responsáveis de diversos países, no sentido da troca de prisioneiros entre as partes do conflito. Os complexos problemas em presença na Colômbia, exigem uma solução política e negociada de um conflito que se arrasta há mais de 40 anos, indissociável de um regime que promove o agravamento da exploração, da repressão e das perseguições, incluindo milhares de assassinatos e brutais torturas, fortemente condicionado pela ingerência política e militar da administração norte-americana. A necessidade de uma solução negociada para o conflito na Colômbia, torna-se ainda mais urgente num quadro em que os EUA o procuram radicalizar e instrumentalizar, como justificação para o reforço da presença de forças militares e como forma de desestabilização da região e dos países que a integram, com risco de escalada militar e ameaça à paz.

Nestes termos, a Assembleia da República:
1- Congratula-se pelo regresso à liberdade de Ingrid Betancourt.
2- Exprime o seu desejo de que a liberdade de Ingrid Betancourt possa contribuir para um caminho de paz para a Colômbia.
3- Apela às partes envolvidas para que encetem negociações no sentido da libertação de todos os prisioneiros.
4- Valoriza todos os esforços orientados para alcançar uma solução política negociada.
5- Apela às partes para que se empenhem na busca de uma solução política negociada do conflito, que dura há mais de quatro décadas.
6- Manifesta-se pelo respeito da soberania do povo colombiano na definição dos destinos do seu país.

Assembleia da República, 4 de Julho de 2008

Moção apresentada pelo grupo parlamentar do PCP

Moção rejeitada com os votos contra do PS, PSD, BE e CDS.

sexta-feira, julho 04, 2008

Água vai!

No meio da lama, a Águas de Portugal pagou alguns milhões de euros em prémios aos seus empregados.

Tenho enrome curiosidade em saber se nos empregados se incluem administradores e outros funcionários de topo, mas tal ainda não me foi possível...

Alguém esclarece?

quinta-feira, julho 03, 2008

Eu andei por aí

Eu andei por aí e, nestes dias, houve de tudo.

Portugal foi eliminado do EURO, Manuela Ferreira Leite foi ver o neto a Londres e deu uma entrevista à TVI, Jaime Silva esteve no seu melhor, o Cebola foi para o FC Porto, o Benfica já contratou 387456387 jogadores, a UGT acedeu à voz do dono e assinou o Código Laboral, o Bastonário da Ordem dos Advogados voltou a debitar umas bocas absurdas e mais e mais e mais.

Sócrates deu uma entrevista e ficámos a saber que, afinal, vão ser as instituições do Estado a suportar a crise. Não será o Governo, directamente, mas as Autarquias, as mesmas que asfixiou desde que chegou ao poder.

Ou seja, as instituições privadas que lucram com a crise, vão continuar a lucrar mais e mais e mais e mais.

Volto já!

quarta-feira, junho 18, 2008

Eu prometi!




Os comunistas, esses eternos pessimistas que não percebem a economia...


"Boa noite. Há quatro anos, nesta mesma estação de televisão, Miguel Urbano Rodrigues avisava que o mercado havia de fazer disparar o preço do barril de petróleo para os 125 dólares. E. na altura, o mundo virtual da opinião bloguista, criticou-o pela visão catastrófica do capitalismo, pela visão comunista ortodoxa"
Quantos sapos envio para engolirem os mestres da economia?
Há coisas fantásticas, não há?

A vantagem das pré-campanhas e a incrível visão económica de Jorge Coelho

Construção: Portugal com maior subida mensal na União Europeia - Eurostat
O sector da construção português cresceu 10,6 por cento em Abril face ao mês anterior, conseguindo a maior subida mensal na União Europeia (UE) no sector, segundo revelam os dados hoje divulgados pelo Eurostat.

Face a Abril do ano passado, o crescimento de Portugal foi de 4,4 por cento.
De acordo com o gabinete de estatística da UE, a construção na Zona Euro caiu 2,8 por cento no mês de Abril, quando comparado com o período homólogo do ano anterior, e 0,8 por cento face ao mês de Março.

Na União Europeia, o decréscimo foi menor quer face ao mês de Março (0,4 por cento), quer relativamente ao ano passado (0,3 por cento).

Depois de Portugal, a Bulgária e a Polónia foram os países que conseguiram mais crescimentos mensais, com 6,9 e 3,2 por cento de subidas, respectivamente.

As maiores quedas deste indicador ocorreram em Espanha (caiu 6,5 por cento face ao mês anterior) e Alemanha (-2,9 por cento).

Os dados da Eurostat referem-se ao índice sazonal ajustado do sector da construção.

Notícia Lusa.


Umas auto-estradas que levam a lado nenhum, umas alienações de património a favor de privados, uns centros de 3.ª idade e aí temos um sector económico que nem se lembra do preço dos combustíveis!

Foi o melhor Coelho que o Jorge tirou da cartola!

segunda-feira, junho 16, 2008

breves

Não há tempo:

Para actualizar a lista ali ao lado;

Para perceber por que é que nos referendos sobre a UE, quando o voto é positivo é porque o Povo está informado e quer uma Europa forte; quando o voto é negativo é porque o povo é ignorante e quer castigar as políticas nacionais;

Para perceber o que estão aqueles quatro senhores a discutir no Prós & Prós;

Para perceber o que leva a RTP a ter um programa chamado "Conversas de Mário Soares";

Para perceber se a mesma RTP paga mais ao pessoal da Antena 1, que trabalha para a rádio Antena 1, para transmitirem o programa Antena Aberta na RTPN.

quinta-feira, junho 12, 2008

Lost

Um morto, pelo menos três feridos, pelo menos três camiões incendiados.

Alguém viu por aí um primeiro-ministro, nem que seja a falar inglês técnico?

domingo, junho 08, 2008

Arrastadeira (II) ou: A Esquerda, os entendimentos e os diálogos possíveis

Excertos daqui.

Daniel Oliveira:
Bruno: em que encontrou as respostas que procura.
Já agora, qual é o modelo económico, social e jurídico que, por exemplo, o PCP defende.

rms:
“Daniel Oliveira:
Bruno: em que encontrou as respostas que procura.
Já agora, qual é o modelo económico, social e jurídico que, por exemplo, o PCP defende”.
Eu sei, e o Daniel sabe quais são os modelos económico, social e jurídico que o BE defende?

Daniel Oliveira:
Eu nem sei, neste tempo que vivemos, o que é isso de ter UM modelo económico. Sei o que é ter objectivos, princípios, coisas a conquistar e a defender.
Se ler o programa do PCP é completamente social-democrata. Depois tem uma leitura ideológica que não tem, não quer, nem se deve confrontar com a realidade, pois não é essa a função que o PCP lhe atribui. A própria forma como o PCP trata o marxismo é absolutamente anti-marxista. É dogmática e quase religiosa.
Sempre que falamos de qualquer exepriência comunista os militantes dizem que não é esse o modelo que defendem para Portugal. Quando perguntamos qual é não temos resposta. E quando chegam ao fim lembram aos outros que são os únicos que o têm.
Eu não tenho um modelo. Não tenho, confesso. Tenho várias soluções, respostas e dúvidas. Coisas a que me oponho e que defendo e que tento que sejam ideologicamente coerentes. Não tenho um modelo. E sinceramente, nisto os comunistas que conheço estão iguais a mim. Também não têm. O que foi experimentado foi mau e ainda não se pensou em melhor.
Feita a confissão da minha franqueza, a de ser um ateu, ajude-me: qual é o modelo então que dá ao PCP essa superioridade que lhe permite defender o capitalismo angolano e o capitalismo chinês? Estão mais próximos do tal modelo?
É que eu só encontro uma ponto em comum nos vários regimes pelos quais o PCP tem simpatia: não há liberdade política. De resto, não há modelo nenhum.
Se me diz que é o “socialismo”, então eu digo-lhe que isso não é resposta. Também é o meu, só que esse são milhares de modelos diferentes. Se me diz que é o comunismo, tem de me explicar o que será diferente do que tivemos. Se me diz que é a reconstrução disso tudo eu dou-lhe os parabéns e digo-lhe que está tão à nora como eu e como nós todos.
Porque neste tempo podemos ter algumas certezas. Mas quem tenha uma certeza, um modelo, uma resposta, está apenas no campo da religião. Nada tem a ver com política.


rms
Caro Daniel Oliveira:
Tendo em conta a quantidade de respostas que dá a perguntas que não me fez, deixe-me clarificar que não perguntei ao Daniel Oliveira quais os modelos social, económico e jurídico que o Daniel Oliveira defende, perguntei qual os modelos social, económico e jurídico que o Bloco defende. E são coisas completamente distintas, tendo em conta a liberdade Daniel Oliveira, que tanto pode defender uma economia de mercado, como uma economia ultraliberal ou qualquer outro tipo de economia, porque o BE é isso mesmo, uma amálgama de coisas que redundam em coisa nenhuma.
O facto de haver uma linha ideológica coerente faz com que apelide de religiosa a forma do PCP de encarar a política. Está no seu direito, para mim, é só mais um rotuleiro que cataloga tudo e todos os que não concordam com aquilo que defende; e, claro, isso sim, é democracia.
Essa forma de estar, cheia de superioridade intelectual e moral que despeja aqui mais não é que um ressabiamento em relação ao PCP, que, confesso, me faz alguma confusão.
Percebo que sendo o PCP uma religião, como afirma, passe mais tempo a denegrir um sector fundamental da Esquerda que quer unir; afinal, o Daniel é ateu;
Mas sendo o PCP uma religião, como diz, espanta-me que um ateu convicto como o Daniel Oliveira não se importe de estar ao lado dos seus militantes, como acontecerá já amanhã, segundo diz - porque a repetir o que sucedeu já em variadíssimas outras ocasiões, o Daniel Oliveira irá atrás de uma faixa identificada com o símbolo do Bloco, quando os restantes manifestantes seguem atrás de faixas de sindicatos e associações, independentemente do seu partido - chama-se a isto o respeito pela diferença no seio da CGTP, que o Daniel tanto apregoa, mas quando é para propaganda, lá vem o PCP outra vez instrumentalizar a Inter.
É que, ao contrário de noutros partidos e blocos, são os militantes que fazem o PCP, não é um ideólogo iluminado que dita a conduta do rebanho.
Confesso que fiquei desiludido com o argumentário que utiliza - equiparável ao que é utilizado pela direita mais reaccionária - em relação a modelos económicos de alguns países e, neste aspecto, transcrevo:
“Embora com graus e aspectos diferenciados, deve ser valorizado na resistência à nova ordem imperialista, o papel dos países que definem como orientação e objectivo a construção de uma sociedade socialista - Cuba, China, Vietname, Laos, R. D. P. da Coreia.
Para além de apresentarem profundas diferenças entre si, estes países constituem importantes realidades da vida internacional, cujas experiências é necessário acompanhar, conhecer e avaliar, independentemente das diferenças que existem em relação à nossa concepção programática de sociedade socialista a que aspiramos para Portugal, e de inquietações e discordâncias, por vezes profundas e de princípio, que nos suscitam”.
Isto está na Resolução Política aprovada no último Congresso do PCP, o resto são devaneios do Daniel, talvez por causa do clima abafado que estava no Teatro Trindade.
Quanto ao resto:“1. No ideal e projecto dos comunistas, a democracia tem quatro vertentes inseparáveis - política, económica, social e cultural.
democracia política baseada na soberania popular, na eleição dos órgãos do Estado do topo à base, na separação e interdependência dos órgãos de soberania, no pluralismo de opinião e organização política, nas liberdades individuais e colectivas, na intervenção e participação directa dos cidadãos e do povo na vida política e na fiscalização e prestação de contas do exercício do poder;democracia económica baseada na subordinação do poder económico ao poder político democrático, na propriedade social dos sectores básicos e estratégicos da economia, bem como dos principais recursos naturais, na planificação democrática da economia, na coexistência de formações económicas diversas, no controlo de gestão e na intervenção e participação efectiva dos trabalhadores na gestão das empresas públicas e de capitais públicos;democracia social baseada na garantia efectiva dos direitos dos trabalhadores, no direito ao trabalho e à sua justa remuneração, em dignas condições de vida e de trabalho para todos os cidadãos, e no acesso generalizado e em condições de igualdade aos serviços e benefícios sociais, designadamente no domínio da saúde, ensino, habitação, segurança social, cultura física e desporto e tempos livres;democracia cultural baseada no efectivo acesso das massas populares à criação e fruição da cultura e na liberdade e apoio à produção cultural”.
O resto, encontra em
http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=13&Itemid=39#27
Já no caso do BE, não encontra em lado algum, por um motivo simples: Não se encontra o que não existe.

Ou seja, o carácter "revolucionário" do BE resume-se a pensar muito e diferente; todos diferentes. Quem pensar da mesma forma é seguidista e debita cassetes. Desde que não seja no Bloco, porque por lá todos são bem-vindos: até o deputado indignado que faltou à votação da moção de censura que o BE apresentou, embora tenha dito que votaria contra, se lá estivesse.

Basicamente, não há um fio condutor, vivem o imediato e o mediático. Espero, muito sinceramente, que o PS não consiga maioria absoluta no próximo ano. Aposto que vai dar para tirar uma série de dúvidas...

E pronto, o diálogo resume-se a isto. Agora, pelo blog que linkei lá em cima, discute-se a aliança em Lisboa entre Sá Fernandes e o PS.

O dono do Arrastão continua no esforço hercúleo de defender o homem e atacar as decisões. É a coerência bloquista.


PS: Não, o grande adversário não é o BE, mas sim a direita. Mas há coisas que não podem passar sem resposta. E falar em Esquerda sem falar no PCP, é mais ou menos como falar em francesinha sem molho...

sexta-feira, junho 06, 2008

O medo da rua

Desde putos que somos habituados a ter medo da rua. Ouvimos, vezes sem conta, o prudente "não vás para a rua" saído da boca dos nossos pais. É coisa recente, com uns 40 anos ou 50 anos. Até então, não havia muito a temer nas ruas, porque os automóveis eram poucos as estradas ainda menos, muitas o acesso a elas estava politicamente vedado.

Hoje já não é assim. A rua exige cuidados quando a atravessamos, às vezes nem a passadeira nos safa.

Santana Lopes estendeu uma passadeira que permitiu a Sócrates atravessar as eleições com uma maioria absoluta que lhe deixou um enorme campo de manobra. De mão dada com a Imprensa, Sócrates foi fazendo e desfazendo o que bem entendeu, da forma que melhor quis, deixando apenas a alternativa da rua para a contestação.

Sócrates não tem medo das ruas. Tendo em conta o seu passado político, não sei se alguma vez teve.

Ontem, nas ruas, perto de 250.000 pessoas manifestaram-se.
Para Sócrates, podiam até ter sido 1.000.000.

A constante desvalorização do governo em relação às manifestações não cansa os portugueses. Acredito que lhes dá mais força. Mas é um caminho perigoso.

Desvalorizar as formas democráticas de descontentamento contra seja o que for, é empurrar quem protesta para outros modos menos convencionais, até que sejam ouvidos e respeitados por quem tem o dever de respeitar quem representam.

A luta continua!

quinta-feira, junho 05, 2008

Premonição

"Hoje, foi a vez do ministro da Agricultura, Jaime Silva. Perante os protestos dos pescadores na Docapesca de Matosinhos, aproveitando a raras visitas de um governante fora do tempo eleitoral, a resposta do ministro: "Não gostam, peçam para sair [da União Europeia]".


A frase do ministro não é de hoje, mas de dia 3 de Julho de 2007.


Ontem, em Bruxelas, aconteceu algo inédito, na manifestação de pescadores italianos, espanhóis e franceses. Foi queimada uma bandeira da UE, algo inédito neste tipo de protestos.


Fartei-me de procurar esta foto e tirei-a emprestada d'O Quotidiano da Miséria.

terça-feira, junho 03, 2008

Esquerdas

Enquanto o comício, perdão, festa, decorre em Lisboa*, o Miguel Urbano Rodrigues dá uma entrevista a Ana Lourenço que chega perto da genialidade.

Espero conseguir publicá-la aqui e vê-la várias vezes durante muito tempo.

*Depois de ver o directo da Sic Notícias sobre o comício, perdão, festa, disponibilizo-me desde já para fazer os contactos necessários para a próxima iniciativa semelhante possa ter lugar no Salão Paroquial de Leça da Palmeira, onde cabem mais de 15 pessoas.


Ao mesmo tempo, estou certo de que no dia 5 de Junho, ao lado da CGTP, encontrarei todas aquelas personalidades que, ao melhor estilo do Fernando a.k.a "Emplastro", focaram a câmara mais do que ela focou a eles. Tudo em nome da convergência das esquerdas, claro.

É hoje!

Depois do circo que foram as eleições no PSD, temos agora um novo acto de comédia, desta vez um bocadinho mais para o lado canhoto, pelo menos no que diz respeito às bandeiras.

Hoje vai haver um super-mega-hiper "rifixe" comício de todas as Esquerdas. Claro que tem a participação desse congregador de correntes que é o BE. A tentação de aparecer a todo o custo tem destas coisas. Une o preto ao branco e depois recusa reconhecer que a única coisa que dali sai é um enorme cinzento, uma espécie de nevoeiro muito bonito ao olhar mas que, quando se levanta, só mostra vazio.

Uma unidade tão plural que fica difícil perceber se vai haver palanques e holofotes onde caibam tantos e tão diferentes - diferentes, dizem eles.

A congregação une - veja-se - o homem dos uivos, pessoas cujo único estatuto que têm é ser ex-comunistas e um deputado que suporta a maioria do PS no Governo*.

Há coisas fantásticas, não há?


* Recuperação do texto de Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Cidadania

"A entrevista de Alegre ao Público é constituída por duas páginas de imenso irrealismo, só comparável ao do próprio primeiro ministro. Alegre fala do Governo como se não fosse deputado eleito pelo partido que suporta a maioria, manifesta preocupações e sentimentos e tece considerações ao melhor estilo de Marinho Pinto - mas menos efusivo -, através de exercícios demagogia pura e dura. Até podia ser atenuado se Alegre não tivesse faltado, por exemplo, à votação do Orçamento de Estado de 2006, ou se não tivesse votado a favor do Orçamento para 2007.
A suposta oposição de Alegre ao Governo faz-se através da cobertura às decisões decisões de Sócrates, mas usando declarações de voto, onde alega, várias vezes, que "sendo eleito em listas partidárias, há situações em que, salvo circunstâncias excepcionais, não deve quebrar o sentido de voto do seu Grupo Parlamentar: programa de governo, moção de confiança e moção de censura, Orçamento de Estado".
Ou seja, não se deve quebrar o sentido de voto nos diplomas que regem as políticas, mas censuram-se as políticas.Revela, sobre a remodelação - de cargos - que não criticou pessoas, mas sim políticas..."

Post it:

A votação da moção de censura apresentada pelo PCP ou o exemplo do socialismo amigo do BE: "Vamos, então, proceder à votação da moção de censura n.º 2/X — Ao XVII Governo Constitucional (PCP).
Submetida à votação, não obteve a maioria absoluta dos Deputados em efectividade de funções, tendo-se registado 113 votos contra (PS), 22 votos a favor (PCP, BE, Os Verdes e uma Deputada não inscrita) e 78 abstenções (PSD e CDS-PP)
".

Post it 1: Só por curiosidade, alguém pode explicar por que é que foi noticiado que Manuel Alegre faltou à votação da moção de censura do BE, mas o registo de presenças online da AR de dia 16 o dá como presente?

sexta-feira, maio 30, 2008

Não há gasóleo? Comam brioches!

Eu sei que o governo não tem culpa da crise do subprime.

O governo também não tem culpa da especulação em torno do preço do petróleo.

Também não tem culpa do desenvolvimento gigantesco das potencias emergentes.

Também não tem culpa da queda do dólar.

Mas:

Só o governo acreditou que Portugal estava blindado a um agravamento da economia internacional;

É ao governo que cabe tomar medidas para atenuar o efeito da crise;

É ao governo que cabe agir com celeridade para averiguar a cartelização dos preços dos combustíveis;

É ao governo que cabe anular a dupla tributação que pagamos nos combustíveis, quando o IVA incide não sobre o valor-base do combustível, mas sim sobre o valor-base do combustível mais o ISP.

Zoo

Houve de tudo no debate quinzenal de ontem. Uivos, lobos - alguns com pele de cordeiro -, um sem-número de coisas que fez as delícias do espectáculo mediático.

Luís Fazenda prestou-se a um papel miserável ao pedir a "defesa da honra" para atacar a resposta óbvia que viria da bancada do PS, após o episódio dos uivos.

Lobos, uivos, animais, animalescos, Fernanda Câncio, Manuel Alegre, Conferência Episcopal. Sobre o que realmente interessa aos cidadãos, quase nada, a não ser que não haverá aumentos intercalares de salários e pensões, na resposta a uma pergunta de Jerónimo de Sousa.

A frase:

"O senhor primeiro-ministro não distribui a riqueza, espalha a pobreza", Jerónimo de Sousa.

quarta-feira, maio 28, 2008

Directas

Vi parte do debate entre os candidatos ao poleiro do PSD.

Pude concluir que:

Manuela Ferreira Leite é a candidata mais masculina dos quatro e acha que sofremos todos de Alzheimer;
Santa Lopes não está tão moreno como o Portas e acha mesmo, mas mesmo, que sofremos todos de Alzheimer;
Patinha Antão é uma espécie de Olegário Benquerença do PSD, um Coito Pita do continente. É isso mesmo: Patinha Antão, seja lá isso o que for. É bom para quem sofre de Alzheimer; faz rir de cada vez que nos voltamos a lembrar dele.
Passos Coelho não tem lábio superior, é tão populista como Santana e faz-nos acreditar que sofremos todos de Alzheimer, porque nunca o vimos mais gordo;


Perante o cenário, vou ali atirar-me ao leite-creme que a minha mãe deixou na cozinha.

Cristianismo

Acho que pode chamar-se cristianismo à histeria colectiva em torno do Cristiano Ronaldo.

terça-feira, maio 27, 2008

Começar bem o dia

SIC, hoje, muito cedo:

A selecção visita um centro para deficientes profundos perto de Viseu.

O jornalista para uma responsável do centro:

- O que lhe têm dito os seus utentes?

A responsável:

- ... Os utentes do centro são deficientes profundos, a maioria não comunica por palavras...

segunda-feira, maio 26, 2008

PS em Matosinhos

Para quem vive no concelho de Matosinhos, não é novidade o que a casa gasta. O PS de Matosinhos funciona mais ou menos como uma gamela de onde toda a gente quer comer. Foi assim com Narciso - que prepara o regresso -, com Seabra - que garantiu um posto junto do António Costa em Lisboa - e é assim com Guilherme Pinto.

De vez em quando, a gamela fica pequena para tanto apetite e surgem novelas como a que se vive na Imprensa local, entre o Jornal de Matosinhos, afecto ao ex-presidente da câmara e futuro candidato, Narciso Miranda, e o Matosinhos Hoje, ao lado do actual executivo.

Nada disto é novo. Noutros posts que aqui escrevi e que agora não me apetece ir procurar, referi isto mesmo e expliquei como as coisas se passam: A Câmara Municipal de Matosinhos representa a principal receita dos dois jornais. Ora, como aqui ninguém dá nada a ninguém, ou anda tudo na linha, ou a CMM retira a publicidade e deixa os jornais em maus lençóis. Desta vez coube a fava ao Jornal de Matosinhos, noutros tempos o Matosinhos Hoje teve a mesma sorte.



Mas, indo ao que realmente interessa, aqui fica o registo:


O contexto: Alunos da Escola Secundária da Boa Nova, em Leça da Palmeira, no âmbito da disciplina de Área Projecto, decidiram, no passado sábado, oferecer um almoço a alguns dos sem-abrigo que costumam almoçar na Misericórdia de Matosinhos. A organização teve honras de fotolegenda no JN.

Os sem-abrigo e as populações carenciadas: Quando a CMM foi convidada a estar presente, foi solicitado que o nome da iniciativa fosse alterado, uma vez que para a autarquia não existem sem-abrigo em Matosinhos, mas sim "populações carenciadas".

A saga do autocarro: Os alunos dinamizadores da iniciativa solicitaram à CMM um autocarro para transportar os sem-abrigo entre Matosinhos e a escola. Se primeiro a CMM acedeu, dois ou três dias antes do almoço, quando a escola procurou confirmar a cedência do autocarro, foi dito que já não havia transporte.

Do lado da escola afirmaram que não havia problema, que haviam de arranjar maneira de deslocar os sem-abrigo, mas que a recusa seria divulgada junto dos Órgãos de Comunicação Social que já haviam confirmado a presença no evento.

Do outro lado da linha, do gabinete do presidente Guilherme Pinto, alguém afirmou que já que os jornais iam estar presentes, então era melhor falar com o Presidente.


Pouco depois, surgiu o telefonema que serviu para assegurar o transporte dos sem-abrigo mas também - oh, surpresa das surpresas! - a informar que o presidente fazia questão de estar presente na iniciativa.


O almoço, as sobremesas e as calorias: Quando a comitiva chegou ao almoço, o vereador da educação, Correia Pinto, aproximou-se da mesa das sobremesas e disse a uma das Auxiliares de Acção Educativa (AAE) que se voluntariou para ajudar na iniciativa que "aquilo não é comida saudável".

A AAE retorquiu, depois de verificar que o vereador Correia Pinto não estava a brincar: "Isto é comida saudável. Para estas pessoas, isto é comida saudável. É um mimo que se dá a quem não tem o que comer".

O vereador: "Desculpe, mas eu tenho razão. Isto não é comida saudável".

A AAE: "Desculpe, mas se o senhor tem razão, eu também tenho. Para estas pessoas, isto é comida muito saudável. É disto que estas pessoas precisam".

O vereador: "Não precisa de se ofender":

A AAE: "O senhor também não".

Mais tarde, o vereador Costa Pinto disse o mesmo a uma das professoras do Conselho Executivo da escola, que respondeu o mesmo que a AAE.

A conclusão: Cada um tire as suas...

sexta-feira, maio 23, 2008

Fosso

Hoje o Bairro está de luto. Morreu o Vermelho. Era o Vermelho – poucos sabiam o nome dele. Sem o eufemismo salazarento do encarnado, era só o Vermelho.

Não o conhecia, mas conhecia-o desde que nasci. Parece estranho, não é? Mas não. Habituei-me a vê-lo quase todos os dias, nem que fosse só de passagem. Era Vermelho por todo – das pessoas mais coerente que conheci. Vermelho, por ser ruivo, benfiquista e comunista. Comunista daqueles que a vida o fez. Nunca leu Marx ou Engels ou Lenine ou discutiu o materialismo histórico ou dialéctico, nem leu O Capital ou a Crítica da Crítica crítica. Era comunista, se calhar por ser do tempo em que duas sardinhas alimentavam famílias inteiras. Em que falar verdade era um desafio à autoridade.

O Vermelho estava no lado errado do fosso, que ainda hoje faz as manchetes. Estava do lado da fome e das privações. Já não está. Ficam a mulher, os filhos e os netos de filhos sem idade para serem pais.

Para o Vermelho, só fazia sentido ser comunista. Até pelos anos escaldantes que passou na FACAR, empresa de metalurgia que a especulação imobiliária se encarregou de fechar e enviar para a incerteza do desemprego perto de um milhar de pessoas.
Foi um dos muitos filhos da ditadura fascista, que o sistema se encarregou de desestruturar. Por consequência, desestruturou-se a ele próprio e à família que sustentava. Mais precisamente, desestruturou-o o vinho. O Bairro, hoje, está deprimido. Não, não vou entrar naquela coisa tão portuguesa dos elogios póstumos, que deixa os vivos com uma espécie de sentimento de culpa por ver alguém morrer.

A bem da verdade, o Vermelho não morreu, mataram-no, e acho que é isso que revolta mais o Bairro. Atropelo seguido de fuga. Hoje, o Vermelho foi notícia.
Hoje, o Bairro chora Vermelho.

terça-feira, maio 20, 2008

82

Porque nasci no início da década de 80, consegui apanhar a tempo a boleia de algumas novidades tecnológicas que surgiram a um ritmo alucinante. Mas acho que a febre do ano 2000, que, pelos menos para quem tinha oito anos anos em 1990, seria o ano da viragem de tudo, acabou por ser uma decepção.

Os carros não voam alto; não nos teletransportamos; não fomos a Marte; um monte de coisas. Isto, partindo do princípio que o mundo não acabaria em 2000. Não acabou.

Havia uma enorme expectativa em torno do século XXI. Ouvíamos, vezes sem conta, dizerem "às portas do século XXI" para condenar atrasos ou justificar inovações. Progressos, nem por isso.

Na escola ouvíamos os prognósticos dos professores de História, de Geografia, de Português, de Inglês sobre o que seria o novo século. Tive muitos e bons professores e quase todos tinham um ponto em comum quando abordávamos o novo século: As guerras do século XXI seriam despoletadas não por religiões, não por territórios, não por petróleo, mas sim pela disputa da água. A água que foi sendo oferecida, a retalho, a compadres da autarquia que ajudaram a criar jobs para boys, de boys, de boys.

A verdade é que quase uma década depois de termos passado o ano 2000, os conflitos existentes não são por causa de água, mas sim de alimentos. O mundo rico continua a sufocar o mundo pobre, o petróleo aumenta à custa da especulação, o euro entrou em vigor e agora é uma tragédia porque os especialistas não o esperavam mais caro que o dólar, aumenta tudo de uma forma absurdamente desproporcional em relação ao que cada pessoa recebe em troca do seu trabalho.

Em 2008, vamos caminhando numa espécie de conta-gotas por baixo da pia, que já pinga há muito e vai acabar por deixá-la vazia. Conta-gotas de suor e lágrimas que milhões e milhões de pessoas vertem pelo que deveria ser básico. H2O e cloreto de sódio - é o que vêem os governantes.

segunda-feira, maio 19, 2008

2.ª feira

Que pena que o JPM deixou esta discussão a meio.

Um exemplo: Sic Notícias, jornal das 14h:

Pivô: "Os funcionários queixam-se da perda de regalias."
Abertura da peça, trabalhador: "Retiraram-nos vários direitos"

quinta-feira, maio 15, 2008

História - Paguemos

Graças à pesquisa da vasta equipa que mantém este blog, aqui fica, porque as políticas têm nomes:



Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2003


Número 3016.o


SUPLEMENTO


I B S É R I E


Sumário301B


Sup


66.o SUPLEMENTO SUMÁRIO


Ministérios das Finanças e da Economia


Portaria n.o 1423-F/2003:Liberaliza os preços de venda ao público da gasolina sem chumbo IO 95, do gasóleo rodoviário e do gasóleo colorido e marcado.


Revoga a Portaria n.o 1226-A/2001, de 24 de Outubro . . . 8778-(744)8778-(744) DIÁRIO DA REPÚBLICA — I SÉRIE-B N.o 301 — 31 de Dezembro de 2003


MINISTÉRIOS DAS FINANÇAS E DA ECONOMIA


Portaria n.o 1423-F/2003de 31 de Dezembro


Os preços dos combustíveis gasolina sem chumbo IO 95, gasóleo rodoviário e gasóleo colorido e marcado têm estado sujeitos a um regime de preços máximos de venda. Apesar de esses preços variarem essencialmente em função dos custos do petróleo, dos limites do imposto (ISP) e haver liberdade de fixação de preços abaixo do limite máximo, tem-se verificado que esse limite tem funcionado como preço de referência, adoptado pela generalidade dos revendedores. Essa prática conduz aos efeitos que um regime de preços administrativos teria, com a consequente ausência de desejável concorrência e dos benefícios para os consumidores. Seguindo a linha programática do Governo, considera-se oportuno que a política de preços da energia,e em particular dos combustíveis, assuma um carácter cada vez mais liberalizador, a exemplo do que já ocorreu nos outros Estados membros da União Europeia.


Assim, a gasolina sem chumbo 95, o gasóleo rodoviário e o gasóleo colorido e marcado deixam de estar sujeitos ao regime de preços máximos de venda ao público, favorecendo a concorrência no sector. Associada à liberalização deve estar uma adequada monitorização e disponibilização de informação à Administração Pública, por forma a garantir uma concorrência efectiva, assumindo neste quadro um papel de relevo a Autoridade da Concorrência.


Assim: Ao abrigo do disposto no artigo 17.o do Decreto-Lei n.o 329-A/74, de 10 de Julho, no artigo 1.o do Decreto-Lei n.o 75-Q/77, de 28 de Fevereiro, e no n.o 2 do artigo 77.o do Código dos Impostos Especiais de Consumo, aprovado pelo Decreto-Lei n.o 566/99, de 22 de Dezembro: Manda o Governo, pelos Ministros das Finanças e da Economia, o seguinte:


1.o Os preços de venda ao público da gasolina sem chumbo IO 95, do gasóleo rodoviário e do gasóleo colorido e marcado deixam de estar sujeitos ao regime de preços máximos de venda ao público.


2.o Os operadores ficam obrigados a comunicar à Direcção-Geral de Geologia e Energia (DGGE) semanalmente, até às 12 horas de cada sexta-feira, o preço médio semanal de venda praticado para cada produto, por concelho, por posto e por tipo de posto. Deverão também ser comunicadas à DGGE as vendas anuais desses produtos, por concelho, por posto e por tipo de posto.


3.o Caso haja indícios ou suspeita de comportamento anticoncorrencial ou de abuso de poder de mercado por parte dos agentes (revendedores ou distribuidores),a DGGE deverá comunicá-los à Autoridade da Concorrência, fornecendo toda a informação que for solicitada.


4.o Fica revogada a Portaria n.o 1226-A/2001, de 24de Outubro.5.o Esta portaria entra em vigor no dia 1 de Janeiro de 2004.Em 18 de Dezembro de 2003.


A Ministra de Estado e das Finanças, Maria Manuela Dias Ferreira Leite. — O Ministro da Economia, Carlos Manuel Tavares da Silva.

Quem tiver tomates...

... que diga que isto está desactualizado:

«O operário tornou-se uma mercadoria e é uma sorte para ele quando consegue encontrar quem a compre.»
K. Marx, Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844

Mau augúrio

O primeiro-ministro vai deixar de fumar. No campo das hipóteses, isso aumenta a sua esperança média de vida...

Post it: Não me faz grande diferença se o primeiro-ministro fuma ou deixa de fumar. O que realmente me interessa saber é de quanto será a multa que vai pagar, juntamente com todos os outros que fumaram, ou se o facto de alegar desconhecimento da lei basta para que não sofra qualquer coima.

quarta-feira, maio 14, 2008

Carta a José Sócrates

Caro Zé de Sousa:

Espero que esteja tudo bem contigo e com os teus aí na Venezuela. Por cá estamos todos bem, embora três cêntimos por litro mais pobres.

O que me descansa é que estás aí para tratar de coisas do petróleo e assim e até levaste contigo o presidente de Galp, que acha normal os preços terem aumentado 15 vezes em 134 dias. Mas não é isto que me leva a escrever-te.

Escrevo-te porque estou solidário contigo e com o Pinho, em relação ao facto de terem fumado no avião. Eu percebo, é um avião fretado e isto da Lei do Tabaco é realmente uma seca. Além do mais, um responsável da TAP já veio dizer que é comum fumar-se neste tipo de voos. Por isso, estou solidário.

Eu próprio tenho uma multa para pagar passada pela Polícia Municipal da Póvoa de Varzim, mas não o vou fazer, porque é comum e habitual estacionar naquele local. Espero que, quando começarem a vir as notificações para pagar juros e mais um monte de coisas, possa dar este teu exemplo e que sejas tão compreensivo e solidário comigo como estou a ser contigo.

Estou certo que o serás.

Teu,
RMS

segunda-feira, maio 12, 2008

Exigências

As forças de segurança têm estado, nos últimos dias, em grande destaque e não pelos melhores motivos.

De cada vez que cai um tecto, os carros não andam, há falta de pessoal, faltam os meios; enfim, faltam as condições necessárias para o desempenho da missão, vêm o MAI ou os responsáveis máximos da PSP e da GNR desculpar o indesculpável.

O MAI pretende uma cultura de excelência nas forças de segurança e, para isso, definiu como escolaridade mínima o 11.º ano para quem pretende ingressar nos concursos, uniformizando os critérios entre a PSP e a GNR.

Pelo menos, era assim a 3 de Dezembro de 2007, quando o ministro da Administração Interna referia o seguinte:

"Por outro lado, foi fixado o 11º ano de escolaridade como requisito de admissão ao curso de formação de guardas, garantindo a equivalência deste curso ao 12º ano de escolaridade. Esta medida constituirá, sem dúvida, um factor importante para a melhoria da qualificação dos militares da Guarda". Ver aqui o texto completo.

No entanto, segundo o site da GNR, de acordo com o Diário da República de 6 de Maio de 2008, a exigência diminuiu, sendo apenas necessário o 9.º ano para concorrer a Praça, como pode ler-se no Aviso n.º 13803/2008 do Comando-Geral da GNR, alínea g do ponto 7: "Ter como habilitações mínimas o 9.º ano de escolaridade ou equivalente". Ver aqui o texto completo.

Alguém sabe explicar a mudança de critérios?

sexta-feira, maio 09, 2008

Censura

Afinal, há motivos para censurar o Governo e foi o próprio José Sócrates quem o admitiu.

Sabemos todos que há e o motivo da moção de censura é um deles. No entanto, uma vez que o Primeiro-Ministro disse haver motivos, mas não disse quais, proponho o seguinte:

Apresentação de 14 moções de censura específicas:

Contra as políticas seguidas pelo Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas [MADRP]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros [MNE]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações [MOPTC]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério das Finanças e da Administração Pública [MFAP]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social [MTSS]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério da Defesa Nacional [MDN]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério da Saúde [MS]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério da Administração Interna [MAI]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério da Educação [ME]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério da Justiça [MJ]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior [MCTES]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional [MAOTDR]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério da Cultura [MC]

Contra as políticas seguidas pelo Ministério da Economia e da Inovação [MEI]

Desta forma, não há hipótese de errar no tema ou no assunto.

PS (a sigla): Aguardo ansiosamente a reacção, como sempre inflamada, vinda daqui. Só gostava que, por uma vez, o TBR se centrasse no que é o PCP e não naquilo que o TBR gostava que o PCP fosse.

quarta-feira, maio 07, 2008

(In)Segurança Interna

Ontem, no Opinião Pública da Sic, por entre alguns disparates, como a defesa da centralização da investigação criminal na PJ, Inês Serra Lopes disse uma coisa importante e que parece passar ao lado de quase toda a gente:

As medidas anunciadas pelo Governo, através do Ministério da Administração Interna e do Ministério da Justiça, são as mesmas há anos. Os 150 novos inspectores da PJ são os mesmos que há dois anos são anunciados, da mesma forma que os 4.000 novos elementos da PSP e da GNR incluem os 2.000 que estão já ao serviço e terminaram o curso em 2007. Os outros 2.000 entrarão em funções no final de 2009, já depois do final desta legislatura.

A título de exemplo, no site do MAI é avançado o seguinte em relação às novas armas, que o MAI continua a anunciar:
"Calendarização: 9 750 armas até 30 de Novembro de 2007; 7 000 a 9 000 em 2008, 2009 e 2010 e o restante em Junho de 2011 (para perfazer o total de 42 000 armas). Em 2012, o Estado pode adquirir até mais 8 000 armas".

Até hoje, as novas Glock ainda não chegaram à PSP.

No que diz respeito aos milhões (68) anunciados pelo MAI para investimento em novas instalações, inscritos na Lei de Programação de Instalações e Equipamentos das Forças de Segurança, convém recordar que, segundo o ponto 2 do Artigo 6.º, o investimento será efectuado à custa da venda do património das Forças de Segurança, ou de parcerias com outros organismos e instituições.

Daqui, podemos esperar protocolos com Juntas de Freguesia e a CP, como de resto sucedeu em Rio Tinto, em que a nova esquadra de investigação criminal ficou alojada no edifício da antiga estação ferroviária, tendo os profissionais da PSP de interromper o trabalho de cada vez que passa um comboio. Ou aberrações como a inauguração de esquadras de atendimento em contentores, como aconteceu em Leça da Palmeira, com a presença do próprio ministro. Ou como a abertura da esquadra de Corroios numa rulote.

No que diz respeito aos acontecimentos dos últimos dias, com a invasão da esquadra de Moscavide, importa referir, para além da evidente descoordenação entre a Direcção Nacional da PSP e o MAI, que é um facto que há várias esquadras que trabalham apenas com um elemento, quer seja noite ou dia. Esta foi uma situação que se agravou com a reestruturação das áreas afectas à PSP e à GNR e com a centralização de meios em algumas "super-esquadras", dispersando depois elementos pelas diversas esquadras de entendimento.

Ainda sobre os muitos milhões que o MAI diz ter destinado às forças de segurança, era importante, se calhar, tirar dessa verba gigantesca uns 20 ou 30 euros e comprar coletes reflectores para um comando de polícia do país, em que são os próprios agentes que os compram, uma vez que a instituição não os fornece. Digo eu...

segunda-feira, maio 05, 2008

E muito tempo depois...

Peço que não façam piadas fáceis com a Queima das Fitas e o incêndio na Reitoria da Universidade do Porto...

quinta-feira, abril 24, 2008

Estamos todos muito preocupados com a Fernada Câncio que até nos esquecemos do resto

"Segundo o Público de sábado, o Conselho de Redacção da Lusa considera que houve no tratamento deste caso atitudes «pouco consentâneas com a obrigação de isenção, objectividade e independência» da agência. Refira-se que o Conselho de Redacção é a entidade que os jornalistas têm o direito de eleger em todos órgãos de informação, com um importante conjunto de competências no âmbito deontológico e disciplinar, através do qual os jornalistas participam na orientação editorial. O Conselho de Redacção é obrigatoriamente presidido pelo director do órgão. O Público teve acesso a uma acta do Conselho de Redacção em que os cinco jornalistas eleitos referem a sua estranheza por, no período em que se discutia o tal caso dos projectos da Guarda, a Lusa ter noticiado «um parecer do jurista Paulo Otero, trazido em mão à Lusa por um assessor do primeiro-ministro e entregue ao director de informação, sem se ouvirem outros juristas nesta matéria".

Artigo completo.

Tiros

Francos-atiradores são uma espécie de atiradores sinceros?

sexta-feira, abril 18, 2008

bis

Pelo que consta, parece que vale a pena recordar o que escrevi a 26 de Dezembro de 2007 e lamentar que não me enganei mesmo:

"Um post com conteúdo sobre conteúdos"

O jornal O Jogo vai passar a produzir conteúdos para outros jornais da Controlinveste.

Nota prévia: O Jogo não produz conteúdos. Os jornalistas d'O Jogo produzem os conteúdos d'O Jogo. Se a lógica ainda imperasse, o justo seria dizer que os jornalistas d'O Jogo vão ceder, obrigatoriamente, o produto do seu trabalho a outras sub-empreitadas do grupo Controlinveste.

Está aqui a primeira consequência flagrante do novo Estatuto do Jornalista. Deixa de haver direitos de autor e passa a haver direitos de quem contrata o trabalho do autor.Segundo a notícia, este intercâmbio (?) vai ocorrer já no euro2008. É o primeiro passo. Depois, virão outras provas e eventos e vamos passar a ter uma espécie de mini O Jogo dentro do DN, do JN, do 24horas e, quem sabe, vamos começar a poder ouvir O Jogo, o DN, o JN e o 24horas na TSF.

Isto, até podermos ver O Jogo, o DN, o JN, o 24horas e a TSF num canal de tv que o grupo pretende lançar.Com esta "racionalização de meios" - que expressão tão na moda -, o que vai acontecer aos jornalistas "excedentários"? E aos recém-licenciados?

Como é possível ser o Manuel Tavares, jornalista antes de ser director d'O Jogo, a justificar esta medida?


O Capital, Karl Marx, Volume I, Secção 2:

O Processo de Produção de Mais Valia

"O produto, de propriedade do capitalista, é um valor-de-uso, fios, calçados etc. Mas, embora calçados sejam úteis à marcha da sociedade e nosso capitalista seja um decidido progressista, não fabrica sapatos por paixão aos sapatos. Na produção de mercadorias, nosso capitalista não é movido por puro amor aos valores-de-uso. Produz valores-de-uso apenas por serem e enquanto forem substrato material, detentores de valor-de-troca. Tem dois objectivos. Primeiro, quer produzir um valor-de-uso, que tenha um valor-de-troca, um artigo destinado à venda, uma mercadoria. E segundo, quer produzir uma mercadoria de valor mais elevado que o valor conjunto das mercadorias necessárias para produzi-la, isto é, a soma dos valores dos meios de produção e força de trabalho, pelos quais antecipou seu bom dinheiro no mercado. Além de um valor-de-uso quer produzir mercadoria, além de valor-de-uso, valor, e não só valor, mas também valor excedente (mais-valia)".

Ao contrário dos capitalistas - ou grupos económicos, chamem como quiserem -, a generalidade dos jornalistas faz sapatos por paixão aos sapatos. O novo Estatuto do Jornalista é o fim formal do Jornalista enquanto detentor da propriedade intelectual do que cria, para ser um sapateiro ao serviço dos grandes grupos económicos.

quinta-feira, abril 17, 2008

Mesmo.

Mas vale a pena reproduzir este texto desta edição do Avante!, em torno de um tema que animou a blogosfera durante algum tempo.

"Na Venezuela, a Comissão Nacional de Telecomunicações decidiu recomendar que a série de desenhos animados «Os Simpson» não fosse passada em horário infantil (como não o é na maioria dos países do mundo, incluindo o nosso). O Canal – privado – acatou a decisão, e colocou no horário antes ocupado pelos Simpson a série «Marés Vivas»".

Artigo completo: http://www.avante.pt/noticia.asp?id=24219&area=25

terça-feira, abril 15, 2008

Ah, como é bela a esquerda "moderna", "renovada" e "renovadora"

Itália/Eleições: Esquerda italiana sem representação parlamentar pela primeira vez

A coligação Esquerda Arco-Íris, que agrupa a Refundação Comunista (PRC), Comunistas de Itália (PCI), a corrente socialista Esquerda Democrática (SD) e os Verdes, não conseguiu alcançar o número mínimo para obter representação em nenhuma das Câmaras.

As explicações para a derrota da esquerda são tão variadas como as personalidades políticas que existem no país.
Enquanto o líder do PCI, Oliviero Diliberto, explicou pelo desaparecimento no símbolo da coligação da foice e do martelo, tradicionais símbolos do comunismo, o até agora porta-voz dos Verdes no Congresso, Angelo Bonelli, adiantou que não se soube comunicar bem a proposta política.

Notícia completa aqui.

sexta-feira, abril 11, 2008

Por ser p'ra ti, eu uso um eufemismo

"A crise... Perdão... Os impactos mediáticos causados pela crise internacional"*

Ficámos a saber que não é bem crise, é mais um impacto mediático.


*José Sócrates, depois do debate quinzenal na AR.

quinta-feira, abril 10, 2008

Ponte que os pariu

O responsável político pela queda de uma ponte vai agora para CEO de uma empresa de construção civil, que poderá muito bem construir...

Adivinhem lá...

Uma nova ponte!

quarta-feira, abril 09, 2008

Primavera morna

O tornado empurrou isto das aberturas, títulos, leads, chamadas.

Mas nós não esquecemos:

Cerca das 6 horas da manhã de hoje, foram chamados os bombeiros por se ter declarado fogo no Centro de Trabalho do PCP de Oliveira do Douro. As chamas acabaram por destruir completamente o Centro de Trabalho, que ocupava o rés-do-chão e cave do edifício.A PSP e a Polícia Judiciária estiveram no local para investigar as causas da ocorrência.

Estando excluída a possibilidade de um curto-circuito, todos os indícios apontam para que a responsabilidade do incêndio caiba a quem se introduziu de noite no Centro de Trabalho tendo para tal forçado a porta de entrada, conforme verificaram os bombeiros.

A Comissão Concelhia do PCP condena este acto criminoso, e diligenciará junto das autoridades competentes no sentido da identificação e responsabilização dos seus autores, assim como tomará as medidas necessárias para que a actividade política seja afectada no menor grau possível, e continue o reforço da organização e a crescente intervenção do Partido em Oliveira do Douro e no Concelho de Vila Nova de Gaia.

A Comissão Concelhia agradece as mensagens de apoio e solidariedade que tem recebido de militantes e amigos neste momento difícil.

Com os nossos cumprimentos, a Comissão Concelhia de Vila Nova de Gaia do PCP,Vila Nova de Gaia, 9 de Abril de 2008

segunda-feira, abril 07, 2008

Olá

Voltei cansado.

O ministro Mário Lino está longe - no Luxemburgo e não só - não só no Luxemburgo - não só, porque está acompanhado.

Não vai aguentar duas horas.

sexta-feira, março 28, 2008

Expresso rosa, mas não Rosa

Caro camarada

A Autoridade da Concorrência divulgou no dia 25.3.2008 uma informação, que depois foi também divulgada pelos órgãos de informação, de que os preços dos combustíveis têm aumentado em Portugal mais do que em muitos países da União Europeia.

No entanto, nada tem feito para por cobro a uma situação a que uma associação patronal do sector já classificou como especulativa. O aumento frequente dos preços dos combustíveis, maior do que nos países daU.E., que se tem verificado no nosso País perante a passividade, para não dizer mesmo a conivência, do governo e daquela autoridade, está, por um lado, a permitir que as petrolíferas acumulem elevados lucros e, por outro lado, a agravar as condições de vida nomeadamente dos trabalhadores, já que determinam o aumento generalizado dos preços de muitos bens e serviços, de que são exemplo os transportes.

Esta situação não tem qualquer justificação pois, como provo no estudo que envio, o preço do barril de petróleo tem aumentado muito menos do que os preços dos combustíveis, não podendo o aumento do preço do petróleo ser utilizado, como fazem as petrolíferas, como justificação para aumentar os preços da forma como têm feito em Portugal.


Espero que este estudo possa ser útil
Com consideração
Eugénio Rosa
Economista

NOTA: Alguns leitores destes estudos têm-me perguntado se os podem divulgar pelos amigos e conhecidos. A resposta é naturalmente afirmativa, pois o objectivo fundamental da sua elaboração é precisamente isso: que possam ser úteis ao maior numero de portugueses, não como verdades feitas, mas como contributos para a criação de um pensamento económico alternativo ao pensamento económico de cariz neoliberal dominante.

E isto só pode ser conseguido com a participação activa de muitos, uns elaborando, outros divulgando, mas todos lendo e criticando. E isto porque o controlo dos grandes órgãos de informação pelo poder económico e politico é cada vez maior e mais visível. Dou um exemplo que aconteceu recentemente comigo.

Numa conversa "amável" que tive com o dr. Nicolau dos Santos, que é o responsável da página de Economia do Expresso, em que critiquei este semanário por estar totalmente dominado pelo pensamento económico neoliberal e ser cada vez um porta-voz dos interesses dos grandes grupos económicos e das suas rivalidades, ele respondeu-me que se enviasse um pequeno artigo por mês no máximo com 3000 caracteres que o publicaria.

O primeiro com o título "Um olhar diferente sobre o Orçamento do Estado de 2008" passou na censura do jornal, mas o 2º com o título "O Programa de Estabilidade e Crescimento 2007-2011, ou a negação da ciência económica" já não passou e nunca foi publicado.

quinta-feira, março 27, 2008

Sobre a violência...

... no Tibete, vale a pena passar por aqui.

No entanto, quando se critica o PCP por motivos alheios à situação nacional, convém passar por aqui e dar uma vista de olhos, nem que seja ao de leve, pela Resolução Política aprovada no XVII Congresso do PCP, de onde passo a transcrever:

"Embora com graus e aspectos diferenciados, deve ser valorizado na resistência à nova ordem imperialista, o papel dos países que definem como orientação e objectivo a construção de uma sociedade socialista - Cuba, China, Vietname, Laos, R. D. P. da Coreia. Para além de apresentarem profundas diferenças entre si, estes países constituem importantes realidades da vida internacional, cujas experiências é necessário acompanhar, conhecer e avaliar, independentemente das diferenças que existem em relação à nossa concepção programática de sociedade socialista a que aspiramos para Portugal, e de inquietações e discordâncias, por vezes profundas e de princípio, que nos suscitam".


Mas percebe-se. Quando a nível interno falta matéria para criticar o PCP - e é preciso arranjá-la a todo o custo, porque vem aí mais um Congresso -, devido ao forte dinamismo social e político do partido, há que procurar outros assuntos para distorcer a realidade que se nos apresenta distorcida.

Post it: E, já agora, que pena que a moção sobre a condenação da guerra no Iraque tenha passado ao lado de quase toda a gente, ao que parece, porque o PS queria incluir um parágrafo sobre forças de segurança portuguesa lá estacionadas. Por coincidência, num dia em que estavam elementos da PSP nas galerias da AR, a exigir o direito à greve que, por acaso, o PS recusou.


Post it 2: Já agora, sobre a repressão chinesa e sobre o que está escrito no segundo parágrafo do post, fica aqui uma imagem retirada da galeria de fotos do Portugal Diário com a legenda "Protestos no Tibete", onde podemos ver os famosos turbantes utilizados pela polícia tradicional da China:

Foto Lusa

sábado, março 22, 2008

Sentença

Surpreendentemente, o Daniel Oliveira, já sentenciou que o caso da professora do Carolina é um exemplo de falta de vocação da docente. O que surpreende não é o acto desculpabilizar a aluna, vindo de um determinado sector da esquerda que abomina a autoridade. O que surpreende, mesmo, é achar que alguém não tem vocação porque tem uma aluna que transpira imbecilidade.

É certo que o ambiente social de algumas escolas, bem como o ambiente familiar, são propícios a algumas situações de confronto, quando os alunos são confrontados com um tipo de autoridade que desconhecem dentro das paredes de casa.

Eu também defendo que o contexto social influencia fortemente a personalidade de quem quer que seja. No entanto, o que se passou naquela sala de aula vai muito além de um contexto social particular. Foi um acto de desrespeito brutal com quem tem o dever de ensinar, caucionado por toda uma turma que assistiu a tudo.

Não conheço o contexto social de toda a turma, mas acredito que o Daniel também não.

Como estudante, as imagens que vi repugnaram-me, mas não me surpreenderam. Quando estudava no secundário - e não foi assim há muito tempo - qualquer coisa deste género era impensável.

Hoje, são situações recorrentes. Tenho um familiar bem próximo que trabalha numa escola, como auxiliar de acção educativa, e o ambiente nos estabelecimentos de ensino é de cortar à faca. As reformas educativas recolocaram nas escolas alunos que estão lá apenas a passar o tempo - já que não podem ser reprovados, vão saltando de escola em escola -, onde se misturam crianças com 12 e 13 anos com outros de 18, que frequentam o ensino profissionalizante.

Obviamente, as generalizações caem sempre no erro. Mas o sentimento de impunidade atravessa todos os sectores da sociedade e as escolas não fogem à regra.

Na situação concreta, o Daniel avança com uma não-solução brilhante: "Uma professora não fica dois minutos a disputar um telemóvel com uma adolescente. Não o faz, ponto final. Chama outra pessoa, manda a aluna para a rua, interrompe a aula… Qualquer coisa". Pois... "Qualquer coisa". É precisamente no "Qualquer coisa" que está o segredo. Ninguém sabe o que fazer mais nestes casos. Não sei se o bloquista achará que os auxiliares de educação educativa têm outro tipo de autoridade perante estes alunos. Se acha, está enganado. Hoje, não têm.

Que o público-alvo do Bloco está nos jovens urbanos, todos sabemos, mas o princípio eleitoralista não é próprio de alguém que se diz de esquerda. Ao populismo da direita, estamos todos habituados, com o seu expoente máximo no Parlamento: o Paulinho das amêndoas; mas da esquerda espera-se outra seriedade e outros princípios que, manifestamente, o Daniel não tem.

quinta-feira, março 20, 2008

Ah! Como era bom ter um líder espiritual nestas alturas!

EUA reprimem manifestantes

200 detidos por protestar contra a guerra no Iraque

Mais de 200 pessoas foram hoje presas nos EUA durante os protestos contra a guerra no Iraque.

URAP

Depois de Santos Siva, chegou a vez de Marcelo Rebelo de Sousa revelar-se um combatente anti-fascista.

Ao que parece, a PIDE seguia-o desde os 3 anos e 4 meses, por comportamento subversivo. Não bebia o leite, berrava muito e tinha a mania de cerrar os punhos.

Sobre isto, o Vítor Dias diz quase tudo, e o que fica por dizer, certamente que não é a ele que compete esclarecer.

quarta-feira, março 19, 2008

MyDay

Eu gostava mesmo que, um dia, a B. visse em mim um décimo do que eu vejo no meu pai.

Hoje, como todos os dias, o meu dia é dela.

terça-feira, março 18, 2008

Ainda é notícia?

"Desapareceram 200 fichas de militantes"

"Isaías Nora indignado contra a situação que se vive no interior do PS de Matosinhos"

"Candidato à Secção revoltado contra ditadura, ambiente pidesco que se respira entre nós e o salazarismo que aposta na decapitação do JM – que é independente e cumpridor – para retirar da “fossa” concorrente transgressor. No protagonismo de ataque à Liberdade e aos Direitos do Homem, o Comandante-Chefe das Operações é o presidente da Câmara Guilherme Manuel Lopes Pinto".

...

E a pré-campanha por Narciso:

"As acusações estendem-se, igualmente, à Câmara Municipal. Lembra que quando Narciso Miran-da foi autarca, era considerado o «presidente do povo», porque abriu a Câmara aos cidadãos que perderam «o receio de falar com um intelectual que era o presidente, e passaram a comunicar aberta-mente".

...

E a transparência, claro:

"O candidato à Secção adverte que «há uma empresa, administrada por uma pessoa do PSD, que paga as quotas de militantes do PS inscritos por António Parada".

...

E tudo desinteressadamente, em prol da verdade:

"Relativamente aos problemas que o JM enfrenta, com o corte da publicidade, da situação da Avenida Joaquim Neves dos Santos, Isaías Nora considera que o que «está a acontecer com o jornal é um corte da liberdade".

Sempre foi assim, na margem sul do Rio Leça. Dois jornais, uma rádio. Ou alinham, ou acaba-se a publicidade. Há uns anos, passou-se o mesmo com o concorrente do Jornal de Matosinhos, que, por mera coincidência, traz uma entrevista do presidente Guilherme Pinto a apelar à união dos socialista.

Exemplo de resistência espiritual

O líder espiritual dos tibetanos, o Dalai Lama, anunciou que poderá retirar-se do lugar se a situação no Tibete piorar.

segunda-feira, março 17, 2008

Hoje não me apetece

Hoje não me apetece falar sobre como foi possível encaixar 10.000 pessoas onde cabem 3.000, sobre as fotos que (não) se viram do que foi o comício do Governo, sobre a confusão do PSD.

Hoje, não. Estou um bocado nostálgico e um comentário do Miguel, ali em baixo, para além de uma conversa no msn com o Toninho Barroso, fez-me ter saudades do falecido O Comércio do Porto.

Quando entrei naquele edifício da Rua Fernandes Tomás, rumo ao sexto andar, não fazia ideia do que iria encontrar. Sei, apenas, que quem lá estava ia encontrar um puto de 17 anos, com cabelo comprido e calças rasgadas e cheio de vontade de fazer coisas.

Fui para a secção do desporto, uma secção à parte, por ser um caderno à parte. Lá, encontrei pessoas fantásticas que ainda hoje guardo comigo, mesmo não falando há anos com algumas delas.

Hoje ainda sei a disposição da sala e de quem lá estava.

O Barroso, mestre da sabedoria, revisionista e ex-ranger de Lamego que nunca o foi, era o gajo com mais cd's e dvd's, não só do desporto, mas de toda a redacção, estava junto à janela, com um rádio semi-morto para ouvir a Bola Branca e, de vez em quando, a Born Slippy, dos Underworld.

Mesmo ao lado, o Horta. À frente do Horta, o Pedro Couto ou a MJ Leite, mesmo ao lado do Miguel, que se sentava de costa para a Olga - mas não por motivos pessoais, acho. À direita da Olga, e num papel de quase patriarca e de mestre de sabedoria futebolística, estava o enciclopédico sr. Miranda - o único sr. de toda a redacção. Nunca, mas mesmo nunca, vi alguém saber tanto sobre tudo - à excepção do Barroso, claro.

À direita do Miranda estava o Vaz Mendes, diante da Patrícia, que, por sua vez, ficava ao lado do Catarino ou da Sónia CS.

Naquele espaço minúsculo, no computador do Vaz Mendes, escrevi um primeiro texto sobre os locais de diversão nocturna que estariam abertos na noite de 24 para 25 de Dezembro. Adorei.

Depois, naquele Mundo novo, o petit-communiste - eu próprio - foi transferido para a secretaria da redacção e, depois, para a agenda. Basicamente, fui um estafeta. Para onde não ia ninguém, ia eu. E isso permitiu-me conhecer o trabalho de um jornal desde o nascimento da edição até à morte, no dia seguinte.

Fora do desporto, o Carlos PS, o Soares, as Susanas, as Cidálias, a Fátima, o Ferreira, o Neves, o Bessa, a Mónica, a Manela, o Vinhas, o Maurício, a Ana CG, a Natália, a Patrícia, a Dora, o Pipa, o Reisinho; nas fotos, o meu homónimo e o Jorga; na paginação a Mónica e muitos outros, que fizeram daqueles dois anos talvez dos melhores que alguma vez tive.

E, hoje, tenho saudades deles todos, mesmo dos que não nomeei.

domingo, março 16, 2008

Carta que seria para a minha mãe se ela estivesse muito longe, o que não é o caso

Querida mãe,

Escrevo-te para te contar como estão as coisas por aqui. Hoje houve grande festa aqui no Porto, milhares e milhares e milhares de pessoas encheram o Pavilhão do Académico para apoiar o nosso Primeiro.

Sim, eu sei que não é como o Pavilhão Atlântico, que a malta comuna encheu no ano das presidenciais e ainda ficaram mais uns 10.000 de fora. Pois, no Atlântico não havia o palco montado no centro nem zonas vedadas por causa de ecrãs gigantes.

Mas foi uma festa linda, esta aqui no Porto. Havias de ver! Avenidas cheias, quase como naquela manif da CGTP que juntou mais de 200.000 pessoas, mas de que ninguém parece lembrar-se. Ou daquela que juntou umas 50.000, há duas semanas. Bonito de se ver.

Sabes, mãe, o pessoal do Partido Socialista é o mais democrático de todos. Tão democrático que, para poderem estar presentes neste comício, foram seleccionados pelas concelhias para serem contactados. Dizem por aí as más línguas que houve gente que foi vetada.

De manhã os jornais vão ter primeiras páginas lindas, cheias de rosas e assim.

Depois vou guardá-las para te mostrar.

Teu,
RMS

sexta-feira, março 14, 2008

Alió?

- Alió? Compañero! Comistás?

- ....

- Si, soy José...

-...

No, no no soy Aznar... Soy Socrátes, hombre!

-...

- Mira muchacho, muchas felicitaciones. Estiamos muy felices con tu triunfo.

-...

- Sy, sy, fiesta rijia! En el sábadio juntiamos en Lisbioia más de 100.000 persionas! Muy bonito, muy bonito.

-...

- Prióximio sábadio? Uno ajuntamiento de amiguios en Porto. Una fiesta muy guapa que vou a proporcioniar, soy un hiombrie muy generiosio, me dice mi madre.

-...

-Mira, necessitavia de caramielios de Badajioz, puedes me trazier-lios?

-...

- Ah, entiendo. Muchas felicitaciones. E no te esquiecias, Olivencia eres nuestria! Arriba muchacho! Muchas tapas para ti e pimentos de padron e otras cosas mas...

-....

- No, no te preocupies con los brasilierios, acá son ótimos dientistas!

Post it - Afinal, tive de contradizer o que disse aqui...

quinta-feira, março 13, 2008

Democracia, essa grande filha da puta

Uma das coisas fantásticas da democracia é eu poder fazer o que quiser dela, enquanto palavra ou enquanto conceito.

Não é propriedade de quem quer que seja e todos podemos usá-la. Com ou sem manifestações, com ou sem contestação. Sofremos, depois, as consequências dela. Inerente à sociedade democrática surge a responsabilidade individual. Em democracia, eu posso fazer o que bem entender, sujeito depois às respostas socialmente instituídas, sejam sociais ou judiciais.

Aqui no Porto, o insulto assume uma beleza democrática considerável. Qualquer gajo que não abrande num sinal de aproximação de estrada com prioridade é um filho da puta; se conduzir um topo de gama ainda melhor, porque é um chulo filho da puta, cujo pai é o tio.

Levamos tudo isto no melhor espírito democrático. Nuns dias são eles os filhos da puta, no dia seguinte sou eu. Acho que aqui ganhamos fígados para aguentar estas coisas.

Eu já insultei tantas vezes tanta gente, até a mim, que não há texto legível que aguente tanto palavrão e tantos destinatários. Mas também já fui insultado. Também insultei enquanto manifestante, mas também já fui insultado enquanto manifestante.

Também já insultei figuras públicas, desde políticos, artistas, actores, actrizes, futebolistas, escritores, comentadores, tudo. Mas mesmo tudo. E não me considero por isso menos democrata.

Pode ser difícil de perceber, mas, mesmo assim, tenho respeito pelas instituições e pelas pessoas. O insulto é quase uma interjeição, ainda mais numa manifestação, seja ela política, desportiva, tantas...

Adoro a democracia. Todos os que lutaram e lutam por ela, seja desde 1973 ou desde 1921, merecem o meu respeito, concorde ou não com eles.

Mas negar ao PCP e ao Álvaro Cunhal o seu papel na história da luta democrática é cuspir na memória de muitos milhares de pessoas, como seria negar o papel relevante de Mário Soares até 1974.

Daí em diante, as contas são outras. Mas, até lá, a liberdade foi construída por todos os Álvaros Cunhais e Mários Soares dos partidos e movimentos democráticos de trabalhadores, operários, camponeses, mineiros, militares, intelectuais.

É esta diversidade da liberdade democrática que me permite dizer as enormidades que quiser, assumindo as consequências delas.

É uma consequência democrática da própria democracia, essa grande filha da puta!

quarta-feira, março 12, 2008

Cancio(neiro) do costume

À falta de melhor, a insuspeita Fernanda Câncio analisa a entrevista de Jerónimo de Sousa à SIC tendo como ponto de partida uma suposta deficiência no português utilizado pelo Secretário-geral do PCP.

Confesso que, se aconteceu, escapou-me, e não é algo que costume acontecer. Mas até dou isso de barato.

Começa, depois, num rol de certezas quase científicas sobre a criminalidade, quando, na verdade, confunde os números. A criminalidade não desceu dez por cento. A criminalidade violenta desceu 10 por cento, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, de que o MAI foi divulgando, às pinguinhas, números para combater o sentimento de insegurança, embora a divulgação oficial esteja apenas prevista para 15 de Abril. De qualquer forma, se a autora se permitisse a tal, importava esclarecer que a criminalidade geral aumentou 2 por cento.

Sobre isto, passo a transcrever, ainda sobre a confusão dos dez por cento: "O ministro da Administração Interna afirmou que «a partir de 2003» houve «uma tendência de estabilização e mesmo de algum decréscimo» na criminalidade, embora reconheça que «entre 2000 e 2006 aumentou 8.8 por cento», aproximando-se do INE, que aponta 10 por cento", no Portugal Diário de 14 de Fevereiro de 2008.

Passamos depois ao "portanto", que a Fernanda Câncio considera ser palavra-tique pc. Sugiro desde já que o anti-fascista-libertário-ex-trotskista-ex-maoísta elabore um dicionário de boas práticas linguísticas para que possamos escolher quais as palavras comunas e as mais democráticas, devidamente caucionadas pelo PS.

O PCP foi pioneiro, como em muitas outras coisas, em defender o papel activo das mulheres na sociedade, por muito que lhe custe, e quando Jerónimo de Sousa diz que "uma trabalhadora que chega a casa para tratar dos filhos" é porque as coisas se passam, de facto, assim. Por muito que lhe custe e por muito que custe a todos nós. Por uma questão de demagogia retórica, a Fernanda Câncio preferia que fosse utilizado o masculino. São opções.

O incontornável Cunhal também surge no texto. E, por estranho que possa parecer, surge em todos os textos que a autora escreve, escreveu e escreverá. Pelo simples facto de os poder escrever.

Voltando ao português, transcrevo: "
Há precisamente 30 anos, ao entrar pela primeira vez no Palácio de São Bento, Jerónimo de Sousa não fazia a mínima ideia de "como era isso de ser deputado".

Quando o DN lhe propôs um regresso às memórias dessa época, o actual secretário-geral do PCP lembra a ruptura que se registou entre a velha Assembleia Nacional da ditadura e a Assembleia Constituinte que contribuiu decisivamente para firmar os alicerces do regime democrático.

"Vínhamos de uma assembleia fascista, com uma composição muito classista, onde um operário não tinha entrada."Nesse mês de Junho de 1975, o contraste não podia ser maior até o PPD e o CDS exibiam operários na sua bancada. Mas nenhum outro grupo parlamentar como o PCP tinha tantos "membros da classe trabalhadora", como se dizia na terminologia marxista, muito em uso na época.Um desses operários, oriundo de Alpiarça, era António Malaquias Abalada - um operário agrícola já idoso que mal sabia ler ou escrever. Ao fazer uma das suas primeiras intervenções no plenário, com um discurso escrito na mão, este deputado começou a ser alvo de chacota generalizada, bem perceptível em diversas bancadas da Constituinte. Um episódio que indignou Jerónimo de Sousa.

Três décadas volvidas, o dirigente máximo do PCP guarda todos pormenores da cena, que reconstitui com visível emoção."Aconteceu num dia em que se discutia uma norma transitória que o PS e o PPD acabaram por incluir na Constituição da República. Esta norma, na altura, permitiu a libertação de todos os pides. Esse meu camarada António Abalada, que tinha passado pelas masmorras da PIDE, fez então uma intervenção, naturalmente sentida. Mas lia de forma muito deficiente - gaguejante, soletrando mal as palavras. Então a Assembleia Constituinte desatou numas gargalhadas visivelmente humilhantes", recorda Jerónimo de Sousa.O que se passou então? O secretário-geral dos comunistas continua a lembrar o episódio "Então esse meu camarada largou o papel que tinha na mão e falou assim: 'Estão-se a rir de mim porquê? Por eu não saber ler? Pois: é que eu, aos sete anos, já andava a guardar gado; aos 17, fui preso pela PIDE. E quando fui preso não me perguntaram se eu era do CDS ou do PS ou do PPD. Perguntaram, isso sim, se eu era do Partido [Comunista Português]. E foram os meus camaradas intelectuais deste partido que me ensinaram as poucas letras que eu conheço'.

"Aquelas frases espontâneas, proferidas como reacção à deselegância dos restantes deputados, constituíram uma autêntica lição de vida. "A verdade é que o hemiciclo emudeceu. E o camarada Abalada lá continuou a ler - manifestamente mal, como já fizera anteriormente - a sua intervenção sobre a tal norma transitória", recorda Jerónimo de Sousa, também ele com raízes operárias.Mesmo com tantos anos decorridos, a emoção é visível na face do secretário-geral comunista ao desfiar esta memória dos seus tempos de deputado constituinte. "Aquele foi um dos momentos mais impressionantes que eu testemunhei no hemiciclo de São Bento, no sentido de classe. E foi também uma lição para a arrogância intelectual de muitos deputados", conclui Jerónimo de Sousa.

E, já agora, falando em bom português, parece que as maiúsculas ainda constam na nossa gramática...

Pensamento vazio

"Não perdemos tempo a pensar no que fizemos mal" - Vitalino Canas.

Ora, eu diria que também não tem muito tempo para perder quando pensa no que fizeram bem...