terça-feira, abril 12, 2011

É penalty?*

Caiu o governo. Bem, dizer que caiu não será a expressão mais adequada. Na verdade, o governo não caiu; só aproveitou uma entrada de carrinho de Cavaco Silva no novo mandato como Presidente da República para se fazer ao penalty.

E Pedro Passos Coelho caiu como um pato, sedento que estava para avançar para eleições. Apontou para a marca dos 11 metros e disparou contra o PEC IV, depois de ter dado carta branca para os três anteriores, mais um Orçamento de Estado pelo meio.

Na verdade, não só não houve grande penalidade como Passos Coelho demonstrou ser o Olegário Benquerença da política. Sócrates sabe que o PSD, se ganhar as eleições, vai fazer um trabalho tão mau, ou pior, do que o PM demissionário vinha praticando. E isso dá a Sócrates uma almofada confortável para a campanha. Até porque Passos Coelho anunciou, logo após a demissão do PM, que aumentará o IVA.

A par disso, por coincidência, o Eurostat veio pedir informações ao muito nosso Instituto Nacional de Estatística sobre as contas do nosso défice, que, ao que parece, está um bocadinho acima do previsto, fruto da nacionalização dos prejuízos do BPN.

Felizmente, o mundo não é a preto e branco, ou a rosa e laranja, no caso. Há mais vida para além do que todos os dias nos apresentam como inevitável. E não, não são todos iguais. Mal estaríamos nós se, em 10.000.000 de habitantes, não houvesse diferenças. Saibamos nós distingui-las, para que percebamos que aquilo que temos em Portugal não são os políticos que merecemos; são antes os políticos que queremos, que escolhemos e que escolhemos não ser.


*Publicado na edição de Abril do Notícias de Matosinhos

quinta-feira, abril 07, 2011

O meu reino por uma lata de sardinhas

No mesmo dia em que José Sócrates, "com seu ar grave e sério" - desculpa, Carlos Tê, merecias melhor - anunciou o que tinha desmentido há três dias, houve um episódio curioso, no Lidl que fica ao lado do bairro, ali para os lados de Leça.

Enquanto o Luís dizia de sua justiça sobre o melhor perfil de Sócrates, lá em casa comentava-se a situação do país, intervalada pelas tiradas da B. e do T., que ainda não percebem bem o que nos seduz nos noticiários e nas declarações do senhor que fala como se estivesse a dizer uma coisa que não lhe agrada.

Voltemos ao Lidl, que é mais barato e tem sempre promoções. Não, vamos antes ao FEEF, que mais não é do que o FMI e a UE juntos. Sócrates falou para desmentir o desmentido que o seu governo de gestão tinha feito durante a tarde a uma notícia do Financial Times. Portugal vai mesmo pedir "ajuda" externa. Mas foi a meio de uma semana difícil, compreende-se. Desde segunda-feira que os donos dos principais bancos, um a um, anunciaram que não emprestavam mais dinheiro ao Estado. O mesmo Estado que, não há muito tempo, havia criado um fundo para salvar o sistema bancário, mais a nacionalização dos prejuízos do BPN. Vem aí uma "ajuda" que exigirá cortes nos salários e possíveis supressões dos subsídios de férias e de Natal. São assim, as "ajudas" dos nossos irmãos europeus.

Horas antes. No Lidl. Uma senhora de idade, na casa dos 70, foi apanhada a roubar. Uma lata de sardinhas. O senhor segurança privado, orgulhoso, comentou com o senhor João: "Já a apanhámos". Não só a apanhou. Chamou a polícia. Sim, o segurança chamou a polícia por uma septuagenária ter roubado uma lata de sardinhas.

O senhor segurança há-de ter o que merece, agora, quando formos todos "ajudados". E quando ele próprio perceber no ridículo em que caiu - embora isso possa muito bem nunca acontecer.

quinta-feira, março 03, 2011

12 de Março - Eu vou!

Confesso que não tive de pensar muito para confirmar a minha presença no dia 12 de Março. Afinal, não é apenas uma data, um acontecimento. É a celebração da luta, de décadas de resistência e com os olhos postos no futuro.

No dia 12 de Março estarei ao lado daqueles que não se conformam, daqueles que, licenciados ou não, estão fartos do rumo que querem impor-nos, da fatalidade da precariedade, do desemprego, dos salários miseráveis e da desigualdades.

No dia 12 estarei ao lado de quem, como eu, luta todos os dias contra o estado a que isto chegou, assumindo os erros que cometemos e enfrentando todas as dificuldades com que nos deparamos.

Não tenho formação superior por opção própria. Toda a gente sabe que, nos dias de hoje, qualquer calhau com olhos arranja um canudo - que está longe de ser sinónimo de conhecimento. É também por aqueles que, como eu, ficaram de fora dos Deolindas de serviço e são escravos mesmo sem terem estudado que estarei mais uma vez em luta no dia 12 de Março.

É pelo exército de desempregados que no dia 12 estarei ao lado deles, mesmo que muitos deles não o reconheçam, nem hoje, nem quando chega a hora de decidirmos o nosso futuro. É uma manifestação a favor da política, da participação participação política de todos a favor de soluções concretas e objectivas.

Dia 12 de Março será mais uma tremenda acção de luta, de protesto e, acima de tudo, de esperança.

No dia 12 de Março estarei no Comício dos 90 anos do PCP.





quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Quanto vale o espaço mediático?

Vale tudo.

Francisco Louçã acaba de anunciar uma moção de censura, depois de o PCP ter dito que esta seria uma possibilidade.

No entanto, no dia 6 de Fevereiro: "Sabemos que no dia em que estamos a discutir não tem qualquer utilidade prática a apresentação de uma moção de censura", disse Louçã.

Moção de censura sem «utilidade prática»

Depois das Presidenciais, o BE perdeu o norte, a vergonha e os princípios.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

O milhão

Já não se falava tanto no "milhão" desde as penúltimas Presidenciais, quando Manuel Alegre o carregava às costas, em boletins de voto que foi perdendo pelo caminho até ao mês passado.

Agora, o milhão volta à carga numa manifestação que muito dificilmente sairá do Facebook, cujo objectivo é, passo a citar, "Pela demissão de toda a classe política", seja a classe política o que for. Mas ok, venha de lá esse milhão e a demissão da classe política. E depois vem o quê? Os militares? A classe política engloba governantes, deputados e autarcas? Isso resolveria exactamente o quê?

Nada, obviamente. Nada, porque agir sem uma linha condutora comum entre o milhão que pretenda construir uma alternativa, equivale a nada.

As imagens do Egipto e da Tunísia, as que hão-de vir da Síria e do Iémen dão enorme alento a quem quer mudar. Mas não é mudar para que fique tudo na mesma, é mudar efectivamente, de política, de economia, de relações laborais. E é essa mudança que a suposta manif não alberga. Dali não sai uma ideia, um princípio ou um fim. Os países do Magrebe lutam, precisamente, porque querem uma classe política em vez de uma classe dirigente. Nós, no nosso fado habitual, queremos andar para trás e substituir a classe política, que podemos escolher livremente, por uma classe dirigente. No Magrebe luta-se pela democracia que nós temos. Nós lutamos por coisa nenhuma, porque ou está demasiado sol para ir votar, ou demasiado frio, ou demasiado vento. Ou porque quando chegamos à cabina de voto olhamos para todos os quadradinhos mas a cruz acaba sempre nos do costume. Ou então porque é sempre mais fácil indignarmo-nos na poltrona.

Não sai, sequer, uma indignação genuína com alguma coisa. Sai uma indignação contra tudo aquilo em que se deixaram enredar, umas vezes por culpa própria, outras por culpa própria e de outros intervenientes, que Álvaro Cunhal tão bem explicou:

"Quando as forças reaccionárias dispõem e abusam do Poder, dos recursos e do aparelho do Estado, dos órgãos de comunicação social, nem sempre falar verdade conduz ao êxito imediato. Exemplo flagrante no tempo da ditadura fascista foram as perseguições, as torturas, as condenações, os assassínios de comunistas pela suprema razão que os comunistas diziam a verdade ao povo.
Exemplos flagrantes depois do 25 de Abril é o sistemático silêncio ou a grosseira deturpação das posições do PCP pelos grandes meios de comunicação social controlados pelo governo e a incriminação e condenação como caluniadores daqueles que com inteira verdade desvendam casos gravíssimos de corrupção nas mais altas esferas. O amor pela verdade pode temporariamente custar caro a quem o exercita. Mas a verdade acaba por triunfar da mentira. A política da mentira está condenada à derrota final. É à política da verdade que o futuro pertence."*

Agora podemos voltar a sintonizar a Al Jazeera e olhar, embevecidos, para a coragem daqueles povos, que não querem mais do que nós temos; ao passo que nós achamos que queremos o que eles não querem.

*Álvaro Cunhal, in O Partido com Paredes de Vidro

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Presidenciais - Uma análise a frio

Voltei às mesas de voto no passado domingo, para as Presidenciais, cujos resultados já foram analisados e mais que analisados por toda a gente e mais alguma.

Parece-me que falta, no entanto, uma análise a frio. Ao frio, mais precisamente. O choque tecnológico ainda não chegou à Escola Secundária da Boa Nova. Há 15 anos, quando entrei lá pela primeira vez, o frio que se fazia sentir nas salas de aulas, se não for o mesmo, é muito parecido. Tinha 13 anos quando cheguei à ESBN, cheio de frio e com herpes, ainda por cima, por causa do cieiro. Desde então, no que diz respeito ao aquecimento das salas de aula, nada foi feito.

Ao fim de 15 anos já alguém devia ter reparado que, quando está frio, está mesmo muito frio, particularmente nas salas viradas a nascente, entretanto tapadas pela construção desenfreada que aconteceu em Leça da Palmeira.

Já que se fala na ESBN, vamos mais atrás buscar o benzeno, salvo seja, que aquilo é coisa para fazer mal às pessoas. A proximidade da Petrogal é inevitável. Em Leça tudo é próximo da Petrogal; não porque Leça seja uma cidade pequena - é um mundo, como todos sabem - mas porque a Petrogal é mesmo muito grande.

Reza a lenda que os efeitos dos gases libertados pela refinaria se fazem sentir em zonas mais altas, como em Valongo e afins, o que até faz sentido, dada a dimensão dos "canos da Sacor". Deles se dizia que teriam de ser 10 metros mais pequenos, porque estavam a queimar as miudezas ao S. Pedro, mas isso é outra história.

Se no que à refinação diz respeito pode ser verdade, não é menos verdade que a Galp também trabalha com aromáticos, cujos gases são libertados ao nível do solo. Eu sei que há um estudo da Quercos, salvo erro, que conclui que a ESBN está construída precisamente no canal por onde passam esses gases, devido à direcção do vento que por norma se faz sentir. Obviamente, esse estudo há-de estar guardado em alguma gaveta da CM de Matosinhos, da Galp ou de uma qualquer direcção do ambiente.

Interessante seria estudar o impacto que este facto tem na saúde da comunidade escolar, nomeadamente entre aqueles que por lá ficam mais anos, professores e funcionários, e se há ou não uma relação directa com os casos de cancro que por lá existem.

Ficamos a aguardar.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Esquerda a qualquer preço?

Pode, Nuno, claro que se pode mudar a esquerda. Para sermos verdadeiros e objectivos, ao longo dos anos, só a esquerda é que mudou. Na forma como aprendeu com erros - e houve alguns - ao longo da história, como avalia o mundo, como o interpreta, como pretende mudá-lo. O mesmo não pode dizer-se da direita, que mantém hoje, como ontem, os mesmos objectivos de sempre. O capital apátrida concentrado num punhado de gente e conquistado à custa dos povos e dos trabalhadores, da manipulação da verdade e da mentira.
Acredito convictamente que a esquerda há-de ser poder e veremos todos como teremos um mundo melhor, mais justo e solidário, mais fraterno e mais igual. Já não acredito, nem quero, é que o consiga a qualquer custo, sem princípios nem coerência, sem lealdade e sem objectivos claramente definidos.

A esquerda é a verdade, tem de representar a verdade e a honestidade intelectual. De outro modo, nunca será esquerda, ou sê-lo-á apenas nas páginas de jornais dedicadas a uma esquerda que vende bem. Em Portugal, nos dias de hoje, o apelo a uma união de esquerdas implicaria por si só o fim das esquerdas. Falando por mim, que jamais estaria ao lado de um projecto com alguém que tem este baixo nível intelectual ao falar da esquerda com que me identifico. Por um motivo óbvio: eu defendo o meu projecto de esquerda e não outro, é por ele que luto e que procuro mobilizar e esclarecer mais e mais gente.

Também seria necessário saber o que querem ao certo as outras esquerdas. No caso do BE, o que quer o BE? Quer a solidariedade internacionalista que até enviou o Soeiro à Grécia para acompanhar a contestação social, ou quer o apoio às medidas de austeridade para aquele país que votou na AR? O que se retira daqui? Qual é projecto para além do folclore?

E no PS quem será de esquerda? Quem haverá naquele partido que suporta o Governo que seja de esquerda e que entenda os cortes salariais, que entenda a redução na fórmula de cálculo das indemnizações por despedimento? Quem restará de esquerda e apoie um partido que, de Soares a Sócrates, desgraçou o país e fez nem mais nem menos aquilo que fariam PSD e CDS? A grande diferença, é que a esquerda tem as costas largas. E a cobro dela o PS desfez grande parte das conquistas de Abril.

A esquerda será poder quando o povo quiser ser esquerda. E não é a esquerda que tem de ser menos esquerda para que o povo assim queira. O trabalho de um militante de esquerda faz-se nas escolas, nos locais de trabalho, nos cafés e na web, com a apresentação de soluções alternativas, contra as fatalidades que nos impõem e a favor da verdade.

O problema da verdade é que, às vezes, é demasiado dura para que alguém queira ouvi-la. A esquerda, sendo a verdade, também. Mas a luta continua, sempre.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Para sempre, ARY!

Foi como se não bastasse

tudo quanto nos fizeram

como se não lhes chegasse

todo o sangue que beberam

como se o ódio fartasse

apenas os que sofreram

como se a luta de classe

não fosse dos que a moveram.

Foi como se as mãos partidas

ou as unhas arrancadas

fossem outras tantas vidas

outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista

o patrão surgiu de novo

e com a miséria à vista

tentou dividir o povo.

E falou à multidão

tal como estava previsto

usando sem ter razão

a falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão

também luta a nosso lado

nós repartimos o pão

não temos o pão guardado.

Por isso quando os burgueses

nos quiserem destruir

encontram os portugueses

que souberam resistir.

E a cada novo assalto

cada escalada fascista

subirá sempre mais alto

a bandeira comunista.

José Carlos Ary dos Santos

18 de Janeiro de 1984

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Angeiras e o Portinho

Na semana passada foi mais uma vez notícia o Portinho de Angeiras, que já é notícia há uns 20 anos, quando os pescadores de Lavra sentiram necessidade de melhorar as suas condições de trabalho. A exigência tem tantos anos como a promessa.

Por fim, no dia 12 de Janeiro de 2011, o sr. Presidente da Câmara, Guilherme Pinto, do PS, veio a público dizer não que o Portinho de Angeiras vai ser construído neste ano, mas sim que o concurso DEVERÁ ser lançado neste ano.

É uma notícia? Talvez. Certamente que foi coincidência a notícia ter sido plantada uns dias antes de Manuel Alegre, candidato socialista-bloquista-MRPPista, visitar Angeiras. Porque aqui, no socialistão, candidato do PS que não veja peixeiras não é candidato, e mais vale jogar pelo seguro. É que a lota passou a ser lugar de campanha proibitivo desde há uns anos.

Este é um assunto que, a haver vergonha no ninho socialista, nem sequer vinha à baila. Desde o tempo de Narciso, pelo menos. Ao contrário, outros não desarmam, como se comprova aqui, aqui e aqui.

Às tantas, o problema está mesmo em Angeiras, que quer um Portinho. Se quisesse um wiskyzinho, tenho para mim que o problema estava resolvido há muito tempo.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Já se acordava, não?

Depois dos vídeos surreais do Luís Fazenda, mais ali abaixo, volto às Presidenciais.

Ontem Sócrates juntou-se a Manuel Alegre em campanha. Num comício em Castelo Branco, com o candidato-poeta. Nem vou comentar muito do que se disse, apenas sublinhar estas declarações do homem apoiado pelo governo e pelo BE:

Alegre admira "coragem e determinação" de Sócrates

"Manuel Alegre manifestou ainda a sua satisfação por estar "lado a lado" com José Sócrates no comício.

"É para mim um momento de grande alegria e de grande alento ter aqui hoje o apoio claro, inequívoco, do secretário-geral do meu partido, o meu amigo e camarada José Sócrates", sublinhou.

Sobre isto, o que dirão os @derentes do Bloco? Estariam no público a aplaudir efusivamente o candidato da esquerda grande, de que tantas vezes fala Francisco Louçã? Pronto, sejamos justos, os bloquistas da FER vão contra o partido e já disseram que não votam Alegre e até apelam ao voto em branco ou em Francisco Lopes - por esta ordem. Esta cisão dentro da enorme confusão que é o BE parece ter passado ao lado da Imprensa, mas admito que pode ser uma falha minha.

Indo ao que interessa, a campanha de Alegre é pouco mais que absurda. Num dia está com Louçã, noutro está com Sócrates; num dia é um candidato que critica o governo, no dia seguinte é o candidato do governo. Se isto não surpreende no PS, no BE só surpreende os incautos, desatentos ou os que, estando atentos, fazem tudo por uns minutos de tempo de antena.

Louçã é um rato velho da política nacional. Ao contrário do que possa pensar-se, Louçã é o líder político que está há mais anos à frente de um Partido, entre PSR, BE e afins. Arrebanhou uma série de gente de grupelhos esquerdistas e foi levado ao colo pela Imprensa, numa tentativa de que viesse a roubar espaço ao PCP.

Evidentemente, tal não com aconteceu; o BE cresce eleitoralmente mas a CDU também. Depois destas Presidenciais, creio que tudo voltará ao normal dentro do BE. Remam uns para cada lado mas continuarão na moda.

Resta saber o que dirão os milhares de portugueses que votaram no BE à espera de uma suposta nova esquerda, que marcha ao lado do PS mais à direita de sempre.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Haiti - um ano

Há um ano chorávamos os mortos no Haiti, que antes nem sabíamos vivos. Olhávamos, horrorizados, para um país que estava em ruínas e que ruiu por completo. Indignámo-nos com a força da natureza, que pôs no mapa um país que raramente era notícia. E foi mesmo notícia durante uns tempos, enquanto houve imagens de mortos e histórias impressionantes de sobrevivência.

Foi notícia enquanto a tragédia teve o condão de nos chocar - e há cada vez menos coisas que nos chocam, porque o choque deixou de ser excepção para ser a regra, seja no Haiti, na Palestina, no Sudão ou no Chade. O que ficou para trás já lá vai. É dos tempos que correm, diz-se, mas correm mais depressa para umas coisas que para outras. Sofremos tanto com o Haiti que nos desdobrámos em doações e telefonemas solidários, sem sabermos muito bem onde foram parar.

Sabíamos quase nada do Haiti, sobre o petróleo do Haiti e sobre a ocupação estrangeira daquele país. Os beneméritos EUA, sempre prontos a ajudar países com riquezas naturais, auxiliaram com o exército, através do Pentágono, o que levou mesmo à ocupação do aeroporto de Port-au-Prince por tropas estado-unidenses. Claro que a imensa propaganda dos media dominantes também anunciou uma ajuda financeira astronómica dos EUA ao Haiti. Noticiou-se a ajuda, mas nunca se controlou a sua chegada ao destino. Ou procurou, sequer, monitorizar as supostas ajudas.

Sem surpresas, "não mais que 27% dos recursos prometidos foram destinados e aplicados, na sua grande parte, para fins administrativos. Basicamente não se veem mudanças estruturais com relação a essa ajuda. Lembro que nos dia 31 de março de 2010, em uma conferência em Nova York, se prometeram US$ 11 bilhões - mas não chegou quase nada, chegaram US$ 250 milhões, e muito desses recursos foi usado para apoio orçamentário e para projetos bilaterais que já haviam sido aprovados anteriormente. Ou seja: a verdadeira reconstrução do país não foi feita".

A tragédia serviu para conhecermos que o Haiti não era (é) mais do que um laboratório de guerra para outros países, sem governo, que havia sido derrubado num golpe de estado patrocinado adivinhem lá por quem.

Ontem voltámos a lembrar-nos do Haiti, como haveremos de lembrar-nos quando passarem dois ou três anos, no máximo. Da mesma forma que nos esquecemos do tsunami que afectou uma série de países asiáticos na mesma altura do ano.

Quem não esquece é o Vaticano, honra seja feita a um estado que é dos mais ricos do mundo. A prioridade das prioridades foi reconstruir a catedral, porque a barriga enche-se de Cristo e deus está em todo o lado, por isso há-de servir para matar a fome. Para descanso dos haitianos, "Bento XVI informou que reza pelas vítimas, especialmente pelos mortos, pede a proteção de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, patrona do Haiti, e pede a Deus que abençoe toda a população". Amén.

Por cá o Haiti já passa ao lado. Juntámo-nos a causas no Facebook, participámos em correntes e fizemos a nossa parte. Durmamos, então, descansados.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Agora Escolha

Se prefere este Fazenda, ligue para o 000000*:


*"Os camaradas da Moção C inventaram até essa prodigiosa fantasia de que iríamos, eventualmente, ter um candidato às presidenciais em comum com o Governo. É caso para dizer que só contaram para vocês".

Se prefere este Fazenda, ligue para 1111111:*


*"Luís Fazenda, deputado do Bloco de Esquerda em entrevista ao esquerda.net, diz que o fórum será "um ponto de encontro e de troca de ideias" e dele sairá também um forte apelo à participação na jornada de luta de 29 de Setembro e um apoio vincado ao candidato presidencial Manuel Alegre."

Há um problema grave de seriedade, coerência e vergonha em alguns sectores da política nacional.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Carta a Hamad bin Khalifa, Emir do Qatar.

Caro senhor Khalifa:

Escrevo-lhe a partir de Leça da Palmeira para dar-lhe os parabéns pela escolha do Qatar para organizar o Mundial de 2022. Saúdo particularmente o facto de a generalidade da Imprensa não ter condenado a atribuição de tal evento a um país como o que V. Ex.ª tão democraticamente dirige, ao contrário do que aconteceu com os Jogos Olímpicos na China. Mas certamente que nos dez anos que nos separam do evento contará com uma onda de indignação patrocinada pela Amnistia Internacional, até agora tão sossegada.

Certamente que o facto de o país de V. Ex.ª ter petróleo e gás natural até dar c'um pau é mera coincidência, mesmo estando nós a falar de um país onde não há leis, para além da Lei de V. Ex.ª, regendo-se por uma Constituição provisória desde 1970, onde não são permitidos partidos políticos ou eleições. Confesso que me faz um bocadinho de espécie V. Ex.ª não permitir o amor através do rabinho, mesmo entre adultos e por mútuo consentimento. O amor não deve ser condicionado, seja sob que forma for.

Caro Khalifa, pá - vamos tornar isto um bocadinho mais pessoal, seu democrata -, apesar de seres dono e senhor de um país que está um bocadinho acima do Irão no Índice Democrático, safas-te por seres mais aberto que os vizinhos da Arábia Saudita. Ainda por cima não fazes parte do Eixo do Mal, seu sortudo, mesmo patrocinando o Hamas em 50 milhões de dólares.

Digo-te já que se não alterares aquela lei que controla o acesso ao álcool vais ter sérios problemas com os amantes do futebol. Isto para não falar no mulherio que por lá andará a pecar como se não houvesse amanhã. Por falar nisso, acho que devias reconsiderar a construção do Estádio Al-Khor, que tem a forma de, vá lá, uma pombinha. Ou de uma vagina, pronto, esse ponto do pecado que as mulheres transportam de um lado para o outro como se fosse delas.

Sei que vais construir 12 novos estádios e foi esse motivo que me levou a escrever-te. Temos em Portugal cinco estádios semi-novos que podes levar para a tua terrinha. Coimbra, Leiria, Faro, Bessa, Aveiro estão praticamente novos e por utilizar. Deste modo, pouparias umas esmolas com o pessoal que vai para o teu país com promessas de enormes salários mas que chega aí e é xulado à força toda.

Posto isto, tens sorte em não ser chinês e em não te afirmares comunista. Não procurei fotos tuas mas terás certamente uns lindos olhos, para que ainda, e apesar de tudo isto, não tenhas sido crucificado na praça pública. Crucificado sem ofensa, claro.

Fico a aguardar resposta ASAP.

Teu,

RMS

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Agora a sério, feliz natal

As notícias de que os portugueses gastam milhares de milhões são cíclicas. Normalmente, aparecem por altura do Natal, juntamente com estudos que dizem que comer como se não houvesse amanhã não faz mal, o chocolate emagrece, o bolo-rei tem pouco açúcar e por aí fora.
Centrando-me no primeiro tema, seria interessante saber quanto é que os portugueses movimentam nos outros meses do ano; por outro lado, seria ainda mais curioso perceber quantas das pessoas não aproveitam o subsídio de natal - os que ainda o têm - para pagar contas que ficaram em atraso durante o resto do ano. De outro modo, tenho todo o direito e mais algum de achar que é uma notícia filha da puta, que visa atirar areia para os olhos dos portugueses, fazendo-os crer que os vizinhos não sofrem com a crise.

Por falar em crise, anda por aí um senhor famoso por causa do bolo-rei que se vangloria de ter concedido aos pensionistas o 14.º mês. Ora, convém dizer que faz tanto sentido dizer uma coisa destas, como dizer que foi Cavaco que permitiu o associativismo na PSP, por exemplo. Uma coisa como a outra não foram benesses, foram fruto de muitas e muitas lutas de milhares de trabalhadores que não se resignaram e fizeram valer a sua vontade.

O mesmo senhor, que afirma nada ter a ver com o BPN, ajudou o governo do PS a oferecer ao BPN mais do dobro do valor disponibilizado por Sócrates para combater a crise. Dos 2,2 mil milhões de euros disponibilizado, um terço foi para o sector bancário e o tremendo 1 por cento ficou para o apoio ao emprego. Portanto, quem criou a crise é ajudado; quem a paga, que se foda.

E quem a paga somos todos nós, incluindo aqueles a quem roubaram 15 euros no salário de Janeiro, incluindo estas trabalhadoras da Eurest, despedidas e/ou com processos disciplinares, por, imagine-se, levarem para casa restos de comida. Refira-se que a Eurest é propriedade do Compass Group, que apresentou, em 2010, os seguintes resultados:

"We have delivered another year of strong performance, despite the challenging economic conditions, with record operating profit of over £1 billion and a return to organic revenue growth. Our ongoing focus on operational efficiency has enabled us to both invest in future growth and deliver another increase in the margin of 40 basis points".

Percebe-se, portanto, que a Eurest não possa pagar aos seus empregados de forma a que não tenham de levar sobras para casa. Ou então são só uns filhos da puta.

Fiz questão* de escrever aqui, com as letras todas, o que me apeteceu, como também me apetece mandar para a grande puta que pariu os senhores, sejam eles quem forem, que decidiram censurar o Zeca, numa alegada homenagem, porque acham que "merda" é feio.

Posto isto, continuemos a luta, sem que tenhamos de chegar ao desespero.

Feliz natal.



* tenho um leitor!

Natal

Há duas alturas do ano que não suporto: uma é o Natal, a outra é o Natal outra vez. Fica tudo maluco à procura de presentes e mais presentes, até para aqueles que estão ausentes, mais os telefonemas de ocasião, mais os postais, mais os mails, mais os postais dentro dos mails.

Não há maior hipocrisia que o Natal, mais a merda das campanhas para dar esmolas a quem tem de sobreviver o ano inteiro, muito para além da noite de 24 para 25 de Dezembro, sem contar com as outras campanhas, que dão esmolas a troco de 50% nos lucros, mais os sms, mais o resto todo. Mais as luzinhas nas ruas e o boneco da Coca-Cola a subir pelas paredes e o menino jesus de olhos em bico nas janelas.

Sou oficialmente contra o Natal. Encerrem-me, pronto.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

De despedimento em despedimento, até ao despedimento final!

Soubemos ontem pelo patrão dos patrões que, umas horas mais tarde, o Conselho de Ministros aprovaria 50 novas medida de combate à crise. A UGT não desgosta da coisa, que inclui um valor máximo para o valor das indemnizações aos trabalhadores despedidos.
É preciso saber quem manda em quê e em quem.