quinta-feira, setembro 20, 2012

O brinquedo é meu*



Foi notícia o caso da ambulância de S. Mamede, em que o presidente da Câmara de Matosinhos esperava uma multidão mas, certamente por motivos de força maior, atrasou-se e já lá não estava ninguém para receber tão importante personagem. Note-se a importância do acto: a reentrega de uma ambulância reparada, nem sequer era nova.

Certo é que o edil amuou e mandou recolher a viatura, que certamente, na sua cabeça iluminada, faria mais jeito parada nas oficinas da autarquia do que nos bombeiros. Com ou sem recepção e fanfarra.
Politicamente, S. Mamede de Infesta é uma espécie de Entroncamento do concelho de Matosinhos. São fenómenos atrás de fenómenos. Recordo-me de uma campanha eleitoral em que um candidato, presidente de uma associação da terra, usou os contactos dos associados para enviar cartas a apelar ao voto nele próprio. Mesmo para associados que já estavam mortos.

Vai correndo com a normalidade habitual a vida política em Matosinhos, principalmente em aquecimento para as eleições autárquicas. Desde supostas violações da conta do Twitter do Narciso Miranda, até às birras narcísicas do actual presidente, temos todos os ingredientes para mais uma campanha muito peculiar.

*Publicado, originalmente, na edição de Setembro do Notícias de Matosinhos.


Adenda:

Faz tanto sentido.

quinta-feira, agosto 16, 2012

A morte é como o sabão*

 A morte é mágica. Tem o condão de limpar tudo. Dizia-se nas margens do Leça que o sabão lava tudo, só não lava as más línguas. Afinal, é a morte. A morte é capaz de limpar o passado mais cretino de qualquer cidadão. Temos nós o hábito do coitadinho na hora da morte. “Morreu, coitado”. Mas a história não morre, pode é ser manipulada e, às vezes, apagada.

Parte do país lamentou a morte de José Hermano Saraiva, um grande comunicador, ao que parece, mas um menos bom historiador, diz quem percebe da poda.

O detalhe de estarmos a falar de um ministro da ditadura fascista de Salazar parece não incomodar quem o elogia. Lá está a morte a limpar as memórias. Diz-se que a educação era o seu grande amor. Um amor à moda antiga, daqueles que se resolvem à bastonada, como quando mandou a GNR carregar sobre os estudantes de Coimbra durante a Crise Académica.

Alguns desses, dos que foram corridos à bastonada por ordem do comunicador, elogiam-no mesmo assim, fazendo ressuscitar a triste máxima do “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Outros, mesmo não tendo vivido esse dia, não perdoam a ditadura.

Continuo a achar que quem não foi bom em vida, não tem de ser bom porque morre.

*publicado originalmente no Notícias de Matosinhos

segunda-feira, julho 30, 2012

Começou a campanha em Matosinhos

Abriu a caça ao poleiro em Matosinhos. A declaração surgiu na conta de Narciso Miranda no Twitter em dia de aniversário do ex-presidente da CMM. Está dado o pontapé de saída. E mais alguns.




Clica para ver a foto.

sexta-feira, julho 13, 2012

segunda-feira, julho 09, 2012

mailto: Lusófona - A saga continua


A Universidade Lusófona respondeu ao meu pedido de informação, o que é de louvar. No entanto, não foi suficientemente esclarecedor:

"Caro Ricardo Santos,

Obrigada pelo seu contacto e interesse na ULP.

A legislação permite a qualquer candidato que reúna as condições de ingresso ao ensino superior, requerer a creditação de competências profissionais.

Poderá concorrer a Educação Física e Desporto pelo regime para maiores de 23 Anos  e, ficando apto a ingressar, poderá apresentar o dossier de candidatura à creditação de competências profissionais ou adquiridas.

O dossiê de candidatura à “Avaliação e Creditação de Competências Profissionais ou Adquiridas” incluirá os seguintes documentos:
a) Requerimento segundo o modelo em curso;
b) Curriculum vitae segundo “modelo europeu”, a que deve anexar-se uma descrição exaustiva de cada uma das funções e tarefas profissionais exercidas com relevo para o processo em apreço;
c) Declarações comprovativas, emitidas pela(s) entidade(s) empregadora(s), com identificação das funções, posição e período de execução das mesmas ou, quando não for possível entregar a declaração da entidade empregadora, comprovativo de desconto para a segurança social e descrição pelo próprio, da função, posição e período de tempo a que respeita;
d) Certificados ou outros comprovativos de Formação realizada;
e) Cartas de referência;

Este processo será analisado então pela Comissão Científica da Licenciatura.

Disponível para qualquer esclarecimento que julgue necessário.

Cumprimentos,

SB"


Cara SB,


Permita-me, antes de mais, agradecer a resposta ao meu contacto. Na verdade, não. Começo antes por pedir desculpa pelo português utilizado no primeiro email, que terá levado a que a sra. dra. pensasse que eu apenas posso candidatar-me à Universidade Lusófona através do programa maiores de 23 anos.


Quanto à resposta que me enviou, necessito de alguns esclarecimentos, por culpa minha, que não terei sido suficientemente claro, fruto da minha fraca formação académica, que não me permite expressar melhor.
Temos um problema de comunicação, no que concerne aos ponto b, c e d). Eu referi expressamente que não tenho qualquer currículo profissional na área de Desporto e Educação Física. Tenho apenas currículo pessoal, o mesmo que o senhor que agora consta nas manchetes. Recordo que ser deputado não é profissão, logo, a actividade profissional não terá sido levada em conta pelo menos num dos 89 casos que sucederam na Universidade Lusófona. E eu gostava de ser o número 90, que é redondinho. Foi nesse pressuposto que efectuei o contacto com a Universidade Lusófona, pois pretendo concluir a licenciatura, no máximo, em 14 meses. Informo ainda que frequentei o primeiro ano do curso de Línguas e Relações Internacionais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pelo que gostaria de saber quais as equivalências de que poderei usufruir aquando da minha transferência para a Universidade Lusófona, para além das que terei devido à minha experiência e currículo pessoais.


Repare que nem faço questão de conhecer os professores que me darão a licenciatura. 

Peço especial atenção para o meu pedido, uma vez que o motivo que leva a querer licenciar-me é para fazer um gosto aos meus pais, que sempre quiseram que eu fosse doutor, nem que seja à pressão. A verdade é que eles nunca o disseram, mas eu sei que sim.


Rogo assim que revejam com atenção o primeiro email que enviei, e não me respondam com o modelo standard que utilizam para quem os contacta com mais de 23 anos.


Com os melhores cumprimentos,


Ricardo M Santos


ps: Acrescento ainda que frequento o ginásio diariamente.

ps2: Tenho uma irmã hipocondríaca que é capaz de reconhecer qualquer medicamento pelo princípio activo ou nome comercial das diferentes marcas. É licenciada em Línguas e Secretariado pelo ISCAP. Peço assim que me informem se a Universidade Lusófona possui algum curso de medicina e quais as equivalências que a senhora minha irmã poderá ter. Tendo em conta que se trata de curso de Medicina, julgo que poderemos estender o prazo de licenciatura e mestrado até 20 meses.

domingo, julho 08, 2012

Democracia e censura*


Já está. As eleições para a concelhia de Matosinhos e da distrital do Porto do PS decorreram com toda a normalidade. Por entre mensagens intimidatórias oriundas dos aliados do presidente da Câmara até vidros partidos, carros vandalizados e “militantes” que já não o são mas que continuam, como que por mistério, a ser contactados para irem votar de cada vez que há o circo, perdão, o ciclo eleitoral, há de tudo, como na farmácia.

Pode ser que, agora, os responsáveis pelo concelho possam ter algum tempo para tratarem daquilo para que foram eleitos, se não for pedir muito, e se sobrar algum tempo, depois das inaugurações de fachada para “militante” ver.

Faz lembrar o PS nacional, que continua sem tempo para política e preso no seu labirinto, a recolher cacos dos anos de Sócrates: entre a conivência com o pacto de agressão do FMI e a violência das suas abstenções.

Daí o incómodo do PS – mais acentuado que o incómodo do governo – com a moção de censura apresentada pelo PCP. É um problema para o PS ter de censurar o governo sabendo que, se fosse governo, fazia o mesmo que Passos Coelho.

*Publicado originalmente no jornal Notícias de Matosinhos

sexta-feira, julho 06, 2012

mailto: Universidade Lusófona (II)

A minha mensagem foi encaminhada para os serviços de acesso da Lusófona

Clica na imagem para ampliar.


Aprendei. Vale sempre a pena tentar.

quinta-feira, julho 05, 2012

mailto: Universidade Lusófona

Bom dia, 

Ouvi nos últimos dias que existe na vossa instituição a possibilidade de concluir uma licenciatura no período de um ano mediante apresentação de currículo profissional. Ora, conto actualmente 29 Primaveras - espero que me perdoem a não adopção do acordo ortográfico, mas, se for absolutamente essencial, comprometo-me a fazê-lo - dizia eu, conto actualmente 29 Primaveras, 20 das quais passadas em actividade física constante, interrompida apenas entre 2000 e 2002, salvo erro, mas o rigor das informações parece que não é condição fundamental para que possa ingressar na vossa licenciatura.


Sendo verdade que nunca fui atleta profissional, não é menos verdade que a licenciatura que agora está nas manchetes também não inclui qualquer currículo profissional, porque ser político não é profissão. Nestes termos, informo que fui campeão nacional e distrital de futsal na categoria de infantis e regional na categoria de iniciados, dos quais possuo diplomas certificados. Pelo meio, joguei futebol de 11 no SC Senhora da Hora e no FC Perafita. Pratiquei ainda andebol no Leça FC durante cerca de seis meses, como guarda-redes, mas uma bolada na cara, num remate da ponta esquerda, frente ao Infesta, deixou-me desmotivado e abandonei a modalidade.

Entretanto, praticava já Kung Fu na variante Wu-Shu, tendo sido campeão regional na categoria de pesos-leves, em 1999, modalidade que interrompi e retomei anos depois, perfazendo um total de sete anos de experiência comprovada. Era-nos ministrado também Tai Chi, armas tradicionais chinesas e defesa pessoal. Actualmente, pratico Muay Thay, modalidade que abracei, parece-me em 2009 - data a confirmar.

Julgo que, com este currículo, reúno as condições para concluir a minha licenciatura no período de um ano lectivo, mediante pagamento de propinas.


Rogo assim que esta mensagem seja enviada ao Digníssimo Reitor da Universidade Lusófona bem como ao departamento que coordena as licenciaturas em Educação Física.


Grato pela atenção dispensada e com a certeza de que em breve receberei resposta da parte de Vossas Excelências,

Subscrevo-me, com os melhores cumprimentos,

Ricardo M Santos


Clique para ampliar.


terça-feira, junho 05, 2012

O coiso do Álvaro é uma oportunidade*




Parece que estar no coiso é uma oportunidade, segundo reza a palavra do nosso Primeiro. Pelos vistos, o Álvaro agarrou na oportunidade e saiu-lhe o coiso pela boca fora, quando segurava na mão perto de 1.000.000 de portugueses que estão repletos de oportunidades.

O coiso do Álvaro atormenta-nos e só alguém com os coisos no sítio é capaz de aguentar tanto disparate vindo de um só governo há tão pouco tempo eleito. O coiso do Álvaro cresce a um ritmo alucinante e parece incapaz de parar, numa espécie de Viagra de longo prazo que parece não ter fim à vista. O pior é que aqueles que agora estão num plano de oportunidade não poderão processar a farmacêutica por possíveis danos causados. 

O coiso está aí, firme e hirto, e afecta uma população cada vez mais descrente. Importa, por isso, que do coiso se faça força para lutarmos pelas oportunidades que todos temos de ter. Mesmo aqueles portugueses menos mediáticos que não aparecem nos límpidos, claros e objectivos relatórios das secretas que o ministro Relvas alega desconhecer.

O coiso de que falava o Álvaro era o desemprego. Faltou-lhe a palavra, pois claro. Pode acontecer a qualquer um que não dê a mínima importância ao assunto.

*Publicado originalmente no jornal Notícias de Matosinhos.

quinta-feira, maio 10, 2012

40 anos de Grândola



Há precisamente 40 anos, Zeca Afonso tocou pela primeira vez a Grândola Vila Morena, que viria a tornar-se num símbolo da Revolução.

A 10 de Maio de 1972, em Santiago de Compostela, Zeca cantava-a pela primeira vez, com a ajuda de José Mário Branco. A Galiza comemora a data com um mega-espectáculo com mais de 100 artistas em palco.

Portugal, este pedaço dirigido pelo mofo e escurecido pelo bolor de troikas e baldroikas, esqueceu-se.


terça-feira, maio 08, 2012

Migalhas de Abril*

 
Passaram 38 anos desde o 25 de Abril de 74. Das conquistas de então resta o que nós, enquanto herói colectivo da Revolução quisemos que restasse. Entretanto, já nos idos anos 80, época do soarismo e do socialismo na gaveta, regressou ao país o braço-armado económico da ditadura salazarista. Passaram 38 anos e o país continua a ser governado nos bastidores pelo poder económico de então, pelas mesmas famílias, pelos mesmos interesses, entretanto com rostos renovados.

O retrocesso atroz que vivemos sente-se profundamente, até na música, com gente que viveu e defendeu Abril a apelar agora a que se dêem os restos aos pobrezinhos. Gente que ajudou Abril a ser o que foi e outros mais jovens, que alegam defendê-lo, a darem a cara por uma campanha miserável de caridadezinha tão à imagem da direita mais saudosista do fascismo.

A minha geração também tem culpa. Alguns vêem Abril como ultrapassado, desvalorizando as suas comemorações. Outros, autarcas até, vão às escolas explicar que Portugal viveu numa ditadura durante 30 anos e que o Marcello Caetano era Presidente da República. Para isso mais vale estarem quietos.


Publicado originalmente na edição de Maio do jornal Notícias de Matosinhos*

quarta-feira, maio 02, 2012

Somos umas putas morais - vendemo-nos por 50% de desconto

Ontem, o Alexandre Soares dos Santos cagou numa das mais importantes datas da história da humanidade e descobriu-nos a careca. Somos mais desumanos do que pensamos.

Enquanto os media mainstream se debruçam nas questões legais, do dumping à concorrência desleal - já agora, com o pagamento de um dia e meio de trabalho a cada trabalhador, aliado ao desconto generalizado de 50 por cento na conta final, terá havido algum lucro para a empresa? - o que mais me preocupa é a moralidade de quem levou a cabo a iniciativa e de quem embarcou nela.

Já agora, os media que se fodam mais as "palavras de ordem de sempre", os "conceitos sempre repetidos" mais a conotação pejorativa que lhe dão. Se são as palavras de sempre é porque as reivindicações com décadas continuam a fazer cada vez mais sentido.

Já dizia um poeta brasileiro que "a necessidade é maior do que a moral" e o capital não perdoa. O capital faz-nos não só passar por necessidades como faz-nos acreditar que precisamos do que não precisamos. Ontem, uma parte da população precisou de tudo e mais alguma coisa. Duas conclusões:

Primeiro, o capital mata-nos à fome e oferece-nos depois comida* com 50 por cento de desconto como se fosse uma benesse, um favor que nos faz por enriquecermos o PIB, no caso o da Holanda, enquanto tem impostos reduzidos e paga miseravelmente aos trabalhadores. Basicamente, vende-nos o que produzimos quase de borla de forma a parecer barato - Portugal é um dos países da UE com os custos de trabalho mais baratos. Diz que é o mercado, mais a lei da oferta e da procura. Para mim é só selvagem. O que ontem aconteceu foi dar com uma mão o que têm tirado com as duas.

Segundo, a data escolhida não é ingénua. Podemos todos relativizar, mas não é. É uma afronta a todos os trabalhadores e às suas lutas e fez com que fosse quase esquecida por uma parte da sociedade. Depois, abre o debate sobre o significado do 1.º de Maio, mesmo que muita gente não saiba qual é nem o que representou ao longo de décadas. Relativiza-se tudo, porque "se uns trabalham, outros também podem trabalhar", mesmo que se comparem hospitais e esquadras de polícia a supermercados, sem se perceber o ridículo da coisa. Eu acrescento, em adaptação livre do Saramago: relativizem a puta que vos pariu a todos.

A génese do 1.º de Maio tinha por princípio uma reivindicação clara: oito horas de descanso, oito horas de trabalho e oito horas de lazer. Os trabalhadores, massa insatisfeita, conquistaram mais e mais ao longo dos anos. O capital, com uma sociedade reduzida ao poder do consumo, retaliou. Estamos a viver um momento de viragem histórica. Seja para que lado for.

Por fim, uma palavra de solidariedade para com os trabalhadores das grandes superfícies que ontem foram coagidos a trabalhar, apesar do pré-aviso de greve e para aqueles que tiveram mesmo de aproveitar os descontos de ontem para terem um mês menos difícil. A necessidade foi, para alguns, maior que a moral.

*Por "comida" entendam-se produtos, só para não haver quem diga que não se passa fome em Portugal.


quinta-feira, abril 05, 2012

Impedimentos que impedem*


Cavaco ficou intimidado com perigosos manifestantes de uma escola secundária. Miúdos até aos 15 anos, o terror de qualquer político que até foi professor, mas universitário. A desculpa oficial, foi que ficou impedido por um impedimento. Assim mesmo, como aquelas subidas que sobem para cima ou quando se entra para dentro.

Quem não entrou para dentro foi Passos Coelho, no dia da Greve Geral, no Porto. O ilustre primeiro preferiu a porta do cavalo para fugir aos manifestantes que o esperavam. É sempre melhor quando falamos com aqueles que devemos representar pela televisão ou pela rádio, sem direito a contraditório.

Fugiu, o piegas. Teve medo de dar a cara perante aqueles que contestam o caminho de pobreza que nos pretendem impingir como inevitável, ao mesmo tempo que arranjam lugares de relevo para amigos e compadres, com cortes que mais parecem arranhões para quem ganha milhares de euros.

Segue a luta, que é dura e, muitas vezes, poluída por opiniões de quem tem mais umbigo do que olhos para encararem a realidade com que (sobre)vivem milhões de portugueses.

*originalmente publicado na edição de Abril do Notícias de Matosinhos

quarta-feira, abril 04, 2012

Quando era dia até ser noite

Quando comecei a trabalhar ainda andava no secundário, no segundo 10.º ano que cumpriria, após um primeiro equívoco que me levou para as artes. Das artes, ficou só o artista, que as mãos teimavam em não obedecer aos olhos, quando a professora plantou aquele pimento em cima de uma mesa e disse: "Agora, desenhem". Nunca um pimento foi tão parecido com coisa nenhuma.

Trabalhar e estudar de dia obrigava-me a faltar às aulas, o que me valeu alguns dissabores com a professora de Português, que ainda hoje está para saber como tirei aquele 12 no teste sobre o Sermão de Santo António aos Peixes. E, verdade seja dita, eu também.

Como a maioria do pessoal da minha idade que residia em Leça norte, aquela zona meia perdida entre a Leça dos postais e Perafita, depois de um trabalho de que gostei muito numa empresa relacionada com a UEFA Champions League, tomei o gosto por ter o "meu" dinheiro e fui ganhar uns trocos para os transitários.

O cheiro a óleo e a escape dos empilhadores e dos camiões era tão característico que ainda hoje o conheço. Era divertido, na altura ainda bebia cerveja e isso ajudou à minha integração. Era eventual. Eventualmente, era chamado para trabalhar, às sextas-feiras.

A primeira sexta que trabalhei foi assustadora. Das 8 da manhã de sexta até às 7h30 de sábado. Achei bruto. E, uns meses mais tarde, o Rui, que levava muitos anos daquilo, disse-me: "Isto embrutece um gajo". E eu confirmo, qualquer um confirma. A grande ansiedade era saber quem ficava para a noite de sexta. O pessoal da casa era preferido, obviamente, depois sobravam os que eventualmente ficariam.

Tinha uma explicação. Na altura, o dia começava às 8 da manhã e acabava às 20. Tudo o que fosse para além disso era pago a 100% por hora. Apanhei a fase de transição, em que isso só passou a acontecer entre as 22 e as 6 da manhã. O sol passou a deitar-se mais tarde e a acordar mais cedo.

Mas continuávamos a trabalhar. Na madrugada, quando chegavam os camiões amarelos e azuis, o aspecto era desesperante. Era o algodão para carregar e os "cartões", vulgarmente conhecidos por caixas de papelão. A madrugada era bruta. Olhávamos para os contentores de 40 pés e não lhes víamos o fundo, também por culpa da luz amarela que iluminava um bocadinho o cais. Era desesperante. Os contentores não tinham fim e os camiões também não. Aguentava-se à base de umas cervejas e cigarros.

Valia pelas horas-extra, que ainda não tinham sido muito roubadas, como agora serão, com o aval da UGT e o patrocínio do PSD, CDS e PS, mais a sua abstenção violenta.

Era bruto, como as viagens para Amarante onde íamos montar uma máquina qualquer e carregar tábuas que nunca mais acabavam, numa Toyota Hiace de três lugares onde íamos cinco.

Era bruto como as idas ao Porto de Leixões, para descarregar e carregar contentores de uma ração qualquer que tinha que ser inspeccionada. Tantas vezes.

Para estes homens, os dias vão ficar mais compridos e mais caros, com as horas mais baratas. E com a luz do sol a prolongar-se noite dentro. Mas isso não há-de ser problema para quem nunca os viu nem os vê.

segunda-feira, março 26, 2012

Tão bonitos que eles são

Quando o nosso império caiu - felizmente -, era de esperar que Portugal, a caganitazinha mais ocidental da Europa, perdesse aquela mania de considerar que Lisboa é Portugal e Portugal é Lisboa. Pois que não é. Assim como o norte não é o Porto e o Porto não é o norte.

Ao contrário do que seria normal, em Portugal, os provincianos da capital continuam a achar que o país são aqueles quilómetros quadrados de Lisboa-e-tudo-à-volta.

Vem isto a propósito de uma sondagem sobre homens bonitos. Segundo o site travelersdigest, os portugueses estão em 4.º na lista de homens mais bonitos do Mundo. A RTP, diligente na defesa da capital do império morto, enterrado e que só existe na cabeça de um ou outro ministro dos Negócios Estrangeiros, diz que são os lisboetas.

O texto não deixa dúvidas, refere-se a Lisboa, mas a uma das zonas mais frequentadas por turistas, entre eles, os que viajam desde a província até ao Bairro Alto. Eu, tripeiro, ainda lá estive há pouco tempo:

"Portuguese men tend to be worldly, well-educated and brimming with pride for their small but scenic country. In Lisbon, the often tall, charismatic and athletic gentlemen might surprise you with their firm grasp of not only their own culture but that of the other nations as well. All this said, tradition is still held in high regard for these divine manifestations of old-world values. They would surely appreciate an impromptu Fado performance at one of the many bars in the Barrio Alto, or a nostalgic stroll in the Alfama District – one of the most delightfully preserved sections of the city. Whatever you decide to do, these Latin seducers are guaranteed to sweep you off your feet."

Este saloiismo lisboeta fez-me lembrar o episódio do "senhor do adeus", ao que parece, uma pessoa famosa na capital mas desconhecida do resto do país. Ainda assim, quando faleceu, mereceu honras de notícia em todos os canais. Consta que era um idoso, parado no meio da rua, a acenar ao carros que passavam. Um extravagante, por estar em Lisboa; aqui, em Leça, ou mais para sul, no Porto, seria mais um maluco.

Em Leça tínhamos uma sem-abrigo a quem chamávamos Rosa Mota, por ser pequenina e andar devagarinho, e o Senhor dos Cães, outro sem-abrigo, que carregava um cão às costas e tinha à volta dele mais uma dezena de outros animais. Todos de quatro patas, que aos bípedes ele parecia fazer alguma confusão. Morreram os dois. Não eram de Lisboa. Não acenavam aos carros. Não foram notícia.

sexta-feira, março 23, 2012

Uma grande greve dos jornalistas



Estive nos piquetes da Greve Geral até perto das oito manhã. Entre a garagem da STCP da Via Norte, A Estação de S. Bento e a garagem de Francos da STCP.
Nesta última, a PSP procedeu à identificação de um motorista que se apresentava para trabalhar em substituição de outro, impedindo a saída do autocarro. Cumpriu-se a lei portanto.
Infelizmente, não estava lá qualquer jornalista para testemunhar o acto. Nem o agente que, em S. Bento, desabafava: "Estamos todos do mesmo lado. É a segunda vez que me calha vir para aqui e isto dói muito, porque nós também sofremos".


Não estava qualquer jornalista, como não esteve durante toda a noite em qualquer dos principais piquetes do Porto, pelo menos até às 8 da manhã. Daqui depreendemos que os jornalistas da Lusa, dos três canais que emitem notícias 24 horas por dia (RTPI, TVI24 e SICN), das rádios (pelo menos, Antena 1 e TSF) e dos jornais, incluindo aquele que se assume como a "voz do norte", aderiram em massa ao dia de greve. Recordemos que todos os jornais têm uma secção online e que, supostamente, dão notícias ao minuto. Ou dão Lusa ao minuto, mas isso é outra história.


É a única explicação lógica que encontro para a sua ausência e, por isso, felicito-os pela coragem, com toda a minha admiração, porque a precariedade é um dos grandes males que afecta aquele sector. Deram uma prova de união que não tem paralelo com qualquer das greves em que participei. Nas duas anteriores a estas estavam jornalistas. Nesta, desapareceram. 


E avançam que esta foi uma greve sem números porque, pelos vistos, mesmo no jornalismo de secretária custa muito dar um clique nos sites onde foram sendo publicados os números da adesão durante todo o dia.


Obviamente que não me passa pela cabeça que houvesse jornalistas a trabalhar e não tenham sido enviados para os locais onde estavam os mais significativos e numerosos grevistas.


Ficou do dia a imagem dos dois jornalistas agredidos, já durante o dia. Que tal não caia no esquecimento. Mas que tal não sirva para fazer esquecer que ontem houve uma grande Greve Geral, com milhões de trabalhadores a aderirem ao protesto, apesar de todas as pressões dos patrões e do Governo.


Que a indignação dos jornalistas não se fique só pelos seus camaradas agredidos em dia de Greve Geral, que se estenda a todos os outros que também sofreram agressões físicas e não só. Que se estenda a todos os dias do ano, na denúncia da violência que são o desemprego e a precariedade a que milhões de portugueses estão sujeitos, muitos deles seus camaradas de redacção. Olhai para o lado e eles lá estão.

segunda-feira, março 05, 2012

Guilherme, o Príncipe Momo*


Momo é um nome que atravessa os tempos, desde a Grécia Antiga, passando por Roma, até tempos mais recentes. Há dois séculos surge em Espanha e na América Latina, mais precisamente na Colômbia; no século XX, chega a Espanha, para ser adoptado pelo Brasil. Momo passou de deus mitológico a rei do Carnaval.

Na Colômbia, em Barranquilla, a personagem permanece até aos dias de hoje. É o rei da folia, que, nos três dias de festa, tinha como função permitir a desordem carnavalesca.
Nos dias que correm, o papel de Rei Momo cabe ao poder político, personificado em Miguel Relvas, que decretou que o Carnaval não seria feriado. O Rei Momo não cumpriu o seu papel mas, nestas coisas da democracia, o povo ordenou e brincou ao Carnaval tão a sério como já não se via desde os tempos de Cavaco, quando este ainda não se intimidava com manifestações de perigosos alunos da António Arroio.

Em Matosinhos, Guilherme Pinto, em jeito de Príncipe Momo, seguiu a voz do ministro alegando que o concelho não tem tradições de carnavalescas, não concedendo tolerância de ponto aos trabalhadores da autarquia. Ora, o presidente da Junta da Matosinhos fê-lo, cometendo, partindo do princípio que Guilherme Pinto tem razão, uma ilegalidade.
Formalismos à parte, que isto é coisa para ficar resolvida depois das eleições para a Concelhia do PS de Matosinhos, certo mesmo é que Príncipe Momo não deu folga aos funcionários autárquicos mas foi, ele próprio, ao desfile carnavalesco de S. Mamede de Infesta. Certamente em representação dos mesmos. 

* Publicado no jornal Notícias de Matosinhos

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

JN da Armada ou o 31 do JN

O 31 da Armada ficou incomodado com a dimensão da manifestação de sábado, o que é, por si só, um feito que me agrada bastante. Sem o feriado do 5 de Outubro para brincar à monarquia, os trintaeuns ficam com mais tempo para se dedicarem às contas das manifes. 

O tempo passa e a história fica. No tempo de Sócrates, no auge da moda dos indignados e quando a direita dava pulinhos de alegria com a mais que previsível vitória do PSD numas eleições que estariam bem próximas, o 31 via coisas deste género:

Suportado por 20 segundos de imagens do Jornal de Notícias, sem referência a horas, no sábado, o 31 da Armada, na era Cavaco-Portas-Passos, só viu isto: 

Confesso que não leio o 31 da Armada e só lá cheguei por um link do Facebook. Mais. Para ler o 31 da Armada basta-me passar os olhos pelos media mainstream.


No entanto, para ajudar às contas, aqui fica:

e mais...


E, para terminar, pode o 31 pegar nas contas, no JN e ir para junto de todos os piegas deste mundo.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

UG Quê?*

No mês passado assistimos ao mais violento retrocesso social em matéria laboral de que há memória. João Proença, voz do dono da UGT – sim, do dono da UGT – fez o triste papel de representante dos trabalhadores. De quais, ninguém sabe ao certo.

Sabemos, sim, que a “vitória” conseguida por Proença e pela UGT dar-nos-á tudo aquilo que, ao longo de décadas, fizemos por perder, algumas ainda no tempo do fascismo. A meia-hora que a UGT alega ter vencido cai em saco roto quando pensamos no banco de horas que estará sujeito à discricionariedade do patrão. Mais a facilidade dos despedimentos, mais tudo aquilo que consta em 52 páginas em que apenas a redução de direitos laborais é factual. O resto é uma declaração de intenções. 

A UGT cumpriu o papel que lhe estava estabelecido desde a sua fundação, apadrinhada por Mário Soares e pelos interesses norte-americanos, e que, ao longo dos anos. Enganou os trabalhadores, colando-se a eles na Greve Geral por mero interesse político, e cauciona um acordo inenarrável para qualquer pessoa com dois dedos de testa. Aliás, enquanto a UGT tentava justificar o injustificável com o memorando da Troika, que o partido do qual Proença faz parte assinou, o primeiro-ministro dizia que o acordo tinha ido além do memorando. Depois vieram os elogios dos comentadores do regime e dos patrões do governo.

Se é verdade que as atitudes de Proença e da UGT já não surpreendem, o facto de ainda haver trabalhadores que se vejam nelas representados é, para mim, um mistério.



*Publicado originalmente na edição de Fevereiro do Notícias de Matosinhos