sexta-feira, novembro 09, 2012

Quem manda na UGT?


No dia 1 de Outubro, quando estava anunciada a mais que necessária Greve Geral da CGTP, o secretário geral da UGT, João Proença, foi bastante claro nas suas afirmações, que podem ser conferidas no vídeo abaixo. "Marcar greve geral está fora de questão e sobretudo aderir a uma greve da CGTP ou ir para a rua dizer não à troika quando nós precisamos da Troika".




Proença falava então no plural, vinculando assim a direcção da UGT a uma decisão que, pela forma como foi explicada pelo próprio, parecia colectiva, com um grande consenso dentro da organização.

Um mês e um dia depois, Proença vinha já afirmar que, afinal, vai aderir à Greve Geral, porque o seu sindicato,  FESAP, decidiu aderir à greve geral. Talvez a FESAP se tenha sentido pressionada pela grandiosa manifestação da UGT no dia 26 de Outubro, que mobilizou milhares centenas dezenas de trabalhadores.





Curiosamente, hoje ficámos a saber que mais de metade dos 50 sindicatos afectos à UGT vai aderir à greve geral do dia 14 de Novembro. Recordemo-nos desta notícia. Vamos guardá-la bem para, mais tarde, o mesmo Proença não vir dizer que a CGTP mente quando diz que sindicatos afectos à UGT aderiram à greve.

Por fim, cabe então perguntar quem manda na UGT? O órgão executivo da UGT consiste apenas no João Proença? Felizmente, a ligação da UGT ao PS faz dela uma central democrática, de outra forma, teríamos o caldo entornado.

A greve geral é dos trabalhares e do povo, foi deles que partiu a exigência. Mas Proença não o sabe, porque deve andar entretido a coleccionar os elogios de Passos Coelho, Nuno Magalhães e do patrão dos patrões.

Dia 16, lá estaremos. Trabalhadores ao lado de trabalhadores. E tu, Proença?

domingo, outubro 28, 2012

A maratona de Gaspar

A tremenda habilidade de Vítor Gaspar para tratar das finanças do país é semelhante à sua capacidade de gerar momentos embaraçosos para esta espécie de comissão liquidatária que está à frente dos destinos do rectângulo.

Gaspar não tem aspecto de quem faça as suas corridinhas. Não faz mal, há não muito tempo tivemos por cá quem se passeasse em corridas matinais com as câmaras de tv atrás e esse também não deixa saudades. Aqui, estou com o Gaspar: também não gosto de correr. Faço-o quase diariamente porque sei que faz bem e com dois objectivos, que são a saúde física e mental.

Gaspar calçou as sapatilhas e fez-se ao caminho das metáforas com a maratona, ainda por cima com a fase final. Não sei o que será para ele a fase final. Sei que pode ser agonizante. Há entre os maratonistas aquilo que é chamado de "o muro", ocorre cerca dos 30km da prova e é a fase mais difícil dos 42,8km. As falhas musculares afectam também a mente dos atletas e muitos acabam por desistir.

Há portugueses que já desistiram da maratona. Deixaram o país e a prova de afundo. Muitos outros continuam por cá, nesta maratona miserável a que estão a condenar-nos. Gaspar acha que o pior já passou.

Gaspar é sebo. Sebo, sim. O Sebo que Francisco Lázaro usou em 1912 e o levou à morte nos Jogos Olímpicos desse ano. O maratonista cobriu o corpo com sebo para o impedir de suar. Neste momento, somos todos Francisco Lázaro.

O governo de Gaspar e companhia cobre-nos com sebo que nos asfixia todos os poros e acabará por levar-nos à morte. Assim nós o deixemos e não nos hidratemos de todas as formas possíveis. Francisco Lázaro não teria morrido se tivesse tomado um banho. Um banho simples, que os colegas da comitiva portuguesa daquela edição olímpica não conseguiram convencê-lo.

E ele foi morrendo a cada passo que dava. E nós precisamos de um banho. Um banho que limpe o sebo.

segunda-feira, outubro 22, 2012

Tribuna Pública contra a extinção de freguesias



PORTO - TRIBUNA PÚBLICA – CONTRA A EXTINÇÃO DE FREGUESIAS
27 de Outubro – 15H30 – Praça dos Poveiros

A Plataforma Nacional Contra a Extinção de Freguesia agendou para o próximo dia 27 de Outubro, Sábado, uma jornada nacional de luta contra a extinção de freguesias. Por todo o país, em vários distritos e concelhos, vão decorrer acções em defesa do poder local e contra a proposta de reorganização administrativa que o governo quer impor, e que apenas visa liquidar freguesias. Nenhum autarca foi eleito propondo a extinção da sua freguesia, e por isso não podemos aceitar ser os “coveiros” das nossas freguesias.

É com este sentimento que a grande maioria das Assembleias Municipais e das Freguesias não têm apresentado qualquer proposta de reorganização administrativa na sua respectiva área de actuação. É com este mesmo sentimento que a luta contra a extinção das freguesias vai continuar.

No distrito do Porto, a Plataforma Nacional Contra a Extinção de Freguesias e o STAL vão promover uma TRIBUNA PÚBLICA, no próximo dia 27 de Outubro, pelas 15h30, na Praça dos Poveiros, com os seguintes objectivos:

Em defesa do Poder Local Democrático
Contra a Extinção de Freguesias
Pela manutenção dos serviços públicos de proximidade
Pela defesa dos trabalhadores da administração local

A luta tem de continuar! Pela defesa das nossas freguesias! As freguesias são do povo!


quinta-feira, outubro 04, 2012

Censura e Greve Geral - uma orgia em forma posta

Conta-se aqui que quando uma minhoca olha para um prato de esparguete pensa: "olha, uma orgia"!

O que sucedeu nos últimos dias foi mais ou menos uma orgia. CDS e PSD mais ou menos enrolados e o PS naquela situação confortável de "agarrem-se se não eu mato-os". Pelo meio, manifestações gigantescas, umas inorgânicas, outras convocadas pela CGTP. A segunda, levou a observações ao minuto e acompanhamento de tuiteiros de sofá que afirmavam que, segundo as imagens aéreas, a CGTP não tinha conseguido encher o Terreiro do Paço. Depois calaram-se, porque a realidade superou a ficção.

Entretanto, após a polémica da TSU, que o PS cavalgou para reclamar a vitória no recuo do governo - desvalorizando as acções de massas -; o PS voltou a ser igual a si próprio: o partido da rosa. De esquerda, só tem a mãozinha com que aparece nos boletins de voto.

Impressionante mesmo é a forma como, em duas semanas, a moção de censura que o PS colocou em cima da mesa deixou de fazer sentido, quando foram apresentadas outras duas, uma delas pelo PCP. Segundo o líder parlamentar Carlos Zorrinho, "as moções de censura só fazem sentido quando são para derrubar um governo". Portanto, Zorrinho acreditava mesmo que o CDS seria um partido com princípios e abdicaria dos lugares de governo. É enternecedor, mas também é de um a credulidade chocante vinda de alguém há tantos anos na vida política. 

Para o PS, o roubo de um salário só seria mau se fosse conseguido através da TSU. Uma moção de censura contra o roubo de mais de um salário através do IRS, do IMI, ficará para "análise depois de aprovado o Orçamento de Estado de 2013", segundo a eurodeputada Edite Estrela.

Sintomático do limbo em que se encontra o PS foi a sua abstenção (violenta?) nas moções. Mais; o PS doeu-se mais pela apresentação das moções do que o próprio governo. Apesar disso, nas intervenções durante a manhã de hoje, a bancada do PS teceu duras críticas ao governo. Mas depois absteve-se.

Refira-se que no texto da moção do PCP, apenas há duas referências ao PS, que passo a transcrever:

"O Governo PSD/CDS intensificou - a partir da aplicação do pacto de agressão que constitui o memorando assinado por PS, PSD e CDS com a troica estrangeira - uma violenta ofensiva contra os trabalhadores, o povo e o País, que se prepara para acentuar na proposta de Orçamento do Estado para 2013."

 (...)



"Os 36 anos de política de direita, aplicada por sucessivos Governos, mesmo depois de prometerem mudanças que nunca fizeram, levaram o País à situação em que se encontra. A aplicação do pacto de agressão - subscrito por PS, PSD e CDS com a troica, com o apoio cúmplice do Presidente da República – é o cerne da política do Governo. A rejeição do pacto de agressão, a derrota do Governo PSD/CDS são indispensáveis para abrir caminho a uma verdadeira mudança de política, que não se basta com a eliminação pontual de medidas ou com a alteração da forma como são apresentadas ou aplicadas."

Não sei se o PS pretenderia colocar-se à margem do memorando. Mas foi assinado pelo partido, pelo que qualquer referência ao mesmo obrigaria à inscrição da sua sigla. Antes não fosse assim. 

Surgiu pelo meio da confusão a reclamada e mais que justa greve geral da CGTP, à qual Proença e a sua central, UGT, disseram desde logo que não. O desemprego não lhe afecta a barriga, os baixos salários também não. O facto de os trabalhadores terem os seus rendimentos ao nível de 1999 não lhe faz confusão.

Já não espanta a mim, que vou a caminho das três décadas, deve espantar ainda menos os mais velhos e os mais atentos. Pode ser que volte a perder tempo com esta organização criminosa mais lá para a frente. Criminosa, sim, para com aqueles que tem o dever de defender.

Ficamos pois, com duas tarefas árduas, às quais já estamos habituados: combater a pressão dos patrões e a desinformação da UGT para que seja uma grande greve geral.

Uma palavra ainda para o CDS, que tenta a todo o custo passar por entre os pingos da chuva mas acabou com Paulo Portas encharcado, depois da intervenção de Honório Novo

Nós estamos a fazer história. E voltaremos a fazê-la no dia 14 de Novembro.

E só há dois lados nesta barricada. "Se o governo não ouvir os trabalhadores a bem, irá ouvir os trabalhadores a mal".

 
O nosso pai era um sindicalista,
Um dia serei também.
O patrão demitiu o meu pai,
O que vai a nossa família vai fazer?

Venham todos os trabalhadores,
temos uma boa notícia
Vou dizer-vos como o Sindicato 
está aqui de pedra e cal.

Refrão:
De que lado estás?
De que lado estás?

O meu pai era mineiro
e eu filho de mineiro sou
E estarei com o sindicato
até que todas as batalhas terminem.

Dizem que em Marlan não háneutralidade,
preferes ser um sindicalista,
ou um cão de fila para J.H Blair?

Trabalhadores, conseguem suportar isto?
Diz-me se serás um rato,
ou serás um homem?
 
Não creiam nos patrões,
Não ouçam as suas mentiras
Somos gente pobre,
não temos futuro 
se não nos organizamos.
 
 

quarta-feira, setembro 26, 2012

Crónica de duas reformas anunciadas II

O PAI

Nascia na Rua Óscar da Silva, a 1 de Setembro de 1951. Luís Fernando Pereira dos Santos era então o terceiro filho de uma família que viria a conhecer mais sete. De Leça, pois claro. Foi reformado a 1 de Setembro de 2012, com 700 euros, ao fim de 40 anos de descontos e 51 de trabalho.

Filho de Fernando Pereira dos Santos e Maria Celeste, sim, sem apelidos. Fernando Pereira dos Santos era comerciante, alegadamente abastado. Teve um dos primeiros automóveis a surgir nas vielas de Leça. Poderia ter sido de facto abastado, não fosse gastar tudo em casas de má fama.

Vivia-se mal para além das aparências, como qualquer família viveria mal com 12 pessoas numa casa na década de 50. Luís Fernando frequentou a Escola da Amorosa, como os restantes nove irmãos.

Luís teve como professor da primeira classe João Teixeira Pimenta, um dos homens marcantes na história de Leça da Palmeira, que ajudou a fundar o Rancho Típico da Amorosa.Tinha também um professor de ginástica, Hernâni, conhecido por "Pica Orelhas". O cognome surgiu, está fácil de ver, porque era adepto das orelhas dos alunos.

Certo dia, na quarta classe, o professor Hernâni, durante uma aula de ginástica, deu um murro na barriga de Luís que o fez vomitar tudo. O exercício consistia em manter a barriga para dentro e Luís, na altura uma radiografia, conseguiu mantê-la para fora. Foi o fim das aulas de ginástica. Fernando Pereira dos Santos foi à escola saber por que motivo o professor havia batido no filho. Foi decidido que, como não fazia do que mandava o professor Hernâni, deixaria de frequentar a disciplina.

Luís tinha como companheiro de carteira Rui, que se manteve até à quarta classe, e, do professor Pimenta, levou apenas dois "bolos", reguadas, por estar a jogar aos cabazinhos (caricas) em cima da carteira.

Como era filho de comerciante, logo de gente com posses,não tinha direito ao lanche da escola. Ficava por isso a olhar, enquanto os meninos comprovadamente carenciados e atestados pela aparência comiam o pão com queijo amarelo.

Luís sempre foi apreciador de mulheres bonitas, não tivesse ele, anos mais tarde, vindo a casar com Elisa Magnífica Meireles - lá chegaremos. Vinha da catequese e estava a construir-se a Avenida Dr. Fernando Aroso. Nas valas, alguns escondidos entre os tubos. O esquema estava montado. Luís, Júlio, Zé Carlos e outros revezavam-se e desafiavam as raparigas a fazerem como eles: atravessarem a vala, com as pernas abertas, uma perna para cada lado. Elas estavam de saias, eles não. Eles viam o que queriam e elas ainda hoje não sabem o que lhe foi visto.

Incrivelmente para quem conhece hoje Luís Fernando, Fernando Santos achava que o filho tinha vocação para padre, fruto da influência do tio João, jesuíta e que ainda hoje espalha a fé pelas igrejas. Chegou mesmo a estar matriculado no seminário onde estava o tio, mas o padre Alcino intercedeu após uma conversa com Luís Fernando:

- Não queres ser sacerdote?
- Não. Nem gosto da escola.

Não foi. Saiu da escola aos dez anos e entrou para o negócio da família. Foi trabalhar para a oficina de Fernando Santos, que tinha marca própria de bicicletas e tudo: FERSAN.

Maria Celeste era a mulher da casa. Aturava os 10 filhos e o homem com quem havia casado, que estava longe de ser um marido.

Era, no entanto, uma casa de gente de bem: benfiquistas por obrigação. Fernando Pereira dos Santos não facilitava em determinadas coisas.


Bicicleta FERSAN:

segunda-feira, setembro 24, 2012

Crónica de duas reformas anunciadas I

Sou oficialmente filho de dois reformados. Reformas negras de vidas douradas, ao invés das tão famosas reformas douradas conseguidas por meios mais ou menos obscuros.

A Mãe

A minha Mãe foi reformada em Novembro de 2011, com 539 euros ao fim de 44 anos de descontos e a trabalhar desde os 13. Comemorou 60 anos.

Elisa Magnífica Meireles - um nome digno de um romance de 'Gabo' - nasceu a 19 de Julho de 1952, na aldeia de Linhares de Ansiães, concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança. Filha de Ana Natália Meireles e da pessoa que mais filhos tinha no tempo da ditadura fascista de Salazar: o incógnito.

Mesmo toda a gente sabendo o nome do pai incógnito, Ana Natália Meireles pegou na filha e mudou-se para o Porto, passados dois anos, quando o incógnito foi para o Brasil. E ser mãe solteira em 1952 e ainda mais no interior não haveria de ser fácil. Chegadas ao Porto, com a Invicta a receber aquela que viria a ser um exemplo de força, de vida e de coragem.

Elisa chegava assim ao Porto com dois anos. Ficaram as duas em casa da Tia Adelaide, na Rua do Breiner. Ana Natália "foi servir". Era criada interna em casa de senhores abastados e visitava a filha quando podia. Assim foi até aos cinco - quase seis - anos de Elisa.

Por essa altura, casou com um pescador de Leça da Palmeira, ainda que nascido na Póvoa de Varzim. Mudou-se para junto ao mar e deixou de servir, que o meu avô - não o incógnito - não permitia que mulher que a vida fez dele trabalhasse. Ou cortasse o cabelo. Ou que tirasse o avental. Ainda a década de 60 não tinha acabado. Já em Leça da Palmeira, Elisa tinha agora um pai. Rude como só as marés sabem ser e alcoólico como só o mar é capaz de fazer com que alguém seja.

José Luís Capelão tinha já quatro filhos, mas só um vivia com ele. Elisa ganhara irmãos. Os outros viriam mais tarde, ao longo dos anos, quando deixaram a Obra do Padre Grilo ou quando a mãe adoptiva os fez retornar à procedência.

Viviam na Rua do Cidral, em Leça, numa casa minúscula como a rua que a albergava. Capelão era particularmente implicativo quando o vinho falava por ele, mas raramente era mau para Elisa. Falava antes com Ana Natália, que se encarregava de aplicar o castigo necessário. Capelão guardava as angústias das marés para os fins-de-semana. Pegava num bocado de borrachava e descarregava nos filhos a frustração de não viver do mar. E no mar. Já à mulher, batia-lhe à chapada.

Elisa era boa aluna. Um dia, disse-lhe a professora da terceira classe e directora da escola do Corpo Santo, D. Alzira: "Quando tu cresceres, vais para minha criada". Era este o prémio que as pessoas do Povo recebiam por serem bons alunos. Ser criada da professora.


Nos passeios da escola, Elisa não tinha dinheiro para pagar as viagens. Era uma colega que as pagava, vinda de uma família que se destacara na indústria das conservas. Também na catequese - obrigatória para assimilar a fé - Elisa era aplicada e viria mesmo, anos mais tarde, a ensinar a palavra do Senhor.

A partir da quarta classe, era necessário um exame para quem quisesse continuar a estudar. Por ser boa aluna, a catequista, Menina Judite, oferecera-se para pagar-lhe os estudos, falando para isso com Ana Natália. Também a professora da quarta classe, a professora Matilde Brás Lago, se ofereceu para dar explicações gratuitas para o exame de admissão.

Feito o exame de admissão no Liceu D. Manuel, Elisa passou com distinção, ficando isenta de propinas. Estavam passados os primeiros 10 anos com muito mais que merecia aqui estar, mas que não está, que há coisas que só se devem ser saboreadas no papel.

quinta-feira, setembro 20, 2012

O brinquedo é meu*



Foi notícia o caso da ambulância de S. Mamede, em que o presidente da Câmara de Matosinhos esperava uma multidão mas, certamente por motivos de força maior, atrasou-se e já lá não estava ninguém para receber tão importante personagem. Note-se a importância do acto: a reentrega de uma ambulância reparada, nem sequer era nova.

Certo é que o edil amuou e mandou recolher a viatura, que certamente, na sua cabeça iluminada, faria mais jeito parada nas oficinas da autarquia do que nos bombeiros. Com ou sem recepção e fanfarra.
Politicamente, S. Mamede de Infesta é uma espécie de Entroncamento do concelho de Matosinhos. São fenómenos atrás de fenómenos. Recordo-me de uma campanha eleitoral em que um candidato, presidente de uma associação da terra, usou os contactos dos associados para enviar cartas a apelar ao voto nele próprio. Mesmo para associados que já estavam mortos.

Vai correndo com a normalidade habitual a vida política em Matosinhos, principalmente em aquecimento para as eleições autárquicas. Desde supostas violações da conta do Twitter do Narciso Miranda, até às birras narcísicas do actual presidente, temos todos os ingredientes para mais uma campanha muito peculiar.

*Publicado, originalmente, na edição de Setembro do Notícias de Matosinhos.


Adenda:

Faz tanto sentido.

quinta-feira, agosto 16, 2012

A morte é como o sabão*

 A morte é mágica. Tem o condão de limpar tudo. Dizia-se nas margens do Leça que o sabão lava tudo, só não lava as más línguas. Afinal, é a morte. A morte é capaz de limpar o passado mais cretino de qualquer cidadão. Temos nós o hábito do coitadinho na hora da morte. “Morreu, coitado”. Mas a história não morre, pode é ser manipulada e, às vezes, apagada.

Parte do país lamentou a morte de José Hermano Saraiva, um grande comunicador, ao que parece, mas um menos bom historiador, diz quem percebe da poda.

O detalhe de estarmos a falar de um ministro da ditadura fascista de Salazar parece não incomodar quem o elogia. Lá está a morte a limpar as memórias. Diz-se que a educação era o seu grande amor. Um amor à moda antiga, daqueles que se resolvem à bastonada, como quando mandou a GNR carregar sobre os estudantes de Coimbra durante a Crise Académica.

Alguns desses, dos que foram corridos à bastonada por ordem do comunicador, elogiam-no mesmo assim, fazendo ressuscitar a triste máxima do “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Outros, mesmo não tendo vivido esse dia, não perdoam a ditadura.

Continuo a achar que quem não foi bom em vida, não tem de ser bom porque morre.

*publicado originalmente no Notícias de Matosinhos

segunda-feira, julho 30, 2012

Começou a campanha em Matosinhos

Abriu a caça ao poleiro em Matosinhos. A declaração surgiu na conta de Narciso Miranda no Twitter em dia de aniversário do ex-presidente da CMM. Está dado o pontapé de saída. E mais alguns.




Clica para ver a foto.

sexta-feira, julho 13, 2012

segunda-feira, julho 09, 2012

mailto: Lusófona - A saga continua


A Universidade Lusófona respondeu ao meu pedido de informação, o que é de louvar. No entanto, não foi suficientemente esclarecedor:

"Caro Ricardo Santos,

Obrigada pelo seu contacto e interesse na ULP.

A legislação permite a qualquer candidato que reúna as condições de ingresso ao ensino superior, requerer a creditação de competências profissionais.

Poderá concorrer a Educação Física e Desporto pelo regime para maiores de 23 Anos  e, ficando apto a ingressar, poderá apresentar o dossier de candidatura à creditação de competências profissionais ou adquiridas.

O dossiê de candidatura à “Avaliação e Creditação de Competências Profissionais ou Adquiridas” incluirá os seguintes documentos:
a) Requerimento segundo o modelo em curso;
b) Curriculum vitae segundo “modelo europeu”, a que deve anexar-se uma descrição exaustiva de cada uma das funções e tarefas profissionais exercidas com relevo para o processo em apreço;
c) Declarações comprovativas, emitidas pela(s) entidade(s) empregadora(s), com identificação das funções, posição e período de execução das mesmas ou, quando não for possível entregar a declaração da entidade empregadora, comprovativo de desconto para a segurança social e descrição pelo próprio, da função, posição e período de tempo a que respeita;
d) Certificados ou outros comprovativos de Formação realizada;
e) Cartas de referência;

Este processo será analisado então pela Comissão Científica da Licenciatura.

Disponível para qualquer esclarecimento que julgue necessário.

Cumprimentos,

SB"


Cara SB,


Permita-me, antes de mais, agradecer a resposta ao meu contacto. Na verdade, não. Começo antes por pedir desculpa pelo português utilizado no primeiro email, que terá levado a que a sra. dra. pensasse que eu apenas posso candidatar-me à Universidade Lusófona através do programa maiores de 23 anos.


Quanto à resposta que me enviou, necessito de alguns esclarecimentos, por culpa minha, que não terei sido suficientemente claro, fruto da minha fraca formação académica, que não me permite expressar melhor.
Temos um problema de comunicação, no que concerne aos ponto b, c e d). Eu referi expressamente que não tenho qualquer currículo profissional na área de Desporto e Educação Física. Tenho apenas currículo pessoal, o mesmo que o senhor que agora consta nas manchetes. Recordo que ser deputado não é profissão, logo, a actividade profissional não terá sido levada em conta pelo menos num dos 89 casos que sucederam na Universidade Lusófona. E eu gostava de ser o número 90, que é redondinho. Foi nesse pressuposto que efectuei o contacto com a Universidade Lusófona, pois pretendo concluir a licenciatura, no máximo, em 14 meses. Informo ainda que frequentei o primeiro ano do curso de Línguas e Relações Internacionais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pelo que gostaria de saber quais as equivalências de que poderei usufruir aquando da minha transferência para a Universidade Lusófona, para além das que terei devido à minha experiência e currículo pessoais.


Repare que nem faço questão de conhecer os professores que me darão a licenciatura. 

Peço especial atenção para o meu pedido, uma vez que o motivo que leva a querer licenciar-me é para fazer um gosto aos meus pais, que sempre quiseram que eu fosse doutor, nem que seja à pressão. A verdade é que eles nunca o disseram, mas eu sei que sim.


Rogo assim que revejam com atenção o primeiro email que enviei, e não me respondam com o modelo standard que utilizam para quem os contacta com mais de 23 anos.


Com os melhores cumprimentos,


Ricardo M Santos


ps: Acrescento ainda que frequento o ginásio diariamente.

ps2: Tenho uma irmã hipocondríaca que é capaz de reconhecer qualquer medicamento pelo princípio activo ou nome comercial das diferentes marcas. É licenciada em Línguas e Secretariado pelo ISCAP. Peço assim que me informem se a Universidade Lusófona possui algum curso de medicina e quais as equivalências que a senhora minha irmã poderá ter. Tendo em conta que se trata de curso de Medicina, julgo que poderemos estender o prazo de licenciatura e mestrado até 20 meses.

domingo, julho 08, 2012

Democracia e censura*


Já está. As eleições para a concelhia de Matosinhos e da distrital do Porto do PS decorreram com toda a normalidade. Por entre mensagens intimidatórias oriundas dos aliados do presidente da Câmara até vidros partidos, carros vandalizados e “militantes” que já não o são mas que continuam, como que por mistério, a ser contactados para irem votar de cada vez que há o circo, perdão, o ciclo eleitoral, há de tudo, como na farmácia.

Pode ser que, agora, os responsáveis pelo concelho possam ter algum tempo para tratarem daquilo para que foram eleitos, se não for pedir muito, e se sobrar algum tempo, depois das inaugurações de fachada para “militante” ver.

Faz lembrar o PS nacional, que continua sem tempo para política e preso no seu labirinto, a recolher cacos dos anos de Sócrates: entre a conivência com o pacto de agressão do FMI e a violência das suas abstenções.

Daí o incómodo do PS – mais acentuado que o incómodo do governo – com a moção de censura apresentada pelo PCP. É um problema para o PS ter de censurar o governo sabendo que, se fosse governo, fazia o mesmo que Passos Coelho.

*Publicado originalmente no jornal Notícias de Matosinhos

sexta-feira, julho 06, 2012

mailto: Universidade Lusófona (II)

A minha mensagem foi encaminhada para os serviços de acesso da Lusófona

Clica na imagem para ampliar.


Aprendei. Vale sempre a pena tentar.

quinta-feira, julho 05, 2012

mailto: Universidade Lusófona

Bom dia, 

Ouvi nos últimos dias que existe na vossa instituição a possibilidade de concluir uma licenciatura no período de um ano mediante apresentação de currículo profissional. Ora, conto actualmente 29 Primaveras - espero que me perdoem a não adopção do acordo ortográfico, mas, se for absolutamente essencial, comprometo-me a fazê-lo - dizia eu, conto actualmente 29 Primaveras, 20 das quais passadas em actividade física constante, interrompida apenas entre 2000 e 2002, salvo erro, mas o rigor das informações parece que não é condição fundamental para que possa ingressar na vossa licenciatura.


Sendo verdade que nunca fui atleta profissional, não é menos verdade que a licenciatura que agora está nas manchetes também não inclui qualquer currículo profissional, porque ser político não é profissão. Nestes termos, informo que fui campeão nacional e distrital de futsal na categoria de infantis e regional na categoria de iniciados, dos quais possuo diplomas certificados. Pelo meio, joguei futebol de 11 no SC Senhora da Hora e no FC Perafita. Pratiquei ainda andebol no Leça FC durante cerca de seis meses, como guarda-redes, mas uma bolada na cara, num remate da ponta esquerda, frente ao Infesta, deixou-me desmotivado e abandonei a modalidade.

Entretanto, praticava já Kung Fu na variante Wu-Shu, tendo sido campeão regional na categoria de pesos-leves, em 1999, modalidade que interrompi e retomei anos depois, perfazendo um total de sete anos de experiência comprovada. Era-nos ministrado também Tai Chi, armas tradicionais chinesas e defesa pessoal. Actualmente, pratico Muay Thay, modalidade que abracei, parece-me em 2009 - data a confirmar.

Julgo que, com este currículo, reúno as condições para concluir a minha licenciatura no período de um ano lectivo, mediante pagamento de propinas.


Rogo assim que esta mensagem seja enviada ao Digníssimo Reitor da Universidade Lusófona bem como ao departamento que coordena as licenciaturas em Educação Física.


Grato pela atenção dispensada e com a certeza de que em breve receberei resposta da parte de Vossas Excelências,

Subscrevo-me, com os melhores cumprimentos,

Ricardo M Santos


Clique para ampliar.


terça-feira, junho 05, 2012

O coiso do Álvaro é uma oportunidade*




Parece que estar no coiso é uma oportunidade, segundo reza a palavra do nosso Primeiro. Pelos vistos, o Álvaro agarrou na oportunidade e saiu-lhe o coiso pela boca fora, quando segurava na mão perto de 1.000.000 de portugueses que estão repletos de oportunidades.

O coiso do Álvaro atormenta-nos e só alguém com os coisos no sítio é capaz de aguentar tanto disparate vindo de um só governo há tão pouco tempo eleito. O coiso do Álvaro cresce a um ritmo alucinante e parece incapaz de parar, numa espécie de Viagra de longo prazo que parece não ter fim à vista. O pior é que aqueles que agora estão num plano de oportunidade não poderão processar a farmacêutica por possíveis danos causados. 

O coiso está aí, firme e hirto, e afecta uma população cada vez mais descrente. Importa, por isso, que do coiso se faça força para lutarmos pelas oportunidades que todos temos de ter. Mesmo aqueles portugueses menos mediáticos que não aparecem nos límpidos, claros e objectivos relatórios das secretas que o ministro Relvas alega desconhecer.

O coiso de que falava o Álvaro era o desemprego. Faltou-lhe a palavra, pois claro. Pode acontecer a qualquer um que não dê a mínima importância ao assunto.

*Publicado originalmente no jornal Notícias de Matosinhos.

quinta-feira, maio 10, 2012

40 anos de Grândola



Há precisamente 40 anos, Zeca Afonso tocou pela primeira vez a Grândola Vila Morena, que viria a tornar-se num símbolo da Revolução.

A 10 de Maio de 1972, em Santiago de Compostela, Zeca cantava-a pela primeira vez, com a ajuda de José Mário Branco. A Galiza comemora a data com um mega-espectáculo com mais de 100 artistas em palco.

Portugal, este pedaço dirigido pelo mofo e escurecido pelo bolor de troikas e baldroikas, esqueceu-se.


terça-feira, maio 08, 2012

Migalhas de Abril*

 
Passaram 38 anos desde o 25 de Abril de 74. Das conquistas de então resta o que nós, enquanto herói colectivo da Revolução quisemos que restasse. Entretanto, já nos idos anos 80, época do soarismo e do socialismo na gaveta, regressou ao país o braço-armado económico da ditadura salazarista. Passaram 38 anos e o país continua a ser governado nos bastidores pelo poder económico de então, pelas mesmas famílias, pelos mesmos interesses, entretanto com rostos renovados.

O retrocesso atroz que vivemos sente-se profundamente, até na música, com gente que viveu e defendeu Abril a apelar agora a que se dêem os restos aos pobrezinhos. Gente que ajudou Abril a ser o que foi e outros mais jovens, que alegam defendê-lo, a darem a cara por uma campanha miserável de caridadezinha tão à imagem da direita mais saudosista do fascismo.

A minha geração também tem culpa. Alguns vêem Abril como ultrapassado, desvalorizando as suas comemorações. Outros, autarcas até, vão às escolas explicar que Portugal viveu numa ditadura durante 30 anos e que o Marcello Caetano era Presidente da República. Para isso mais vale estarem quietos.


Publicado originalmente na edição de Maio do jornal Notícias de Matosinhos*

quarta-feira, maio 02, 2012

Somos umas putas morais - vendemo-nos por 50% de desconto

Ontem, o Alexandre Soares dos Santos cagou numa das mais importantes datas da história da humanidade e descobriu-nos a careca. Somos mais desumanos do que pensamos.

Enquanto os media mainstream se debruçam nas questões legais, do dumping à concorrência desleal - já agora, com o pagamento de um dia e meio de trabalho a cada trabalhador, aliado ao desconto generalizado de 50 por cento na conta final, terá havido algum lucro para a empresa? - o que mais me preocupa é a moralidade de quem levou a cabo a iniciativa e de quem embarcou nela.

Já agora, os media que se fodam mais as "palavras de ordem de sempre", os "conceitos sempre repetidos" mais a conotação pejorativa que lhe dão. Se são as palavras de sempre é porque as reivindicações com décadas continuam a fazer cada vez mais sentido.

Já dizia um poeta brasileiro que "a necessidade é maior do que a moral" e o capital não perdoa. O capital faz-nos não só passar por necessidades como faz-nos acreditar que precisamos do que não precisamos. Ontem, uma parte da população precisou de tudo e mais alguma coisa. Duas conclusões:

Primeiro, o capital mata-nos à fome e oferece-nos depois comida* com 50 por cento de desconto como se fosse uma benesse, um favor que nos faz por enriquecermos o PIB, no caso o da Holanda, enquanto tem impostos reduzidos e paga miseravelmente aos trabalhadores. Basicamente, vende-nos o que produzimos quase de borla de forma a parecer barato - Portugal é um dos países da UE com os custos de trabalho mais baratos. Diz que é o mercado, mais a lei da oferta e da procura. Para mim é só selvagem. O que ontem aconteceu foi dar com uma mão o que têm tirado com as duas.

Segundo, a data escolhida não é ingénua. Podemos todos relativizar, mas não é. É uma afronta a todos os trabalhadores e às suas lutas e fez com que fosse quase esquecida por uma parte da sociedade. Depois, abre o debate sobre o significado do 1.º de Maio, mesmo que muita gente não saiba qual é nem o que representou ao longo de décadas. Relativiza-se tudo, porque "se uns trabalham, outros também podem trabalhar", mesmo que se comparem hospitais e esquadras de polícia a supermercados, sem se perceber o ridículo da coisa. Eu acrescento, em adaptação livre do Saramago: relativizem a puta que vos pariu a todos.

A génese do 1.º de Maio tinha por princípio uma reivindicação clara: oito horas de descanso, oito horas de trabalho e oito horas de lazer. Os trabalhadores, massa insatisfeita, conquistaram mais e mais ao longo dos anos. O capital, com uma sociedade reduzida ao poder do consumo, retaliou. Estamos a viver um momento de viragem histórica. Seja para que lado for.

Por fim, uma palavra de solidariedade para com os trabalhadores das grandes superfícies que ontem foram coagidos a trabalhar, apesar do pré-aviso de greve e para aqueles que tiveram mesmo de aproveitar os descontos de ontem para terem um mês menos difícil. A necessidade foi, para alguns, maior que a moral.

*Por "comida" entendam-se produtos, só para não haver quem diga que não se passa fome em Portugal.


quinta-feira, abril 05, 2012

Impedimentos que impedem*


Cavaco ficou intimidado com perigosos manifestantes de uma escola secundária. Miúdos até aos 15 anos, o terror de qualquer político que até foi professor, mas universitário. A desculpa oficial, foi que ficou impedido por um impedimento. Assim mesmo, como aquelas subidas que sobem para cima ou quando se entra para dentro.

Quem não entrou para dentro foi Passos Coelho, no dia da Greve Geral, no Porto. O ilustre primeiro preferiu a porta do cavalo para fugir aos manifestantes que o esperavam. É sempre melhor quando falamos com aqueles que devemos representar pela televisão ou pela rádio, sem direito a contraditório.

Fugiu, o piegas. Teve medo de dar a cara perante aqueles que contestam o caminho de pobreza que nos pretendem impingir como inevitável, ao mesmo tempo que arranjam lugares de relevo para amigos e compadres, com cortes que mais parecem arranhões para quem ganha milhares de euros.

Segue a luta, que é dura e, muitas vezes, poluída por opiniões de quem tem mais umbigo do que olhos para encararem a realidade com que (sobre)vivem milhões de portugueses.

*originalmente publicado na edição de Abril do Notícias de Matosinhos

quarta-feira, abril 04, 2012

Quando era dia até ser noite

Quando comecei a trabalhar ainda andava no secundário, no segundo 10.º ano que cumpriria, após um primeiro equívoco que me levou para as artes. Das artes, ficou só o artista, que as mãos teimavam em não obedecer aos olhos, quando a professora plantou aquele pimento em cima de uma mesa e disse: "Agora, desenhem". Nunca um pimento foi tão parecido com coisa nenhuma.

Trabalhar e estudar de dia obrigava-me a faltar às aulas, o que me valeu alguns dissabores com a professora de Português, que ainda hoje está para saber como tirei aquele 12 no teste sobre o Sermão de Santo António aos Peixes. E, verdade seja dita, eu também.

Como a maioria do pessoal da minha idade que residia em Leça norte, aquela zona meia perdida entre a Leça dos postais e Perafita, depois de um trabalho de que gostei muito numa empresa relacionada com a UEFA Champions League, tomei o gosto por ter o "meu" dinheiro e fui ganhar uns trocos para os transitários.

O cheiro a óleo e a escape dos empilhadores e dos camiões era tão característico que ainda hoje o conheço. Era divertido, na altura ainda bebia cerveja e isso ajudou à minha integração. Era eventual. Eventualmente, era chamado para trabalhar, às sextas-feiras.

A primeira sexta que trabalhei foi assustadora. Das 8 da manhã de sexta até às 7h30 de sábado. Achei bruto. E, uns meses mais tarde, o Rui, que levava muitos anos daquilo, disse-me: "Isto embrutece um gajo". E eu confirmo, qualquer um confirma. A grande ansiedade era saber quem ficava para a noite de sexta. O pessoal da casa era preferido, obviamente, depois sobravam os que eventualmente ficariam.

Tinha uma explicação. Na altura, o dia começava às 8 da manhã e acabava às 20. Tudo o que fosse para além disso era pago a 100% por hora. Apanhei a fase de transição, em que isso só passou a acontecer entre as 22 e as 6 da manhã. O sol passou a deitar-se mais tarde e a acordar mais cedo.

Mas continuávamos a trabalhar. Na madrugada, quando chegavam os camiões amarelos e azuis, o aspecto era desesperante. Era o algodão para carregar e os "cartões", vulgarmente conhecidos por caixas de papelão. A madrugada era bruta. Olhávamos para os contentores de 40 pés e não lhes víamos o fundo, também por culpa da luz amarela que iluminava um bocadinho o cais. Era desesperante. Os contentores não tinham fim e os camiões também não. Aguentava-se à base de umas cervejas e cigarros.

Valia pelas horas-extra, que ainda não tinham sido muito roubadas, como agora serão, com o aval da UGT e o patrocínio do PSD, CDS e PS, mais a sua abstenção violenta.

Era bruto, como as viagens para Amarante onde íamos montar uma máquina qualquer e carregar tábuas que nunca mais acabavam, numa Toyota Hiace de três lugares onde íamos cinco.

Era bruto como as idas ao Porto de Leixões, para descarregar e carregar contentores de uma ração qualquer que tinha que ser inspeccionada. Tantas vezes.

Para estes homens, os dias vão ficar mais compridos e mais caros, com as horas mais baratas. E com a luz do sol a prolongar-se noite dentro. Mas isso não há-de ser problema para quem nunca os viu nem os vê.