«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e... a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, (...) privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos»
José Saramago - Cadernos de Lanzarote
Que o PS de Matosinhos está longe de ser flor que se cheire, todos sabemos. Que a decadência do concelho, a todos os níveis, é constante, também sabemos. Não vale a pena recordar as guerras internas: Manuel Seabra, Narciso Miranda, Guilherme Pinto, António Parada, Nuno Oliveira. Desta vez, António Parada, um dos cabeças de lista de um dos PS de Matosinhos, tornou-se fenómeno de popularidade no Facebook, à semelhança do que já sucedera com Guilherme Aguiar - do PSD, que será candidato à CM de Gaia - mas por outros motivos. Guilherme Aguiar estava a jogar solitário durante uma Assembleia Municipal onde se discutia a extinção de freguesias.
Parada - actual presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos - estava num evento repleto de acéfalos e recebeu muitos aplausos por defender o "fim da escolaridade obrigatória". Mais: o candidato do acha que "os jovens devem ser apoiados pelo Estado, apoiar aqueles que têm aproveitamento. Aqueles que não têm, aos 14 anos é mandá-los trabalhar".
Esta postura medieval do candidato do PS (oficial) é ainda mais incompreensível quando o próprio concluiu a licenciatura... no ano passado. António Parada é agora doutor António Parada, licenciado em Relações Internacionais e Ciência Política pela Universidade Fernando Pessoa.
Não sei se Parada teme a concorrência laboral - tanto como a partidária -, numa altura em que o desemprego atinge níveis vergonhosos em Matosinhos, onde o PS reina desde sempre na nossa história democrática. Parada não quer mais doutores, a menos que seja o próprio.
Parece-me, é que está definida a linha política que este candidato assumirá no que respeita à educação. Uma coisa é certa, António Parada é bastante eclético nas fotos que apresenta no seu site, e dá-se bem com uns...
Todos
os anos, sazonalmente, surgem estudos de época que visam apenas
legitimar ou, pelo menos, tirar o peso da consciência de determinados
actos. Por exemplo, no Verão, surgem estudos que dizem que uma cerveja por dia faz bem à saúde e que nem sequer engorda.
Lá mais para a Páscoa deverá sair outro a dizer que os doces beneficiam
os dentes bonitos. Ninguém sabe quem encomenda estes estudos. Mas a
impensa noticia-os como verdades. Hoje, surgiu um novo
estudo de época, bem mais grave do que todos os que visam acentuar o
consumo deste ou daquele produto numa determinada época.Parece que a fome melhora a memória.
Fome, que é uma coisa diferente de carências alimentares, segundo os
mandamentos da Madre Jonet. O estudo foi feito em moscas. Moscas, sim,
mas parece que pode aplicar-se a seres humanos e até será publicado na
revista Science. Há um senão: têm de estar sem comer mais de 20 horas, ou o efeito é inverso. Na
prática, quem quiser ter uma memória melhor, deverá estar sem comer,
pelo menos, 20 horas e 1 segundo. Este também é um estudo de época.
Vivemos em tempos de fome e miséria, ainda que alguns teimem em dizer
que é tudo normal, ou perguntem apenas "qual é a pressa"? Há cada vez
mais fome e cada vez mais miséria, e a tendência é acentuar-se. Novos pobres e novasformas de pobreza.
Os pobres que precisam de dizer aos filhos para venderem as senhas de
almoço para terem algum dinheiro e os pobres que precisam de comprá-las,
porque por meia-dúzia de cêntimos não têm direito a apoios sociais.
Depois deste estudo, fiquem descansadas as mais de 10.000 crianças que chegam à escola com fome,
porque lhes beneficia a memória. Há aquele detalhe de poderem desmaiar,
mas, pelo menos a história e geografia, terão boas notas. E saberão a
tabuada. Não tarda, estarão a decorar as linhas férreas das ex-colónias. Não
vou ao extremo de dizer que este estudo serve para legitimar opções
políticas. Tem pelo menos uma aplicação prática que poderá ser benéfica para todos. Ficar mais de 20 horas sem comer antes de votar. Vamos ver se ajuda mesmo a memória.
A Unicer é uma das empresas líder em Portugal, exporta para vários
mercados e tem tudo para continuar no bom caminho. No entanto, a entrada
em vigor do novo código laboral, com a simpatia da UGT, colocou os
trabalhadores em situação complicada. 2012 Em Agosto, aquando da entrada em vigor das alterações ao Código do
Trabalho, a empresa preparava-se para adoptar os novos valores de
remuneração do trabalho extraordinário. A Comissão de Trabalhadores
tomou então a iniciativa de pedir à comissão intersindical que agendasse
um plenário para discutir o assunto. Saiu o pedido de reunião urgente à
administração da empresa para esse mesmo dia, onde ficou acordado que a
Unicer pagaria o trabalho extraordinário pelo mesmo preço até ao fim do
ano. Negociação? Nesse compromisso, a empresa garantia também que iniciaria em
Setembro as negociações com os sindicatos com vista à renegociação do
Acordo Colectivo de Trabalho, uma vez que os sindicatos pretendiam
incluir pontos que menorizassem os efeitos das condições para
despedimento com justa causa previstas no código do trabalho. Apesar
disso, e dos vários contactos dos sindicatos, a administração nunca se
mostrou disponível e só em Dezembro deu a conhecer que pretendia abordar
alguns pontos. Assim,
os sindicatos reuniram o plenário no início do ano e os trabalhadores
decidiram aderir ao pré-aviso de greve decretado pela FESAHT. Laboração contínua Desde 3 de Janeiro que os trabalhadores estão em greve, não obstante as constantes pressões das chefias sobre os trabalhadores. Entretanto
a empresa partiu de forma agressiva com a “proposta” para os
trabalhadores em regime de laboração normal aderirem à laboração
continua, ameaçando de que quem não aceitasse seria encostado a um canto. Chantagem e ilegalidade Há duas semanas, em
reunião previamente marcada para negociação da tabela salarial para
2013, a empresa limitou-se a informar os sindicatos que suspendia todas
as negociações enquanto vigorasse a greve ao trabalho extraordinário, questionando
antecipadamente os trabalhadores quem iria fazer greve no fim-de-semana
seguinte, tendo contratado trabalhadores precários a uma empresa de
trabalho temporário para substituir os trabalhadores em greve. Novo plenário Realizou-se, então, um novo plenário, onde se condena a atitude da
empresa em pressionar os trabalhadores para abandonarem a greve sob
ameaça de não haver aumento salarial; a atitude dos responsáveis da
empresa em interpelar antecipadamente os trabalhadores acerca da adesão à
greve; a pressão no sentido de aderirem ao sistema de laboração
contínua sob ameaça de colocação na prateleira. A mesma moção determina
mandatar os sindicatos para que a suspensão da greve se verifique apenas
se a empresa repuser os pagamentos do trabalho extraordinário nos
moldes anteriores e mandata os sindicatos para que, numa situação de
inexistência de atitude diferente por parte da empresa, adoptem medidas
mais duras de luta que poderão passar pela greve às primeiras e ultimas
horas dos turnos. “Alô? É da administração”. Na sexta-feira passada semana, assistiu-se a um episódio
insólito, inédito e ilegal. Altos responsáveis da Unicer telefonaram
para os trabalhadores que nem sequer se encontravam nas instalações da
empresa dizendo-lhes para trabalharem no sábado seguinte. O CEO (estrangeirismo para patrão/administrador) da Unicer é Pires de Lima,
presidente do conselho nacional do CDS. CDS que, aproveito a
oportunidade, tem procurado passar por entre os pingos de chuva neste
Governo desastroso e desastrado que temos à frente do país. Pires de Lima, que anda tão preocupado com as fugas de informação no governo,
devia preocupar-se mais com a empresa que gere. Por exemplo, o que já
significa para a Unicer o custo com ex-SCUT e com as novas que por aí
virão, pela mão do governo do qual o seu partido faz parte.
Parece simples. Dá-se meia volta à chave e o rádio liga-se, numa
espécie de ritual diário que serve para fazer companhia até ao trabalho.
Sim, ainda tenho trabalho. A Antena 3 faz-me companhia até à hora das
notícias. No entanto, desde há uns anos que se tornou penoso fazê-lo e, se o
faço, é só mesmo porque o trabalho assim obriga. Ouço a TSF,
normalmente, e não há dia em que não haja uma relvice, uma declaração
estúpida de um secretário de Estado, de um ministro ou o anúncio de
novos cortes, sejam eles elaborados pelo FMI ou pelo governo. Hoje não foi excepção. E pouco tempo depois de PSD e CDS comprarem o
BANIF, à semelhança do que o PS havia feito com o BPN, o Negócios
apresenta-nos as propostas do FMI para reduzir a despesa em
4.000.000.000 de euros (peço desculpa por algum zero a mais ou a menos).
Estamos
a falar do mesmo FMI que, em Outubro do ano passado, chegou à conclusão
que a austeridade tem um efeito no PIB mais recessivo que o previsto. E, já agora, do mesmo FMI que, habituado a mandos e desmandos, se esqueceu de que - ainda - há por estas bandas uma Constituição.
É com este cuidado que os "especialistas" que têm no actual governo
PSD-CDS, com as abstenções violentas do PS, os cães de fila, gerem o
país. O que é proposto no mais recente estudo do FMI vai no sentido
de continuação da mais violenta agressão de que há memória ao povo
português. Para o FMI, o subsídio de desemprego continua a ser demasiado
longo e elevado, o despedimento de 50.000 professores e pessoal
auxiliar permitiria poupar 710 milhões, é necessário subir (outra vez e
ainda mais) as taxas moderadoras, alterar os sistemas de pensões dos
militares e polícias, aumentar as propinas no ensino superior, aumentar a
idade da reforma, retirar abonos, aumentar o horário de trabalho e
diminuir o valor das horas extraordinárias na função pública, diminuição
do salário mínimo na função pública, diminuir os subsídios de
maternidade e paternidade e acabar com o subsídio de morte. Por partes: O FMI considera que o subsídio de desemprego é
demasiado elevado (máximo de 1.045 euros mensais) e dura demasiado
tempo, pelo que o valor máximo deverá ser reduzido e, após 10 meses sem
trabalho, o desempregado passaria a ganhar o valor do subsídio social
(419,22) euros. O despedimento de 50.000 professores e auxiliares
far-se-ia através da sua colocação no regime de mobilidade e, após dois
anos nesse regime, o recurso ao despedimento. Ainda na educação, mas no ensino superior,
o FMI considera que fica mais barato o estado pagar a privados - e PS e
PSD sabem bem como o ensino privado pode ser de excelência. O FMI vai
mais longe e alarga a fórmula ao ensino básico e secundário. O FMI conclui também que há margem para subir mais as taxas moderadoras na saúde, por exemplo, dos actuais 20 euros cobrados nas urgência para 33,62 euros. Estes são apenas alguns dos pontos revelados hoje, ao longo de 11 longas e dolorosas páginas do Negócios. O ataque às funções essenciais do Estado está agora num novo patamar.
Independentemente de este estudo poder ser apenas para o governo dizer,
mais tarde, que não foi tão longe como o FMI queria, a verdade é que
estão aqui propostas gravíssimas para um povo que já não vive,
sobrevive, num país rasgado pela austeridade cega, pela miséria, pela
fome, empurrados para a indignidade por quem vê o país em folhas de
excel para depois vir recomendar-nos pão e água. O que está a suceder agora nos países do sul da Europa não é novo,
aconteceu no século passado na América Latina, com os resultados
desastrosos que são conhecidos. Um fosso astronómico entre ricos e
pobres, a desigualdade, as oligarquias. Por lá, os povos demoraram a
perceber que têm o poder nas mãos e assistimos a uma viragem à esquerda
em muitos dos países. Por cá, ainda estamos na fase de deixar bater no
fundo. Veremos o que querem os portugueses. É este povo que terá de escolher
o lado da barricada, quer em eleições, quer nas ruas. Não creio que
estejamos em tempo de andar a brincar às oposições ou, sequer, de
empurrar com a barriga a necessidade de eleições. Este governo tem de
sair já. A bem ou a mal.
Artigo 21.º Direito de resistência
Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus
direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer
agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.
Artigo 22.º Responsabilidade das entidades públicas
O Estado e as demais entidades públicas são civilmente responsáveis,
em forma solidária com os titulares dos seus órgãos, funcionários ou
agentes, por acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções
e por causa desse exercício, de que resulte violação dos direitos,
liberdades e garantias ou prejuízo para outrem. Constituição da República Portuguesa
Nesta Europa a andar para trás, os sinais de perseguição a quem divirja da ideologia dominante são cada vez mas alarmantes. A Greve Geral europeia de dia 14 de Novembro teve importantes acontecimentos em todos os países. Desta vez, vamos até Espanha, mais propriamente Vallekas, em Madrid, capital do reino espanhol.
Vallekas mantém ainda hoje as suas tradições antifascistas, num bairro com cerca de 300.000 habitantes. O bairro dos subúrbios madrilenos foi um importante espaço de resistência à ditadura de Franco, o que lhe valeu o apelido de "pequena Rússia". O orgulho de classe continua a ter uma marca profunda e tem o seu expoente nos adeptos do clube do bairro operário, o Rayo Vallecano. Os Bukaneros, claque do Rayo, são um grupo assumidamente antifascista e, na última Greve Geral, pagaram por isso. Como poderão ver nas imagens que ilustram o texto, os Bukaneros utilizam a curva, 'la grada', para enviar mensagens políticas e sociais, pelo que começam a ser incómodos para todos os poderes.
Espanha: estado opressor
Nos últimos tempos a repressão acentuou-se generalizadamente na Europa, particularmente no país vizinho. Das detenções arbitrárias no País Basco, às acusações de apologia ao terrorismo do poeta e rapper Pablo Hasel e do produtor Marc Hijo de Sam, que lhes valeram vários dias na prisão.
Na noite de 13 para 14 de Novembro, Alfonso Fernández, de 21 anos, saiu de casa com a namorada para participar num piquete de greve. Perto de casa foram ambos detidos e levados para uma esquadra sem motivo aparente. Seguiram-se interrogatórios por polícias de cara tapada, ameaças a familiares e, para surpresa do próprio, uma acusação de posse de explosivos, que pode resultar numa ena de prisão entre quatro e oito anos. E mais ameaças e pressão para uma autoconfissão.
Nas diligências efectuadas em casa de Alfon nada foi encontrado. Alfon serviu também de desculpa para uma invasão policial de um dos pontos onde os Bukaneros costumam reunir-se. E, mais uma vez, nada de incriminatório foi encontrado.
Acabar com os Bukaneros?
É convicção generalizada entreos membros dos Bukaneros que Alfon está a servir de bode expiatório para uma possível ilegalização do grupo de adeptos. Estes têm-se destacado na denúncia da corrupção do futebol moderno, contra os horários absurdos dos jogos do campeonato espanhol e os jogos do campeonato às quintas-feiras. Tudo a bem do interesse económico das televisões e das direcções dos clubes e contra o que o futebol deve ser: uma festa de adeptos para os adeptos.
Marcha proibida
Os Bukaneros, a IU, associações sindicais e movimentos sociais organizaram uma série de eventos de solidariedade, que culminariam com uma marcha, no dia 15 de Dezembro, até aos estabelecimento prisional onde está Alfon. A marcha foi considerada ilegal e acabou por não se realizar. Alfon estava proibido de efectuar telefonemas desde a quarta-feira anterior. Curiosamente, no sábado, a sua mãe recebeu um telefonema. Era Alfon. Avisava a sua mãe que, caso a marcha se realizasse, seria enviado para as Canárias... O direito de manifestação está ameaçado também em Espanha.
Alfon continua detido
Alfon está ainda hoje detido, em prisão preventiva. É o único detido em toda a Europa por eventos relacionados com a Greve Geral. Primeiro, devido a pressões de altas instâncias judiciais, o argumento utilizado era a possibilidade de fuga, que foi depois descartada. Agora, continua detido por, supostamente, ser uma ameaça à paz social. Todo o contacto que tem com familiares, amigos e mesmo advogados tem a presença de elementos policiais. O amigos que lhe escreveram para a cadeia estão a ser perseguidos e investigados pela polícia.
Silêncio mediático, UE calada
Parece incrível mas estamos a falar de um estado da União Europeia, que deveria ser o farol das liberdades e garantias dos seus cidadãos. Que não o é já todos sabemos. Só não estávamos habituados a que não o fosse tão descaradamente. Os media mainstream também não dão importância ao caso. Apenas blogs e redes sociais vão impedindo que este caso caia no esquecimento e que um jovem permaneça na cadeia por ter consciência de classe, por ser inconformado, por não se resignar.
Pablo Hasel, também ele ex-detido, fez este poema em homenagem a Alfon, onde consta também o testemunho da mãe do jovem.
Nos últimos tempos temos assistido a uma escalada de
violência miserável. No concelho de Matosinhos, os duelos entre irmãos
intensificam-se e ainda estamos a dez meses das eleições, com o trio
Narciso-Guilherme-Parada a semi-apresentarem-se como candidatos à presidência
da Câmara Municipal.
Narciso está mais ou menos resguardado, vai fazendo a sua
campanha estratégica de só aparecer quando interessa. Já Guilherme Pinto e António Parada
regressam a um registo que foi habitual no PS de Matosinhos e terminou
tragicamente na lota.
Nas últimas três grandes iniciativas do PS de Matosinhos,
seja o PS do actual presidente ou o PS do candidato Parada, o resultado foi
péssimo.
Nas eleições para a concelhia houve de tudo, desde a
vandalização de carros até insultos e outros mimos; seguiu-se a tristemente
célebre reunião de Guifões, que teve o seu auge com a agressão a uma jornalista
e a polícia no local para acalmar os nervos. Mais recentemente, um jantar de
apoio a Guilherme Pinto terminou também com confrontos e a presença da polícia.
A luta pelo poleiro anda quentinha, mas o concelho merece
melhor. Melhor que esta política, melhor que este tipo de política e melhor que
estes protagonistas.
*Publicado, originalmente, na edição de dezembro do Notícias de Matosinhos
Clica na imagempara ver a reportagem - Na imagem, a jovem tem 19 anos e um filho de 16 meses. Todas as noites percorre, com o filho, 16 contentores do lixo à procura de roupas.
Ontem a RTP fez serviço público. Esta reportagem de 40 minutos é o reflexo de um país a que fechamos os olhos. Eu obrigaria todos a verem esta reportagem. Querem fazer cidadania? Vejam esta reportagem. E pensem. Não consigo escrever ou descrever mais sobre o que vi ontem. A reportagem foi também ouvir Isabel Jonet. E cada um que tire as suas conclusões. Eu tirei as minhas e continuam a corroer-me por dentro:
Isabel Jonet: "Eu penso que é mais correcto falar-se em carências alimentares, porque há que relativizar até a situação que se passa nos países mais desenvolvidos e o que se passa nos países subdesenvolvidos, como África. E, portanto, temos que relativizar e falarem carências alimentares". Jornalista: "Mas estas mães que encontrámos nas escolas falam-nos em fome..." Isabel Jonet: "Pois, porque é tudo um olhar relativo sobre a situação que tinham previsto ter. Se for para África, há pessoas que não comem mais do que uma tigela de arroz por dia. De facto, esses têm fome. Há muitas famílias cá em Portugal que não têm uma refeição completa por dia. Há mutitos idosos, nomeadamente idosos, que vivem sozinhos, que não comem uma refeição completa todos os dias". Jornalista: "Mas isso não é fome..." Isabel Jonet:Isso não é fome. Mas são os idosos. No caso das crianças, todas aquelas crianças que podem ir às cantinas escolares ou que são apoiadas... que frequentam ATL, Instituições de Solidariedade Social, ATL, cheches, etc, é-lhes garantida uma refeição na, na , na insituição durante o dia. Muitas chegam a casa e já não jantam. Jornalista: "Mas isso é uma carência alimentar, não é fome..." Isabel Jonet: Não é. Eu acho que é uma carência alimentar.
Que me perdoe Gabo, que nem Soares é Bolívar, nem eu sou Gabo, mas o
labirinto em que Mário Soares se move é digno de um romance. É um
personagem dado a sentimentos extremos, de todos os quadrantes. Amado ou
odiado. Dentro e fora dos vários PS, entre o que levantou Alegre e o
que o apoiou com Sócrates. Soares tem debitado tudo o que lhe vem à
cabeça seja na página cheia de caracteres que tem no DN, seja em
entrevistas que, de vez em quando, vai dando por aí.
Nós temos esta coisa de condescender os mais velhos. Deve ser do
fado. A culpa é do fado. "Abaixo o fado", já dizia Vasco Santana, n'A
Canção de Lisboa. Nós temos, mas eu não gosto, nem condescendo. Soares
tem demasiadas responsabilidades para que possa fazê-lo.
Ontem voltou a dar cartas numa entrevista à TVI24 e o que fica não é
digno de quem foi Presidente da República durante dez anos,
Primeiro-ministro e deputado no Parlamento Europeu, e, mais que isso, de
alguém que terá combatido o fascismo de Salazar.
Dizer que "nem no tempo de Salazar viu tanta fome no país"
é mentiroso. E perigoso. Não perigoso no sentido em que pode incendiar
ainda mais os ânimos - para mim, o ponto de ruptura estará em 2013 -,
mas no sentido de banalizar aquilo que foi o regime de Salazar. Soares
acordou agora de um sono profundo da era Sócrates, em que os amanhãs
cantavam e o país prosperava, mas isso não pode dar-lhe o direito de
dizer tudo.
Não nos equivoquemos: eu tenho tanta simpatia por este governo como
Mário Soares. É, de facto, um governo criminoso, económica e
socialmente, a miséria é real e aprofunda-se diariamente. Hoje mesmo,
com a indemnização por despedimento a baixar para 12 dias por ano de
trabalho. Ou seja, quando se pretende baixar a despesa com as funções
sociais do Estado, empurram-se as pessoas para essa dependência.
Soares não se lembra de não haver gente sem dinheiro para o pão no
tempo de Salazar, como não se lembrará do que significou para o país a
entrada na UE e o fim de tudo o que era produção nacional. Mais grave,
Soares não se lembra de que era Primeiro-ministro nas duas anteriores
intervenções do FMI em Portugal, em 1977 e 1983. Na altura, como hoje, o
que existiu foram redução de salários, subida de impostos, cortes no subsídio de Natal, entre
outras medidas que hoje já não nos parecem estranhas. O que foi a fome
em todo o país e particularmente na península de Setúbal naqueles anos. Soares faz agora o papel de Alegre com Sócrates. A diferença é
que o PS não está no poder e não quer eleições, particularmente num ano
como 2013. Não quer porque tem Seguro e Seguro não é visto como um
líder, e António Costa, ao recandidatar-se a Lisboa, parece estar mais
interessado em ser Presidente da República do que líder do PS para
candidato a Primeiro-ministro; não quer porque é um ano de autárquicas e
as lutas internas pelo poder em cada quintal vêm ao de cima. Então, para que serve o palavreado de Soares se não é escutado dentro do seu próprio partido? Se é certo que temos de olhar em
frente, não podemos esquecer o que está para trás na história recente do
país. E os vários PS, incluindo o de Soares, não estão isentos de
culpas.
Soares está cansado e nós estamos cansados de Soares.
O Tiago já deixou aqui
uma compilação dos artigos dedicados pelos opinadores do Expresso ao
XIX Congresso do PCP. Se as respostas dadas por mim e pelo Francisco
respondem ao Daniel Oliveira e ao Henrique Monteiro, vi hoje um novo
artigo relacionado com o Centro de Trabalho Vitória.
Com o sugestivo título "O PCP veste Prada... e Gucci!",
o miúdo ali em cima, de nome João Lemos Esteves, debita uma série de
lugares-comuns e factos errados que, tendo em conta o facto de escrever
num blog do Expresso, poderá valer-lhe um grande futuro no grupo de
Balsemão.
Por pontos, o escriba dedica-se a especular sobre os comunistas; o que
são, os seus Centros de Trabalho, como vivem e o que vestem. Vamos,
assim, responder ponto por ponto.
Ponto 1 - "As crenças de criança" estão em todo o
artigo. O autor ignora o facto de o PCP, quando adquire um imóvel, não
poder controlar a vizinhança. É mais ou menos como nos blogs. Eu não
controlo, e ainda bem, porque me divertem, os disparates que se escrevem
noutros blogs. O "partido marginal" no panorama político e social é
mais uma "crença de criança" do miúdo.
Ponto 2 - O PCP convive na Avenida da Liberdade com
quem passou a existir ao seu lado. Sem qualquer preconceito que os
preconceituosos anti-comunistas acham que os comunistas têm. Ao "luxuoso
edifício" iremos mais à frente.
Ponto 3 - O miúdo acha que os Centros de Trabalho do
PCP não devem ter televisão, menos ainda Sport TV. Pode parecer-lhe
estranho, mas os Centros de Trabalho do PCP até têm - imagine-se -
computadores com internet! Os Centro de Trabalho que reúnem condições
para tal são espaços onde os militantes e não-militantes convivem. Não,
ao contrário do que pensa o miúdo, a vida dos comunistas não se resume
ao Partido. Até porque o Partido está em tudo o que os seus militantes
fazem. No futebol também. Pode passar pela Catedral da Luze por lá verá artigos de comunistas sobre - espante-se - futebol.
Ponto 4 - O miúdo delira.
Ponto 5 - O miúdo gostava que assim fosse.
Ora, voltando ao CT Vitória, a ignorância do miúdo é algo de tão
atroz que serve para explicar tudo o mereceu ser replicado acima -
pontos houve que só existem na cabeça do autor. Assim, aqui fica para
informação:
O Daniel Oliveira, que era há uns tempos a vanguarda da esquerda
livre e democrática na blogosfera, não percebe como é que o PCP pode
começar um congresso a uma sexta-feira, sendo um dia de semana. Ou
melhor, percebe e conclui:
"Só de uma forma: se uma parte significativa desses delegados
trabalharem para o partido, forem eleitos para cargos políticos com
disponibilidade a tempo inteiro ou forem assalariados de organizações
que lhe são próximas".
Há muita coisa que o Daniel Oliveira não percebe, mas, centrando-me apenas nesta, eu explico:
É possível começar com o exemplo da Festa do Avante!. Como podem os
comunistas construir uma evento político, cultural, artístico daquela
dimensão? Pela lógica do Daniel, seria através de funcionários do
Partido ou de organizações que lhe são próximas. Qualquer pessoa que
conheça a Festa do Avante! sabe que tal seria impossível. Então, como se
faz?
Chama-se militância. É encarado como dever dos comunistas logo que
aceitam o Programa e Estatutos do Partido. Eu utilizo dias de férias
para ajudar a construir a Festa do Avante!, como fazem centenas de
outros camaradas meus. Da mesma forma, muita gente utilizou um ou mais
dias de férias para poderem estar no XIX Congresso.
Parecerá estranho ao Daniel que o tempo de cada um seja utilizado da
forma que pretende, no caso, para participar num acto de cidadania que é
a militância política activa?
Explica-se assim, de forma simples, uma mentira absoluta tida como verdade certa pelo Daniel.
Já agora, como foi possível organizar tantas assembleias e reuniões
para que fossem discutidos o programa, estatutos e teses? Eu explico
também. Por milhares de trabalhadores, estudantes, reformados que
consideram importante estar na discussão do que queremos que seja o
Partido.
Não era preciso ser muito inteligente para perceber isto. Mas estamos a falar do Daniel Oliveira.
Miguel Relvas não é doutor, mas não é por isso que deixa de ser esperto. A polémica das imagens da manifestação foi um pretexto óptimo para dar um passo no caminho pretendido por este governo para a RTP.
A saída de Nuno Santos - independentemente de qualquer balanço que façamos sobre a sua passagem pelo cargo de director de informação - da forma que ocorreu, pretende lançar o descrédito sobre a RTP e os seus trabalhadores e, de uma forma mais ou menos obscura, provar que como está a RTP não serve. No dia em que, supostamente, alguém exterior à RTP viu as imagens, nem Nuno Santos nem Vítor Gonçalves estavam, sequer, em Portugal.
A história tem dedo de Relvas. Luís Marinho prepara-se para assumir o cargo de Nuno Santos e o Governo fica assim com um homem de mão à frente da informação. Para breve, virá uma "reorganização" das direcções editoriais. Luís Marinho tem currículo que agradará a Relvas. Recordemos Raquel Freire:
No Porto, centenas de pessoas, sindicalizadas, não sindicalizadas, empregadas, desempregadas, deslocaram-se à Casa Sindical da União de Sindicatos do Porto com o propósito de participarnos piquetes.
Foi o maior piquete de que tenho memória. Ok, não sou assim tão antigo, mas isto é um facto. No Porto, apesar de haver quem ache que se diz sempre que "esta greve foi maior que a anterior", o facto é que, a sensibilidade de quem lá esteve é que foi, de facto uma grande greve, que decorreu praticamente sem incidentes. O piquete montado pelos trabalhadores dos STCP em Francos era significativo, algumas dezenas de trabalhadores à porta da empresa, ainda antes da meia-noite. Os que chegaram mais tarde engrossaram as fileiras e ali estivemos tranquilamente. Ninguém chegou para trabalhar até perto das 4 da manhã. Os que chegavam, acabavam por juntar-se ao piquete. Na recolha da Via Norte, o mesmo filme. Na estação de S. Bento, às 9 da manhã nem um comboio partira. Apesar da figura sinistra que é presença assídua na provocação aos piquetes de greve.
Mesmo com uma noite gelada, a adesão aos piquetes era massiva. Pelo meio, alguns episódios a assinalar. As misteriosas carrinhas de entrega de jornais e o desejo gorado dos Precários Inflexíveis
Quem conhece a Lei da Greve sabe que, em dias de greve, é aos piquetes das empresas ou designados pelos Sindicatos ou Centrais Sindicais que compete garantir a segurança das instalações. Por esse motivo, os piquetes dividem-se dentro e fora das instalações das empresas. Pelas duas da manhã, em Francos, surge uma carrinha branca, que, como é normal, éabordada pelo piquete. Não se sabia se era algum trabalhador e era pretendido falar com ele, cumprindo outro papel legal do piquete: procurar dissuadir o trabalhador. A carrinha, ao aproximar-se, abrandou e depois acelerou em direcção ao piquete, o que fez aquecer os ânimos. A PSP, com uma presença normal para a ocasião acorreu ao local e - creio - acabou por identificar o condutor. Episódio sanado e tudo normal. A carrinha continuava junto ao portão. Vinte minutos depois, surge outra carrinha e a história repetiu-se. Para a saída das carrinhas, foi o piquete a formar um cordão para que as duas carrinhas pudessem sair em segurança. Para surpresa de todos, as duas pararam 50 metros à frente. Outra vez ânimos exaltados, mas nada de muito grave. A noite continuou muito fria. Pelas sete da manhã, surgia também alguma tensão junto à estação de recolha da Via Norte, quando alguns autocarros se perfilavam para sair. No entanto, o piquete voltou a funcionar. O "piquete" dos PI chegou por volta dessa hora e apressou-se a tuitar que tinha havido uma carga policial com recurso ao Corpo de Intervenção. Nada mais falso. Nem houve carga policial nem lá estava o CI. Foi, assim, uma noite tranquila, com trabalhadores unidos num propósito e uma mobilização de que, como recordei, não tenho memória.
QUESTÕES MARGINAIS
A meio da noite, surgiu a notícia de detenções em Matosinhos, após terem sido vandalizadas cinco dependências bancárias. Dois estudantes, de 18 e 19 anos, recorreram ao que foi lançado por um conhecido site de reprodução de notícias, o Tugaleaks, através de vários apelos de pelo menos um dos seus membros, via twitter e facebook, para o recurso à "acção directa". Mesmo sem terem a mínima noção do que é, de facto, acção directa.
A violência junto à AR era mais do que prevista, por vários motivos. A desvalorização constante das greves e das manifestações, por maiores que sejam, por parte dos vários governos e dos seus agentes que surgem nas colunas de opinião da Comunicação Social é um deles. Consciente ou inconscientemente, o que estão a fazer é a empurrar cada vez mais gente para o protesto violento. Depois há os que acabam os editoriais demasiado cedo e acabam por passar mentiras para a opinião pública. Mas certamente que o Paulo Ferreira, na edição de amanhã do JN, fará um desmentido do que disse hoje.
Mesmo que o apedrejamento da polícia tenha sido obra de meia-dúzia de burguesinhos indignados com tudo e mais alguma coisa, até com a CGTP, a verdade é que o desespero acentua-se de dia para dia e pode ter consequências bem mais graves do que o sucedido na AR. A carga policial só não era esperada por quem não tem noção da realidade. Quem lá ficou devia saber o que aí vinha.
O desespero acentua-se. E quem pouco ou nada tem a perder, protestará cada vez mais e de forma mais contundente. A ver vamos como será no dia 27. A ver vamos como será depois de os trabalhadores terem uma noção real do que lhes é roubado, quando receberem o recibo de vencimento de Janeiro. A ver vamos quando perceberem os cortes no subsídio do desemprego. A ver vamos quando tiverem consciência do roubo a que estamos a ser sujeitos.
Importa realçar que a manifestação da CGTP já tinha acabado há muito tempo, mas que milhares de pessoas continuaram em frente à AR, o que também é de registar e analisar aprofundadamente dentro da Central Sindical.
Artigo 21.º da Constituição da República Portuguesa:
Artigo 21.º Direito de resistência
Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus
direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer
agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.
A Greve Geral está prestes a começar. Deixemos de lado os Proenças deste mundo e as suas previsões/desejos do inêxito da Greve Geral. Deixemos de lado o medo que alguns querem incutir.
Amanhã, por toda a Europa, os trabalhadores exercerão os seus direitos de greve e manifestação.
Mesmo que isso custe a gente desta, a quem a democracia é estranha, e que acusa os trabalhadores dos portos de estarem a aprofundar a crise e, no entanto, compram meia página no Público. (clica para ampliar)
No dia 1 de Outubro, quandoestava anunciada a mais que necessária Greve Geral da CGTP, o secretário geral da UGT, João Proença, foi bastante claro nas suas afirmações, que podem ser conferidas no vídeo abaixo."Marcar greve geral está fora de questão e sobretudo aderir a uma greve da CGTPou ir para a rua dizer não à troika quando nós precisamos da Troika".
Proença falava então no plural, vinculando assim a direcção da UGT a uma decisão que, pela forma como foi explicada pelo próprio, parecia colectiva, com um grande consenso dentro da organização. Um mês e um dia depois, Proença vinha já afirmar que, afinal, vai aderir à Greve Geral, porque o seu sindicato, FESAP, decidiu aderir à greve geral. Talvez a FESAP se tenha sentido pressionada pela grandiosa manifestação da UGT no dia 26 de Outubro, que mobilizou milharescentenas dezenas de trabalhadores.
Por fim, cabe então perguntar quem manda na UGT? O órgão executivo da UGT consiste apenas no João Proença? Felizmente, a ligação da UGT ao PS faz dela uma central democrática, de outra forma, teríamos o caldo entornado. A greve geral é dos trabalhares e do povo, foi deles que partiu a exigência. Mas Proença não o sabe, porque deve andar entretido a coleccionar os elogios de Passos Coelho, Nuno Magalhães e do patrão dos patrões. Dia 16, lá estaremos. Trabalhadores ao lado de trabalhadores. E tu, Proença?
A tremenda habilidade de Vítor Gaspar para tratar das finanças do país é semelhante à sua capacidade de gerar momentos embaraçosos para esta espécie de comissão liquidatária que está à frente dos destinos do rectângulo.
Gaspar não tem aspecto de quem faça as suas corridinhas. Não faz mal, há não muito tempo tivemos por cá quem se passeasse em corridas matinais com as câmaras de tv atrás e esse também não deixa saudades. Aqui, estou com o Gaspar: também não gosto de correr. Faço-o quase diariamente porque sei que faz bem e com dois objectivos, que são a saúde física e mental.
Gaspar calçou as sapatilhas e fez-se ao caminho das metáforas com a maratona, ainda por cima com a fase final. Não sei o que será para ele a fase final. Sei que pode ser agonizante. Há entre os maratonistas aquilo que é chamado de "o muro", ocorre cerca dos 30km da prova e é a fase mais difícil dos 42,8km. As falhas musculares afectam também a mente dos atletas e muitos acabam por desistir.
Há portugueses que já desistiram da maratona. Deixaram o país e a prova de afundo. Muitos outros continuam por cá, nesta maratona miserável a que estão a condenar-nos. Gaspar acha que o pior já passou.
Gaspar é sebo. Sebo, sim. O Sebo que Francisco Lázaro usou em 1912 e o levou à morte nos Jogos Olímpicos desse ano. O maratonista cobriu o corpo com sebo para o impedir de suar. Neste momento, somos todos Francisco Lázaro.
O governo de Gaspar e companhia cobre-nos com sebo que nos asfixia todos os poros e acabará por levar-nos à morte. Assim nós o deixemos e não nos hidratemos de todas as formas possíveis. Francisco Lázaro não teria morrido se tivesse tomado um banho. Um banho simples, que os colegas da comitiva portuguesa daquela edição olímpica não conseguiram convencê-lo.
PORTO -
TRIBUNA PÚBLICA – CONTRA A EXTINÇÃO DE FREGUESIAS
27 de
Outubro – 15H30 – Praça dos Poveiros
A Plataforma Nacional
Contra a Extinção de Freguesia agendou para o próximo dia 27 de Outubro,
Sábado, uma jornada nacional de luta contra a extinção de freguesias. Por todo
o país, em vários distritos e concelhos, vão decorrer acções em defesa do poder
local e contra a proposta de reorganização administrativa que o governo quer
impor, e que apenas visa liquidar freguesias. Nenhum autarca foi eleito propondo
a extinção da sua freguesia, e por isso não podemos aceitar ser os “coveiros”
das nossas freguesias.
É com este sentimento que a
grande maioria das Assembleias Municipais e das Freguesias não têm apresentado
qualquer proposta de reorganização administrativa na sua respectiva área de
actuação. É com este mesmo sentimento que a luta contra a extinção das
freguesias vai continuar.
No distrito do Porto,
a Plataforma Nacional Contra a Extinção de Freguesias e o STAL
vão promover uma TRIBUNA PÚBLICA, no próximo dia 27 de Outubro,
pelas 15h30, na Praça dos Poveiros, com os seguintes objectivos:
Em defesa do Poder Local Democrático
Contra a Extinção de Freguesias
Pela manutenção dos serviços públicos de
proximidade
Pela defesa dos trabalhadores da
administração local
A luta tem de continuar! Pela defesa das nossas
freguesias! As freguesias são do povo!
Conta-se aqui que quando uma minhoca olha para um prato de esparguete pensa: "olha, uma orgia"! O que sucedeu nos últimos dias foi mais ou menos uma orgia. CDS e PSD mais ou menos enrolados e o PS naquela situação confortável de "agarrem-se se não eu mato-os". Pelo meio, manifestações gigantescas, umas inorgânicas, outras convocadas pela CGTP. A segunda, levou a observações ao minuto e acompanhamento de tuiteiros de sofá que afirmavam que, segundo as imagens aéreas, a CGTP não tinha conseguido encher o Terreiro do Paço. Depois calaram-se, porque a realidade superou a ficção. Entretanto, após a polémica da TSU, que o PS cavalgou para reclamar a vitória no recuo do governo - desvalorizando as acções de massas -; o PS voltou a ser igual a si próprio: o partido da rosa. De esquerda, só tem a mãozinha com que aparece nos boletins de voto. Impressionante mesmo é a forma como, em duas semanas, a moção de censura que o PS colocou em cima da mesa deixou de fazer sentido, quando foram apresentadas outras duas, uma delas pelo PCP. Segundo o líder parlamentar Carlos Zorrinho, "as moções de censura só fazem sentido quando são para derrubar um governo". Portanto, Zorrinho acreditava mesmo que o CDS seria um partido com princípios e abdicaria dos lugares de governo. É enternecedor, mas também é de um a credulidade chocante vinda de alguém há tantos anos na vida política.
Para o PS, o roubo de um salário só seria mau se fosse conseguido através da TSU. Uma moção de censura contra o roubo de mais de um salário através do IRS, do IMI, ficará para "análise depois de aprovado o Orçamento de Estado de 2013", segundo a eurodeputada Edite Estrela. Sintomático do limbo em que se encontra o PS foi a sua abstenção (violenta?) nas moções. Mais; o PS doeu-se mais pela apresentação das moções do que o próprio governo. Apesar disso, nas intervenções durante a manhã de hoje, a bancada do PS teceu duras críticas ao governo. Mas depois absteve-se. Refira-se que no texto da moção do PCP, apenas há duas referências ao PS, que passo a transcrever:
"O Governo
PSD/CDS intensificou - a partir da aplicação do pacto de agressão que constitui
o memorando assinado por PS, PSD e CDS com a troica estrangeira - uma violenta
ofensiva contra os trabalhadores, o povo e o País, que se prepara para acentuar
na proposta de Orçamento do Estado para 2013." (...)
"Os
36 anos de política de direita, aplicada por sucessivos Governos, mesmo depois
de prometerem mudanças que nunca fizeram, levaram o País à situação em que se
encontra. A aplicação do pacto de agressão - subscrito por PS, PSD e CDS com a
troica, com o apoio cúmplice do Presidente da República – é o cerne da política
do Governo. A rejeição do pacto de agressão, a derrota do Governo PSD/CDS são
indispensáveis para abrir caminho a uma verdadeira mudança de política, que não
se basta com a eliminação pontual de medidas ou com a alteração da forma como
são apresentadas ou aplicadas."
Não sei se o PS pretenderia colocar-se à margem do memorando. Mas foi assinado pelo partido, pelo que qualquer referência ao mesmo obrigaria à inscrição da sua sigla. Antes não fosse assim.
Surgiu pelo meio da confusão a reclamada e mais que justa greve geral da CGTP, à qual Proença e a sua central, UGT, disseram desde logo que não. O desemprego não lhe afecta a barriga, os baixos salários também não. O facto de os trabalhadores terem os seus rendimentos ao nível de 1999 não lhe faz confusão.
Já não espanta a mim, que vou a caminho das três décadas, deve espantar ainda menos os mais velhos e os mais atentos. Pode ser que volte a perder tempo com esta organização criminosa mais lá para a frente. Criminosa, sim, para com aqueles que tem o dever de defender.
Ficamos pois, com duas tarefas árduas, às quais já estamos habituados: combater a pressão dos patrões e a desinformação da UGT para que seja uma grande greve geral.
Uma palavra ainda para o CDS, que tenta a todo o custo passar por entre os pingos da chuva mas acabou com Paulo Portas encharcado, depois da intervenção de Honório Novo.
Nós estamos a fazer história. E voltaremos a fazê-la no dia 14 de Novembro.
E só há dois lados nesta barricada. "Se o governo não ouvir os trabalhadores a bem, irá ouvir os trabalhadores a mal".
O nosso pai era um sindicalista, Um dia serei também.
O patrão demitiu o meu pai, O que vai a nossa família vai fazer?
Venham todos os trabalhadores, temos uma boa notícia Vou dizer-vos como o Sindicato
está aqui de pedra e cal.
Refrão:
De que lado estás?
De que lado estás?
O meu pai era mineiro e eu filho de mineiro sou
E estarei com o sindicato até que todas as batalhas terminem.
Dizem que em Marlan não háneutralidade, preferes ser um sindicalista, ou um cão de fila para J.H Blair?
Trabalhadores, conseguem suportar isto?
Diz-me se serás um rato,
ou serás um homem?
Não creiam nos patrões, Não ouçam as suas mentiras
Nascia na Rua Óscar da Silva, a 1 de Setembro de 1951. Luís Fernando Pereira dos Santos era então o terceiro filho de uma família que viria a conhecer mais sete. De Leça, pois claro. Foi reformado a 1 de Setembro de 2012, com 700 euros, ao fim de 40 anos de descontos e 51 de trabalho.
Filho de Fernando Pereira dos Santos e Maria Celeste, sim, sem apelidos. Fernando Pereira dos Santos era comerciante, alegadamente abastado. Teve um dos primeiros automóveis a surgir nas vielas de Leça. Poderia ter sido de facto abastado, não fosse gastar tudo em casas de má fama.
Vivia-se mal para além das aparências, como qualquer família viveria mal com 12 pessoas numa casa na década de 50. Luís Fernando frequentou a Escola da Amorosa, como os restantes nove irmãos.
Luís teve como professor da primeira classe João Teixeira Pimenta, um dos homens marcantes na história de Leça da Palmeira, que ajudou a fundar o Rancho Típico da Amorosa.Tinha também um professor de ginástica, Hernâni, conhecido por "Pica Orelhas". O cognome surgiu, está fácil de ver, porque era adepto das orelhas dos alunos.
Certo dia, na quarta classe, o professor Hernâni, durante uma aula de ginástica, deu um murro na barriga de Luís que o fez vomitar tudo. O exercício consistia em manter a barriga para dentro e Luís, na altura uma radiografia, conseguiu mantê-la para fora. Foi o fim das aulas de ginástica. Fernando Pereira dos Santos foi à escola saber por que motivo o professor havia batido no filho. Foi decidido que, como não fazia do que mandava o professor Hernâni, deixaria de frequentar a disciplina.
Luís tinha como companheiro de carteira Rui, que se manteve até à quarta classe, e, do professor Pimenta, levou apenas dois "bolos", reguadas, por estar a jogar aos cabazinhos (caricas) em cima da carteira.
Como era filho de comerciante, logo de gente com posses,não tinha direito ao lanche da escola. Ficava por isso a olhar, enquanto os meninos comprovadamente carenciados e atestados pela aparência comiam o pão com queijo amarelo.
Luís sempre foi apreciador de mulheres bonitas, não tivesse ele, anos mais tarde, vindo a casar com Elisa Magnífica Meireles - lá chegaremos. Vinha da catequese e estava a construir-se a Avenida Dr. Fernando Aroso. Nas valas, alguns escondidos entre os tubos. O esquema estava montado. Luís, Júlio, Zé Carlos e outros revezavam-se e desafiavam as raparigas a fazerem como eles: atravessarem a vala, com as pernas abertas, uma perna para cada lado. Elas estavam de saias, eles não. Eles viam o que queriam e elas ainda hoje não sabem o que lhe foi visto.
Incrivelmente para quem conhece hoje Luís Fernando, Fernando Santos achava que o filho tinha vocação para padre, fruto da influência do tio João, jesuíta e que ainda hoje espalha a fé pelas igrejas. Chegou mesmo a estar matriculado no seminário onde estava o tio, mas o padre Alcino intercedeu após uma conversa com Luís Fernando:
- Não queres ser sacerdote?
- Não. Nem gosto da escola.
Não foi. Saiu da escola aos dez anos e entrou para o negócio da família. Foi trabalhar para a oficina de Fernando Santos, que tinha marca própria de bicicletas e tudo: FERSAN.
Maria Celeste era a mulher da casa. Aturava os 10 filhos e o homem com quem havia casado, que estava longe de ser um marido.
Era, no entanto, uma casa de gente de bem: benfiquistas por obrigação. Fernando Pereira dos Santos não facilitava em determinadas coisas.
Sou oficialmente filho de dois reformados. Reformas negras de vidas douradas, ao invés das tão famosas reformas douradas conseguidas por meios mais ou menos obscuros. A Mãe A minha Mãe foi reformada em Novembro de 2011, com 539 euros ao fim de 44 anos de descontos e a trabalhar desde os 13. Comemorou 60 anos. Elisa Magnífica Meireles - um nome digno de um romance de 'Gabo' - nasceu a 19 de Julho de 1952, na aldeia de Linhares de Ansiães, concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança. Filha de Ana Natália Meireles e da pessoa que mais filhos tinha no tempo da ditadura fascista de Salazar: o incógnito.
Mesmo toda a gente sabendo o nome do pai incógnito, Ana Natália Meireles pegou na filha e mudou-se para o Porto, passados dois anos, quando o incógnito foi para o Brasil. E ser mãe solteira em 1952 e ainda mais no interior não haveria de ser fácil. Chegadas ao Porto, com a Invicta a receber aquela que viria a ser um exemplo de força, de vida e de coragem.
Elisa chegava assim ao Porto com dois anos. Ficaram as duas em casa da Tia Adelaide, na Rua do Breiner. Ana Natália "foi servir". Era criada interna em casa de senhores abastados e visitava a filha quando podia. Assim foi até aos cinco - quase seis - anos de Elisa.
Por essa altura, casou com um pescador de Leça da Palmeira, ainda que nascido na Póvoa de Varzim. Mudou-se para junto ao mar e deixou de servir, que o meu avô - não o incógnito - não permitia que mulher que a vida fez dele trabalhasse. Ou cortasse o cabelo. Ou que tirasse o avental. Ainda a década de 60 não tinha acabado. Já em Leça da Palmeira, Elisa tinha agora um pai. Rude como só as marés sabem ser e alcoólico como só o mar é capaz de fazer com que alguém seja.
José Luís Capelão tinha já quatro filhos, mas só um vivia com ele. Elisa ganhara irmãos. Os outros viriam mais tarde, ao longo dos anos, quando deixaram a Obra do Padre Grilo ou quando a mãe adoptiva os fez retornar à procedência.
Viviam na Rua do Cidral, em Leça, numa casa minúscula como a rua que a albergava. Capelão era particularmente implicativo quando o vinho falava por ele, mas raramente era mau para Elisa. Falava antes com Ana Natália, que se encarregava de aplicar o castigo necessário. Capelão guardava as angústias das marés para os fins-de-semana. Pegava num bocado de borrachava e descarregava nos filhos a frustração de não viver do mar. E no mar. Já à mulher, batia-lhe à chapada.
Elisa era boa aluna. Um dia, disse-lhe a professora da terceira classe e directora da escola do Corpo Santo, D. Alzira: "Quando tu cresceres, vais para minha criada". Era este o prémio que as pessoas do Povo recebiam por serem bons alunos. Ser criada da professora.
Nos passeios da escola, Elisa não tinha dinheiro para pagar as viagens. Era uma colega que as pagava, vinda de uma família que se destacara na indústria das conservas. Também na catequese - obrigatória para assimilar a fé - Elisa era aplicada e viria mesmo, anos mais tarde, a ensinar a palavra do Senhor.
A partir da quarta classe, era necessário um exame para quem quisesse continuar a estudar. Por ser boa aluna, a catequista, Menina Judite, oferecera-se para pagar-lhe os estudos, falando para isso com Ana Natália. Também a professora da quarta classe, a professora Matilde Brás Lago, se ofereceu para dar explicações gratuitas para o exame de admissão.
Feito o exame de admissão no Liceu D. Manuel, Elisa passou com distinção, ficando isenta de propinas. Estavam passados os primeiros 10 anos com muito mais que merecia aqui estar, mas que não está, que há coisas que só se devem ser saboreadas no papel.