segunda-feira, fevereiro 04, 2013

PS - Agência de emprego

Na semana passada, o PS de Matosinhos voltou a ser notícia na comunicação social. Muito por culpa do candidato do PS à autarquia matosinhense, que diz que parece que disse uma coisa, mas não disse, mas afinal disse mesmo, como se vê no vídeo abaixo, disponibilizado pelo blog Aventar.





Mas não é apenas este facto que tem alimentado algumas colunas de jornais. O afastamento de Guilherme Pinto também surge em algumas páginas e o facto é simples: o PS funciona como uma agência de emprego onde políticos profissionais encontram espaços para ganhar a vida. Por isso, José Luís Carneiro, líder da Distrital do PS do Porto, reuniu-se com Guilherme Pinto para convidá-lo a integrar as listas do PS à Assembleia da República ou ao Parlamento Europeu. Assim, à escolha do freguês. Guilherme Pinto não está, para já, inclinado a aceitar o convite, tendo António Parada já manifestado o seu apoio a uma possível migração do actual presidente da CM Matosinhos. Não é difícil perceber: António Parada é - ainda - candidato do PS à CM Matosinhos, com Guilherme Pinto fora do caminho, apenas tem de se preocupar com Narciso Miranda, que adiou para Abril uma posição sobre as autárquicas.

Muita gente desconhecia até então António Parada. Mas isso é apenas falta de memória. Parada ficou conhecido depois dos acontecimentos da lota nas eleições Europeias de 2004, que opôs duas facções do PS de Matosinhos, que se confrontaram na lota. Nessas eleições, António Costa era segundo na lista do PS e Manuel Seabra ascendeu a presidente da Câmara, sucedendo a Narciso Miranda, que deixou a autarquia e rumou a uma secretaria de Estado. Avizinhavam-se as autárquicas e o regressado Narciso Miranda disputava a candidatura à CM Matosinhos, pelo PS, com Manuel Seabra, que recusou abandonar o cargo após o regresso de Narciso.

Ora, Narciso regressou pouco tempo depois mas já foi tarde. Francisco Assis havia já lançado Manuel Seabra, avisando mesmo sobre o que viria a suceder passados alguns anos: "A concelhia tem um excelente presidente. Mas não é só Matosinhos que tem os olhos postos em ti, é grande parte do PS nacional".

Em 2008, quando o processo interno do PS aos acontecimentos da lota estava já no esquecimento, o então ex-presidente da CM Matosinhos rumou a Lisboa, para ser chefe de gabinete de António Costa. Sim, o mesmo António Costa que era segundos nas lista do PS às Europeias de 2004.

Em 2009, cumpriu-se uma vontade antiga de Assis e Seabra foi candidato à Assembleia da República. Antiga de 2004: "A inclusão de Seabra na lista será uma forma de reabilitação política do vereador, depois das conclusões do inquérito aos incidentes na lota de Matosinhos, que lhe vedaram a candidatura àquela autarquia. A hipótese já terá sido abordada num contacto com Assis".

Ainda em 2004, o PS abriu então um inquérito interno aos acontecimentos da lota, a cargo de Almeida Santos, Vera Jardim e Jorge Lacão. Daí concluiu-se, em forma de proposta, que nem Manuel Seabra nem Narciso Miranda poderiam ser candidatos à autarquia, o que veio a verificar-se:

"2. Delibere, desde já, em face das conclusões do presente inquérito e ainda que com reconhecimento do diverso grau de responsabilidade e culpa nele evidenciados, que nem Narciso Miranda nem Manuel Seabra estão em condições de poderem integrar as listas de candidatura do PS aos órgãos do Município de Matosinhos, nas próximas eleições autárquicas.

A comissão de inquérito interna não tem poder deliberativo, mas sim propositivo, ficando as possíveis sanções a cargo dos órgãos jurisdicionais do PS, que acabaram por apreciar apenas a suspensão de um funcionário do PS, no caso, Domingos Ferreira. De resto, para além do bom senso que prevaleceu ao impedir as candidaturas de Narciso e Seabra, não houve mais consequências.

E assim surge Guilherme Pinto, delfim de Narciso Miranda, cuja ambição era maior do que pensava o seu mentor. Narciso acreditou que Guilherme Pinto cumpriria apenas um mandato e sairia de cena. Mas não foi assim. Guilherme Pinto quis manter-se como candidato, em 2009, e Narciso avançou como independente.

Voltando a António Parada, são várias as referências que merece no inquérito interno, de que se extraem alguns excertos:


8. Logo nos primeiros momentos da chegada à lota, pouco depois das 8.30 h. (XXI, 97; XXX, 134), teve lugar um primeiro impacto com o candidato, com destaque para o comportamento de um dos principais responsáveis da recepção, o coordenador da secção do PS de Matosinhos, António Parada, o qual, em atitude de envolvimento impetuoso, de imediato pretendeu afastar o Professor Sousa Franco de Narciso Miranda, dado que aquele se encontrava agarrado a este para melhor poder ser conduzido.



"Vários desses depoimentos avultam ainda no sentido de considerar que essa manifestação de hostilidade foi especialmente encorajada ou até orquestrada pelo principal agente coordenador da acção da visita à lota, o Presidente da secção de Matosinhos do PS, António Parada, que aliás trabalha para uma empresa de segurança que presta serviços à lota de Matosinhos."

"(...) os ânimos voltaram a recrudescer com os gritos de "Seabra, Seabra" e, menos, de "Narciso, Narciso", mais uma vez, com um grupo de mulheres, que vários e impressivos testemunhos dizem ter visto ser orientadas por António Parada, em atitude expressivamente hostil e injuriosa para Narciso Miranda." 

"
Do conteúdo revelador das declarações então prestadas vale a pena reter, da parte de António Parada, da secção de Matosinhos, em relação a Narciso Miranda: "Há mais de 20 anos que andei a fazer esse trabalho para o Narciso Miranda. As mobilizações aconteceram graças a mim, mas agora ele nada está a fazer, pelo menos em articulação com a concelhia de Matosinhos do partido" 


"4.3.- Que as movimentações de António Parada, coordenador da secção de Matosinhos, muito auxiliado por outros militantes (...) particularmente junto do grupo de vendedeiras externas (aquelas que mantêm um conflito arrastado com a Câmara Municipal e o Presidente Narciso Miranda); e, com especial destaque, para o já descrito comportamento impetuoso:"

"Ao abrigo do Artigo 100.º, n.º1 dos Estatutos, proceda à suspensão preventiva, com efeitos imediatos, de António Parada, da sua condição de militante do PS e, consequentemente, de Secretário Coordenador da Secção do PS de Matosinhos. Com base nas responsabilidades que lhe são imputadas, submeta de imediato a deliberação da suspensão do militante António Parada à ratificação da Comissão Nacional de Jurisdição bem como para efeitos de abertura do competente processo disciplinar com vista à determinação da sanção definitiva susceptível de aplicação, incluindo a possibilidade da sua exclusão do PS."

O tempo passou e, desde então, muita coisa mudou:
  • Narciso Miranda foi expulso do PS após a candidatura "independente" à CM Matosinhos;
  • Guilherme Pinto é presidente da CM Matosinhos e, não sendo o candidato oficial do PS, se não avançar como "independente", tem à espera a cadeira que preferir, seja no Parlamento Europeu ou na Assembleia da República;
  • António Parada é o presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos desde 2005 e candidato do PS à CM Matosinhos;
  • Francisco Assis é deputado e foi líder parlamentar do PS na era Sócrates ;
  • Manuel Seabra foi chefe de gabinete de António Costa na CM Lisboa e é actualmente deputado na AR.
Com o previsível avanço de António Costa para a liderança do PS, mais cedo ou mais tarde, caso este ocorra antes das Autárquicas de Outubro, é previsível que as lutas internas se reacendam em vários concelhos do país, com especial relevo para Matosinhos.

Com estas novelas, lutas de poleiros e sede de poder dentro do PS, o concelho Matosinhos perdeu peso político, estrutural, perdeu identidade, submeteu-se a interesses particulares e o progresso ficou esquecido. O concelho merece mais e melhor.

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Novo vídeo - António Parada e a escolaridade obrigatória

Depois do que foi dito e escrito em vários blogues e, hoje, nas páginas do Correio da Manhã, cai por terra a teoria dos acólitos de António Parada - relembro, candidato do PS oficial à Câmara Municipal de Matosinhos e actual presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos - que dizia que foi tudo descontextualizado.

Surge agora um novo vídeo, de 13 de Maio de 2012, em S. Mamede de Infesta, onde, a partir dos 17 minutos, toda a sua opinião sobre a escolaridade obrigatória é novamente clarificada. Para quem tivesse dúvidas.

Relembremos: António Parada defende que há "doutores a mais" mas foi tirar uma licenciatura aos 45 anos, que concluiu em 2012. Confesso que me faltam palavras para descrever o ridículo da situação. Não se percebe para que foi fazê-lo, quando há falta de moços de trolha e  carpinteiros, e, segundo diz, médicos a mais.

E não esqueçamos: namorar, só a partir dos 18.

Fica o vídeo, antes que seja retirado do ar.




Actualização da tarde

Conforme previsto, o vídeo desapareceu. O facto de ter escrito ali em cima "Fica o vídeo, antes que seja retirado do ar", não foi por acaso. O motivo que me levou a fazê-lo foi conhecer o proprietário da conta, que é apoiante de António Parada de uma das freguesias de Matosinhos.

Resta saber o seguinte: o Carlos Alberto tem vergonha do que defende o seu candidato ou não quer que se saiba o que ele defende?


II Actualização da tarde

Por coincidência, o vídeo voltou a estar disponível depois de, no Facebook, ter questionado o autor do mesmo sobre o facto de ele ter desaparecido.

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Parada, o último doutor


Que o PS de Matosinhos está longe de ser flor que se cheire, todos sabemos. Que a decadência do concelho, a todos os níveis, é constante, também sabemos. Não vale a pena recordar as guerras internas: Manuel Seabra, Narciso Miranda, Guilherme Pinto, António Parada, Nuno Oliveira.

Desta vez, António Parada, um dos cabeças de lista de um dos PS de Matosinhos, tornou-se fenómeno de popularidade no Facebook, à semelhança do que já sucedera com Guilherme Aguiar - do PSD, que será candidato à CM de Gaia - mas por outros motivos. Guilherme Aguiar estava a jogar solitário durante uma Assembleia Municipal onde se discutia a extinção de freguesias.



Parada - actual presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos - estava num evento repleto de acéfalos e recebeu muitos aplausos por defender o "fim da escolaridade obrigatória". Mais: o candidato do acha que "os jovens devem ser apoiados pelo Estado, apoiar aqueles que têm aproveitamento. Aqueles que não têm, aos 14 anos é mandá-los trabalhar".

Esta postura medieval do candidato do PS (oficial) é ainda mais incompreensível quando o próprio concluiu a licenciatura... no ano passado. António Parada é agora doutor António Parada, licenciado em Relações Internacionais e Ciência Política pela Universidade Fernando Pessoa.


Não sei se Parada teme a concorrência laboral - tanto como a partidária -, numa altura em que o desemprego atinge níveis vergonhosos em Matosinhos, onde o PS reina desde sempre na nossa história democrática. Parada não quer mais doutores, a menos que seja o próprio.

Parece-me, é que está definida a linha política que este candidato assumirá no que respeita à educação.

Uma coisa é certa, António Parada é bastante eclético nas fotos que apresenta no seu site, e dá-se bem com uns... 


... e com outros.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Fome - estudo de época



Todos os anos, sazonalmente, surgem estudos de época que visam apenas legitimar ou, pelo menos, tirar o peso da consciência de determinados actos. Por exemplo, no Verão, surgem estudos que dizem que uma cerveja por dia faz bem à saúde e que nem sequer engorda. Lá mais para a Páscoa deverá sair outro a dizer que os doces beneficiam os dentes bonitos. Ninguém sabe quem encomenda estes estudos. Mas a impensa noticia-os como verdades.

Hoje, surgiu um novo estudo de época, bem mais grave do que todos os que visam acentuar o consumo deste ou daquele produto numa determinada época. Parece que a fome melhora a memória. Fome, que é uma coisa diferente de carências alimentares, segundo os mandamentos da Madre Jonet. O estudo foi feito em moscas. Moscas, sim, mas parece que pode aplicar-se a seres humanos e até será publicado na revista Science. Há um senão: têm de estar sem comer mais de 20 horas, ou o efeito é inverso.

Na prática, quem quiser ter uma memória melhor, deverá estar sem comer, pelo menos, 20 horas e 1 segundo. Este também é um estudo de época. Vivemos em tempos de fome e miséria, ainda que alguns teimem em dizer que é tudo normal, ou perguntem apenas "qual é a pressa"? Há cada vez mais fome e cada vez mais miséria, e a tendência é acentuar-se.

Novos pobres e novas formas de pobreza. Os pobres que precisam de dizer aos filhos para venderem as senhas de almoço para terem algum dinheiro e os pobres que precisam de comprá-las, porque por meia-dúzia de cêntimos não têm direito a apoios sociais. Depois deste estudo, fiquem descansadas as mais de 10.000 crianças que chegam à escola com fome, porque lhes beneficia a memória. Há aquele detalhe de poderem desmaiar, mas, pelo menos a história e geografia, terão boas notas. E saberão a tabuada. Não tarda, estarão a decorar as linhas férreas das ex-colónias.

Não vou ao extremo de dizer que este estudo serve para legitimar opções políticas. Tem pelo menos uma aplicação prática que poderá ser benéfica para todos. Ficar mais de 20 horas sem comer antes de votar. Vamos ver se ajuda mesmo a memória.

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Unicer - Democracia é um conceito estranho



A Unicer é uma das empresas líder em Portugal, exporta para vários mercados e tem tudo para continuar no bom caminho. No entanto, a entrada em vigor do novo código laboral, com a simpatia da UGT, colocou os trabalhadores em situação complicada.

2012
Em Agosto, aquando da entrada em vigor das alterações ao Código do Trabalho, a empresa preparava-se para adoptar os novos valores de remuneração do trabalho extraordinário. A Comissão de Trabalhadores tomou então a iniciativa de pedir à comissão intersindical que agendasse um plenário para discutir o assunto. Saiu o pedido de reunião urgente à administração da empresa para esse mesmo dia, onde ficou acordado que a Unicer pagaria o trabalho extraordinário pelo mesmo preço até ao fim do ano.

Negociação?
Nesse compromisso, a empresa garantia também que iniciaria em Setembro as negociações com os sindicatos com vista à renegociação do Acordo Colectivo de Trabalho, uma vez que os sindicatos pretendiam incluir pontos que menorizassem os efeitos das condições para despedimento com justa causa previstas no código do trabalho. Apesar disso, e dos vários contactos dos sindicatos, a administração nunca se mostrou disponível e só em Dezembro deu a conhecer que pretendia abordar alguns pontos. Assim, os sindicatos reuniram o plenário no início do ano e os trabalhadores decidiram aderir ao pré-aviso de greve decretado pela FESAHT.

Laboração contínua
Desde 3 de Janeiro que os trabalhadores estão em greve, não obstante as constantes pressões das chefias sobre os trabalhadores. Entretanto a empresa partiu de forma agressiva com a “proposta” para os trabalhadores em regime de laboração normal aderirem à laboração continua, ameaçando de que quem não aceitasse seria encostado a um canto.

Chantagem e ilegalidade
Há duas semanas, em reunião previamente marcada para negociação da tabela salarial para 2013, a empresa limitou-se a informar os sindicatos que suspendia todas as negociações enquanto vigorasse a greve ao trabalho extraordinário, questionando antecipadamente os trabalhadores quem iria fazer greve no fim-de-semana seguinte, tendo contratado trabalhadores precários a uma empresa de trabalho temporário para substituir os trabalhadores em greve.


Novo plenário
Realizou-se, então, um novo plenário, onde se condena a atitude da empresa em pressionar os trabalhadores para abandonarem a greve sob ameaça de não haver aumento salarial; a atitude dos responsáveis da empresa em interpelar antecipadamente os trabalhadores acerca da adesão à greve; a pressão no sentido de aderirem ao sistema de laboração contínua sob ameaça de colocação na prateleira. A mesma moção determina mandatar os sindicatos para que a suspensão da greve se verifique apenas se a empresa repuser os pagamentos do trabalho extraordinário nos moldes anteriores e mandata os sindicatos para que, numa situação de inexistência de atitude diferente por parte da empresa, adoptem medidas mais duras de luta que poderão passar pela greve às primeiras e ultimas horas dos turnos.

“Alô? É da administração”.
Na sexta-feira passada semana, assistiu-se a um episódio insólito, inédito e ilegal. Altos responsáveis da Unicer telefonaram para os trabalhadores que nem sequer se encontravam nas instalações da empresa dizendo-lhes para trabalharem no sábado seguinte.


O CEO (estrangeirismo para patrão/administrador) da Unicer é Pires de Lima, presidente do conselho nacional do CDS. CDS que, aproveito a oportunidade, tem procurado passar por entre os pingos de chuva neste Governo desastroso e desastrado que temos à frente do país. Pires de Lima, que anda tão preocupado com as fugas de informação no governo, devia preocupar-se mais com a empresa que gere. Por exemplo, o que já significa para a Unicer o custo com ex-SCUT e com as novas que por aí virão, pela mão do governo do qual o seu partido faz parte.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Cortar pelo picotado

Parece simples. Dá-se meia volta à chave e o rádio liga-se, numa espécie de ritual diário que serve para fazer companhia até ao trabalho. Sim, ainda tenho trabalho. A Antena 3 faz-me companhia até à hora das notícias.

No entanto, desde há uns anos que se tornou penoso fazê-lo e, se o faço, é só mesmo porque o trabalho assim obriga. Ouço a TSF, normalmente, e não há dia em que não haja uma relvice, uma declaração estúpida de um secretário de Estado, de um ministro ou o anúncio de novos cortes, sejam eles elaborados pelo FMI ou pelo governo.

Hoje não foi excepção. E pouco tempo depois de PSD e CDS comprarem o BANIF, à semelhança do que o PS havia feito com o BPN, o Negócios apresenta-nos as propostas do FMI para reduzir a despesa em 4.000.000.000 de euros (peço desculpa por algum zero a mais ou a menos). Estamos a falar do mesmo FMI que, em Outubro do ano passado, chegou à conclusão que a austeridade tem um efeito no PIB mais recessivo que o previsto. E, já agora, do mesmo FMI que, habituado a mandos e desmandos, se esqueceu de que - ainda - há por estas bandas uma Constituição. É com este cuidado que os "especialistas" que têm no actual governo PSD-CDS, com as abstenções violentas do PS, os cães de fila, gerem o país.

O que é proposto no mais recente estudo do FMI vai no sentido de continuação da mais violenta agressão de que há memória ao povo português. Para o FMI, o subsídio de desemprego continua a ser demasiado longo e elevado, o despedimento de 50.000 professores e pessoal auxiliar permitiria poupar 710 milhões, é necessário subir (outra vez e ainda mais) as taxas moderadoras, alterar os sistemas de pensões dos militares e polícias, aumentar as propinas no ensino superior, aumentar a idade da reforma, retirar abonos, aumentar o horário de trabalho e diminuir o valor das horas extraordinárias na função pública, diminuição do salário mínimo na função pública, diminuir os subsídios de maternidade e paternidade e acabar com o subsídio de morte.

Por partes:
O FMI considera que o subsídio de desemprego é demasiado elevado (máximo de 1.045 euros mensais) e dura demasiado tempo, pelo que o valor máximo deverá ser reduzido e, após 10 meses sem trabalho, o desempregado passaria a ganhar o valor do subsídio social (419,22) euros.

O despedimento de 50.000 professores e auxiliares far-se-ia através da sua colocação no regime de mobilidade e, após dois anos nesse regime, o recurso ao despedimento. Ainda na educação, mas no ensino superior, o FMI considera que fica mais barato o estado pagar a privados - e PS e PSD sabem bem como o ensino privado pode ser de excelência. O FMI vai mais longe e alarga a fórmula ao ensino básico e secundário.

O FMI conclui também que há margem para subir mais as taxas moderadoras na saúde, por exemplo, dos actuais 20 euros cobrados nas urgência para 33,62 euros.

Estes são apenas alguns dos pontos revelados hoje, ao longo de 11 longas e dolorosas páginas do Negócios.

O ataque às funções essenciais do Estado está agora num novo patamar. Independentemente de este estudo poder ser apenas para o governo dizer, mais tarde, que não foi tão longe como o FMI queria, a verdade é que estão aqui propostas gravíssimas para um povo que já não vive, sobrevive, num país rasgado pela austeridade cega, pela miséria, pela fome, empurrados para a indignidade por quem vê o país em folhas de excel para depois vir recomendar-nos pão e água.

O que está a suceder agora nos países do sul da Europa não é novo, aconteceu no século passado na América Latina, com os resultados desastrosos que são conhecidos. Um fosso astronómico entre ricos e pobres, a desigualdade, as oligarquias. Por lá, os povos demoraram a perceber que têm o poder nas mãos e assistimos a uma viragem à esquerda em muitos dos países. Por cá, ainda estamos na fase de deixar bater no fundo.

Veremos o que querem os portugueses. É este povo que terá de escolher o lado da barricada, quer em eleições, quer nas ruas. Não creio que estejamos em tempo de andar a brincar às oposições ou, sequer, de empurrar com a barriga a necessidade de eleições. Este governo tem de sair já. A bem ou a mal.



Artigo 21.º
Direito de resistência
Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

Artigo 22.º
Responsabilidade das entidades públicas
O Estado e as demais entidades públicas são civilmente responsáveis, em forma solidária com os titulares dos seus órgãos, funcionários ou agentes, por acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício, de que resulte violação dos direitos, liberdades e garantias ou prejuízo para outrem.

Constituição da República Portuguesa

quinta-feira, dezembro 20, 2012

LIBERTAD ALFON!

Nesta Europa a andar para trás, os sinais de perseguição a quem divirja da ideologia dominante são cada vez mas alarmantes. A Greve Geral europeia de dia 14 de Novembro teve importantes acontecimentos em todos os países. Desta vez, vamos até Espanha, mais propriamente Vallekas, em Madrid, capital do reino espanhol.

Vallekas mantém ainda hoje as suas tradições antifascistas, num bairro com cerca de 300.000 habitantes. O bairro dos subúrbios madrilenos foi um importante espaço de resistência à ditadura de Franco, o que lhe valeu o apelido de "pequena Rússia". O orgulho de classe continua a ter uma marca profunda e tem o seu expoente nos adeptos do clube do bairro operário, o Rayo Vallecano. Os Bukaneros, claque do Rayo, são um grupo assumidamente antifascista e, na última Greve Geral, pagaram por isso. Como poderão ver nas imagens que ilustram o texto, os Bukaneros utilizam a curva, 'la grada', para enviar mensagens políticas e sociais, pelo que começam a ser incómodos para todos os poderes.



Espanha: estado opressor

Nos últimos tempos a repressão acentuou-se generalizadamente na Europa, particularmente no país vizinho. Das detenções arbitrárias no País Basco, às acusações de apologia ao terrorismo do poeta e rapper Pablo Hasel e do produtor Marc Hijo de Sam, que lhes valeram vários dias na prisão.

Na noite de 13 para 14 de Novembro, Alfonso Fernández, de 21 anos, saiu de casa com a namorada para participar num piquete de greve. Perto de casa foram ambos detidos e levados para uma esquadra sem motivo aparente. Seguiram-se interrogatórios por polícias de cara tapada, ameaças a familiares e, para surpresa do próprio, uma acusação de posse de explosivos, que pode resultar numa ena de prisão entre quatro e oito anos. E mais ameaças e pressão para uma autoconfissão.

Nas diligências efectuadas em casa de Alfon nada foi encontrado. Alfon serviu também de desculpa para uma invasão policial de um dos pontos onde os Bukaneros costumam reunir-se. E, mais uma vez, nada de incriminatório foi encontrado.


Acabar com os Bukaneros?

É convicção generalizada entre os membros dos Bukaneros que Alfon está a servir de bode expiatório para uma possível ilegalização do grupo de adeptos. Estes têm-se destacado na denúncia da corrupção do futebol moderno, contra os horários absurdos dos jogos do campeonato espanhol e os jogos do campeonato às quintas-feiras. Tudo a bem do interesse económico das televisões e das direcções dos clubes e contra o que o futebol deve ser: uma festa de adeptos para os adeptos.



Marcha proibida
Os Bukaneros, a IU, associações sindicais e movimentos sociais organizaram uma série de eventos de solidariedade, que culminariam com uma marcha, no dia 15 de Dezembro, até aos estabelecimento prisional onde está Alfon. A marcha foi considerada ilegal e acabou por não se realizar. Alfon estava proibido de efectuar telefonemas desde a quarta-feira anterior. Curiosamente, no sábado, a sua mãe recebeu um telefonema. Era Alfon. Avisava a sua mãe que, caso a marcha se realizasse, seria enviado para as Canárias... O direito de manifestação está ameaçado também em Espanha.



Alfon continua detido
Alfon está ainda hoje detido, em prisão preventiva. É o único detido em toda a Europa por eventos relacionados com a Greve Geral. Primeiro, devido a pressões de altas instâncias judiciais, o argumento utilizado era a possibilidade de fuga, que foi depois descartada. Agora, continua detido por, supostamente, ser uma ameaça à paz social. Todo o contacto que tem com familiares, amigos e mesmo advogados tem a presença de elementos policiais. O amigos que lhe escreveram para a cadeia estão a ser perseguidos e investigados pela polícia.


Silêncio mediático, UE calada
Parece incrível mas estamos a falar de um estado da União Europeia, que deveria ser o farol das liberdades e garantias dos seus cidadãos. Que não o é já todos sabemos. Só não estávamos habituados a que não o fosse tão descaradamente. Os media mainstream também não dão importância ao caso. Apenas blogs e redes sociais vão impedindo que este caso caia no esquecimento e que um jovem permaneça na cadeia por ter consciência de classe, por ser inconformado, por não se resignar.

Pablo Hasel, também ele ex-detido, fez este poema em homenagem a Alfon, onde consta também o testemunho da mãe do jovem.



Toda a informação aqui: LIBERTAD ALFON!
Também no Facebook: ALFON LIBERTAD!

Espero, em breve, ver nas curvas portuguesas uma tarja que seja a solidarizar-se com Alfon.

Partilha e divulga!

Adenda: entrevista com a mãe de Alfon:

(Reparem na música do genérico do programa)


segunda-feira, dezembro 17, 2012

Violência inqualificável*



Nos últimos tempos temos assistido a uma escalada de violência miserável. No concelho de Matosinhos, os duelos entre irmãos intensificam-se e ainda estamos a dez meses das eleições, com o trio Narciso-Guilherme-Parada a semi-apresentarem-se como candidatos à presidência da Câmara Municipal.

Narciso está mais ou menos resguardado, vai fazendo a sua campanha estratégica de só aparecer quando interessa. Já Guilherme Pinto e António Parada regressam a um registo que foi habitual no PS de Matosinhos e terminou tragicamente na lota.
Nas últimas três grandes iniciativas do PS de Matosinhos, seja o PS do actual presidente ou o PS do candidato Parada, o resultado foi péssimo.

Nas eleições para a concelhia houve de tudo, desde a vandalização de carros até insultos e outros mimos; seguiu-se a tristemente célebre reunião de Guifões, que teve o seu auge com a agressão a uma jornalista e a polícia no local para acalmar os nervos. Mais recentemente, um jantar de apoio a Guilherme Pinto terminou também com confrontos e a presença da polícia.

A luta pelo poleiro anda quentinha, mas o concelho merece melhor. Melhor que esta política, melhor que este tipo de política e melhor que estes protagonistas.

*Publicado, originalmente, na edição de dezembro do Notícias de Matosinhos

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Isto é Portugal


Clica na imagem para ver a reportagem - Na imagem, a jovem tem 19 anos e um filho de 16 meses. Todas as noites percorre, com o filho, 16 contentores do lixo à procura de roupas.


Ontem a RTP fez serviço público. Esta reportagem de 40 minutos é o reflexo de um país a que fechamos os olhos. Eu obrigaria todos a verem esta reportagem. Querem fazer cidadania? Vejam esta reportagem. E pensem. Não consigo escrever ou descrever mais sobre o que vi ontem.


A reportagem foi também ouvir Isabel Jonet. E cada um que tire as suas conclusões. Eu tirei as minhas e continuam a corroer-me por dentro:

Isabel Jonet: "Eu penso que é mais correcto falar-se em carências alimentares, porque há que relativizar até a situação que se passa nos países mais desenvolvidos e o que se passa nos países subdesenvolvidos, como África. E, portanto, temos que relativizar e falarem carências alimentares".

Jornalista: "Mas estas mães que encontrámos nas escolas falam-nos em fome..."

Isabel Jonet: "Pois, porque é tudo um olhar relativo sobre a situação que tinham previsto ter. Se for para África, há pessoas que não comem mais do que uma tigela de arroz por dia. De facto, esses têm fome. Há muitas famílias cá em Portugal que não têm uma refeição completa por dia. Há mutitos idosos, nomeadamente idosos, que vivem sozinhos, que não comem uma refeição completa todos os dias".

Jornalista: "Mas isso não é fome..."

Isabel Jonet: Isso não é fome. Mas são os idosos. No caso das crianças, todas aquelas crianças que podem ir às cantinas escolares ou que são apoiadas... que frequentam ATL, Instituições de Solidariedade Social, ATL, cheches, etc, é-lhes garantida uma refeição na, na , na insituição durante o dia. Muitas chegam a casa e já não jantam.

Jornalista: "Mas isso é uma carência alimentar, não é fome..."

Isabel Jonet: Não é. Eu acho que é uma carência alimentar.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Soares no seu labirinto


Que me perdoe Gabo, que nem Soares é Bolívar, nem eu sou Gabo, mas o labirinto em que Mário Soares se move é digno de um romance. É um personagem dado a sentimentos extremos, de todos os quadrantes. Amado ou odiado. Dentro e fora dos vários PS, entre o que levantou Alegre e o que o apoiou com Sócrates. Soares tem debitado tudo o que lhe vem à cabeça seja na página cheia de caracteres que tem no DN, seja em entrevistas que, de vez em quando, vai dando por aí.

Nós temos esta coisa de condescender os mais velhos. Deve ser do fado. A culpa é do fado. "Abaixo o fado", já dizia Vasco Santana, n'A Canção de Lisboa. Nós temos, mas eu não gosto, nem condescendo. Soares tem demasiadas responsabilidades para que possa fazê-lo.

Ontem voltou a dar cartas numa entrevista à TVI24 e o que fica não é digno de quem foi Presidente da República durante dez anos, Primeiro-ministro e deputado no Parlamento Europeu, e, mais que isso, de alguém que terá combatido o fascismo de Salazar.

Dizer que "nem no tempo de Salazar viu tanta fome no país" é mentiroso. E perigoso. Não perigoso no sentido em que pode incendiar ainda mais os ânimos - para mim, o ponto de ruptura estará em 2013 -, mas no sentido de banalizar aquilo que foi o regime de Salazar. Soares acordou agora de um sono profundo da era Sócrates, em que os amanhãs cantavam e o país prosperava, mas isso não pode dar-lhe o direito de dizer tudo.

Não nos equivoquemos: eu tenho tanta simpatia por este governo como Mário Soares. É, de facto, um governo criminoso, económica e socialmente, a miséria é real e aprofunda-se diariamente. Hoje mesmo, com a indemnização por despedimento a baixar para 12 dias por ano de trabalho. Ou seja, quando se pretende baixar a despesa com as funções sociais do Estado, empurram-se as pessoas para essa dependência.

Soares não se lembra de não haver gente sem dinheiro para o pão no tempo de Salazar, como não se lembrará do que significou para o país a entrada na UE e o fim de tudo o que era produção nacional. Mais grave, Soares não se lembra de que era Primeiro-ministro nas duas anteriores intervenções do FMI em Portugal, em 1977 e 1983. Na altura, como hoje, o que existiu foram redução de salários, subida de impostos, cortes no subsídio de Natal, entre outras medidas que hoje já não nos parecem estranhas. O que foi a fome em todo o país e particularmente na península de Setúbal naqueles anos.

Soares faz agora o papel de Alegre com Sócrates. A diferença é que o PS não está no poder e não quer eleições, particularmente num ano como 2013. Não quer porque tem Seguro e Seguro não é visto como um líder, e António Costa, ao recandidatar-se a Lisboa, parece estar mais interessado em ser Presidente da República do que líder do PS para candidato a Primeiro-ministro; não quer porque é um ano de autárquicas e as lutas internas pelo poder em cada quintal vêm ao de cima.

Então, para que serve o palavreado de Soares se não é escutado dentro do seu próprio partido?

Se é certo que temos de olhar em frente, não podemos esquecer o que está para trás na história recente do país. E os vários PS, incluindo o de Soares, não estão isentos de culpas.

Soares está cansado e nós estamos cansados de Soares.

O miúdo veste o quê?


O Tiago já deixou aqui uma compilação dos artigos dedicados pelos opinadores do Expresso ao XIX Congresso do PCP. Se as respostas dadas por mim e pelo Francisco respondem ao Daniel Oliveira e ao Henrique Monteiro, vi hoje um novo artigo relacionado com o Centro de Trabalho Vitória.

Com o sugestivo título "O PCP veste Prada... e Gucci!", o miúdo ali em cima, de nome João Lemos Esteves, debita uma série de lugares-comuns e factos errados que, tendo em conta o facto de escrever num blog do Expresso, poderá valer-lhe um grande futuro no grupo de Balsemão.

Por pontos, o escriba dedica-se a especular sobre os comunistas; o que são, os seus Centros de Trabalho, como vivem e o que vestem. Vamos, assim, responder ponto por ponto.

Ponto 1 - "As crenças de criança" estão em todo o artigo. O autor ignora o facto de o PCP, quando adquire um imóvel, não poder controlar a vizinhança. É mais ou menos como nos blogs. Eu não controlo, e ainda bem, porque me divertem, os disparates que se escrevem noutros blogs. O "partido marginal" no panorama político e social é mais uma "crença de criança" do miúdo.

Ponto 2 - O PCP convive na Avenida da Liberdade com quem passou a existir ao seu lado. Sem qualquer preconceito que os preconceituosos anti-comunistas acham que os comunistas têm. Ao "luxuoso edifício" iremos mais à frente.

Ponto 3 - O miúdo acha que os Centros de Trabalho do PCP não devem ter televisão, menos ainda Sport TV. Pode parecer-lhe estranho, mas os Centros de Trabalho do PCP até têm - imagine-se - computadores com internet! Os Centro de Trabalho que reúnem condições para tal são espaços onde os militantes e não-militantes convivem. Não, ao contrário do que pensa o miúdo, a vida dos comunistas não se resume ao Partido. Até porque o Partido está em tudo o que os seus militantes fazem. No futebol também. Pode passar pela Catedral da Luz e por lá verá artigos de comunistas sobre - espante-se - futebol.

Ponto 4 - O miúdo delira.

Ponto 5 - O miúdo gostava que assim fosse.

Ora, voltando ao CT Vitória, a ignorância do miúdo é algo de tão atroz que serve para explicar tudo o mereceu ser replicado acima - pontos houve que só existem na cabeça do autor. Assim, aqui fica para informação:

Adquirindo o edifício em 1984 (graças à campanha «60 mil contos para o Vitória»), o PCP empreendeu desde então diversas obras de recuperação e reintegração do edifício no seu desenho original, bastante degradado sobretudo a partir dos anos 60. Nas obras dos anos 80 é feito um restauro de toda a fachada, repondo a pala circular sobre a entrada, que fora destruída, e reconstruindo a pérgola do terraço, que ruíra no sismo de 1969. Nas obras dos anos 90 todo o piso térreo é recuperado na base dos elementos decorativos de origem. Com a passagem a Centro de Trabalho Vitória o edifício não só ganhou uma nova e intensa vida, como recuperou toda a dignidade de um dos mais singulares edifícios da cidade de Lisboa.

Ou seja, no PCP não há Somagues, Modernas, sobreiros, submarinos, financiamentos que passam pelo Brasil, Tecnoformas, etc. O PCP votou contra a Lei dos Partidos por entender que estes devem viver através da militância e empenho dos seus membros, com receitas próprias.

Por fim, alguém diga ao miúdo que o PCP não só tem um Centro de Trabalho na Avenida da Liberdade, em Lisboa, como tem outro na Avenida da Boavista, no Porto, e, pasme-se, uma quinta na Amora!

Aprender, aprender... sempre!

O Daniel não percebe

O Daniel Oliveira, que era há uns tempos a vanguarda da esquerda livre e democrática na blogosfera, não percebe como é que o PCP pode começar um congresso a uma sexta-feira, sendo um dia de semana. Ou melhor, percebe e conclui:

"Só de uma forma: se uma parte significativa desses delegados trabalharem para o partido, forem eleitos para cargos políticos com disponibilidade a tempo inteiro ou forem assalariados de organizações que lhe são próximas".

Há muita coisa que o Daniel Oliveira não percebe, mas, centrando-me apenas nesta, eu explico:

É possível começar com o exemplo da Festa do Avante!. Como podem os comunistas construir uma evento político, cultural, artístico daquela dimensão? Pela lógica do Daniel, seria através de funcionários do Partido ou de organizações que lhe são próximas. Qualquer pessoa que conheça a Festa do Avante! sabe que tal seria impossível. Então, como se faz?

Chama-se militância. É encarado como dever dos comunistas logo que aceitam o Programa e Estatutos do Partido. Eu utilizo dias de férias para ajudar a construir a Festa do Avante!, como fazem centenas de outros camaradas meus. Da mesma forma, muita gente utilizou um ou mais dias de férias para poderem estar no XIX Congresso.

Parecerá estranho ao Daniel que o tempo de cada um seja utilizado da forma que pretende, no caso, para participar num acto de cidadania que é a militância política activa?

Explica-se assim, de forma simples, uma mentira absoluta tida como verdade certa pelo Daniel.

Já agora, como foi possível organizar tantas assembleias e reuniões para que fossem discutidos o programa, estatutos e teses? Eu explico também. Por milhares de trabalhadores, estudantes, reformados que consideram importante estar na discussão do que queremos que seja o Partido.

Não era preciso ser muito inteligente para perceber isto. Mas estamos a falar do Daniel Oliveira.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Em stereo

Desde a semana passada que estou em stereo no Artigo 58.  Os artigos serão publicados também aqui, logo que seja possível.

sexta-feira, novembro 23, 2012

Relvas, o mestre da táctica

Miguel Relvas não é doutor, mas não é por isso que deixa de ser esperto. A polémica das imagens da manifestação foi um pretexto óptimo para dar um passo no caminho pretendido por este governo para a RTP.

A saída de Nuno Santos - independentemente de qualquer balanço que façamos sobre a sua passagem pelo cargo de director de informação - da forma que ocorreu, pretende lançar o descrédito sobre a RTP e os seus trabalhadores e, de uma forma mais ou menos obscura, provar que como está a RTP não serve. No dia em que, supostamente, alguém exterior à RTP viu as imagens, nem Nuno Santos nem Vítor Gonçalves estavam, sequer, em Portugal.

A história tem dedo de Relvas. Luís Marinho prepara-se para assumir o cargo de Nuno Santos e o Governo fica assim com um homem de mão à frente da informação. Para breve, virá uma "reorganização" das direcções editoriais.

Luís Marinho tem currículo que agradará a Relvas. Recordemos Raquel Freire:

Raquel Freire confirma na ERC versão de que crónicas acabaram por imposição de Luís Marinho

quinta-feira, novembro 15, 2012

Uma grande Greve Geral

Foi uma enorme Greve Geral. (ponto) 

No Porto, centenas de pessoas, sindicalizadas, não sindicalizadas, empregadas, desempregadas, deslocaram-se à Casa Sindical da União de Sindicatos do Porto com o propósito de participar nos piquetes.

Foi o maior piquete de que tenho memória. Ok, não sou assim tão antigo, mas isto é um facto. No Porto, apesar de haver quem ache que se diz sempre que "esta greve foi maior que a anterior", o facto é que, a sensibilidade de quem lá esteve é que foi, de facto uma grande greve, que decorreu praticamente sem incidentes.

O piquete montado pelos trabalhadores dos STCP em Francos era significativo, algumas dezenas de trabalhadores à porta da empresa, ainda antes da meia-noite. Os que chegaram mais tarde engrossaram as fileiras e ali estivemos tranquilamente. Ninguém chegou para trabalhar até perto das 4 da manhã. Os que chegavam, acabavam por juntar-se ao piquete. Na recolha da Via Norte, o mesmo filme. Na estação de S. Bento, às 9 da manhã nem um comboio partira. Apesar da figura sinistra que é presença assídua na provocação aos piquetes de greve.

Mesmo com uma noite gelada, a adesão aos piquetes era massiva.

Pelo meio, alguns episódios a assinalar.

As misteriosas carrinhas de entrega de jornais e o desejo gorado dos Precários Inflexíveis

Quem conhece a Lei da Greve sabe que, em dias de greve, é aos piquetes das empresas ou designados pelos Sindicatos ou Centrais Sindicais que compete garantir a segurança das instalações. Por esse motivo, os piquetes dividem-se dentro e fora das instalações das empresas. Pelas duas da manhã, em Francos, surge uma carrinha branca, que, como é normal, é abordada pelo piquete. Não se sabia se era algum trabalhador e era pretendido falar com ele, cumprindo outro papel legal do piquete: procurar dissuadir o trabalhador.
A carrinha, ao aproximar-se, abrandou e depois acelerou em direcção ao piquete, o que fez aquecer os ânimos. A PSP, com uma presença normal para a ocasião acorreu ao local e - creio - acabou por identificar o condutor.

Episódio sanado e tudo normal. A carrinha continuava junto ao portão.

Vinte minutos depois, surge outra carrinha e a história repetiu-se. Para a saída das carrinhas, foi o piquete a formar um cordão para que as duas carrinhas pudessem sair em segurança. Para surpresa de todos, as duas pararam 50 metros à frente. Outra vez ânimos exaltados, mas nada de muito grave.

A noite continuou muito fria.

Pelas sete da manhã, surgia também alguma tensão junto à estação de recolha da Via Norte, quando alguns autocarros se perfilavam para sair. No entanto, o piquete voltou a funcionar. O "piquete" dos PI chegou por volta dessa hora e apressou-se a tuitar que tinha havido uma carga policial com recurso ao Corpo de Intervenção. Nada mais falso. Nem houve carga policial nem lá estava o CI.

Foi, assim, uma noite tranquila, com trabalhadores unidos num propósito e uma mobilização de que, como recordei, não tenho memória.

QUESTÕES MARGINAIS

A meio da noite, surgiu a notícia de detenções em Matosinhos, após terem sido vandalizadas cinco dependências bancárias. Dois estudantes, de 18 e 19 anos, recorreram ao que foi lançado por um conhecido site de reprodução de notícias, o Tugaleaks, através de vários apelos de pelo menos um dos seus membros, via twitter e facebook, para o recurso à "acção directa". Mesmo sem terem a mínima noção do que é, de facto, acção directa.

A violência junto à AR era mais do que prevista, por vários motivos. A desvalorização constante das greves e das manifestações, por maiores que sejam, por parte dos vários governos e dos seus agentes que surgem nas colunas de opinião da Comunicação Social é um deles. Consciente ou inconscientemente, o que estão a fazer é a empurrar cada vez mais gente para o protesto violento.  Depois há os que acabam os editoriais demasiado cedo e acabam por passar mentiras para a opinião pública. Mas certamente que o Paulo Ferreira, na edição de amanhã do JN, fará um desmentido do que disse hoje.

Mesmo que o apedrejamento da polícia tenha sido obra de meia-dúzia de burguesinhos indignados com tudo e mais alguma coisa, até com a CGTP, a verdade é que o desespero acentua-se de dia para dia e pode ter consequências bem mais graves do que o sucedido na AR. A carga policial só não era esperada por quem não tem noção da realidade. Quem lá ficou devia saber o que aí vinha.

O desespero acentua-se. E quem pouco ou nada tem a perder, protestará cada vez mais e de forma mais contundente. A ver vamos como será no dia 27. A ver vamos como será depois de os trabalhadores terem uma noção real do que lhes é roubado, quando receberem o recibo de vencimento de Janeiro. A ver vamos quando perceberem os cortes no subsídio do desemprego. A ver vamos quando tiverem consciência do roubo a que estamos a ser sujeitos.

Importa realçar que a manifestação da CGTP já tinha acabado há muito tempo, mas que milhares de pessoas continuaram em frente à AR, o que também é de registar e analisar aprofundadamente dentro da Central Sindical.

Artigo 21.º da Constituição da República Portuguesa:
Artigo 21.º
Direito de resistência
Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

terça-feira, novembro 13, 2012

GREVE GERAL! - Dia de Acção e Solidariedade


A Greve Geral está prestes a começar. Deixemos de lado os Proenças deste mundo e as suas previsões/desejos do inêxito da Greve Geral. Deixemos de lado o medo que alguns querem incutir.

Amanhã, por toda a Europa, os trabalhadores exercerão os seus direitos de greve e manifestação.

Mesmo que isso custe a gente desta, a quem a democracia é estranha, e que acusa os trabalhadores dos portos de estarem a aprofundar a crise e, no entanto, compram meia página no Público. (clica para ampliar)

sexta-feira, novembro 09, 2012

Quem manda na UGT?


No dia 1 de Outubro, quando estava anunciada a mais que necessária Greve Geral da CGTP, o secretário geral da UGT, João Proença, foi bastante claro nas suas afirmações, que podem ser conferidas no vídeo abaixo. "Marcar greve geral está fora de questão e sobretudo aderir a uma greve da CGTP ou ir para a rua dizer não à troika quando nós precisamos da Troika".




Proença falava então no plural, vinculando assim a direcção da UGT a uma decisão que, pela forma como foi explicada pelo próprio, parecia colectiva, com um grande consenso dentro da organização.

Um mês e um dia depois, Proença vinha já afirmar que, afinal, vai aderir à Greve Geral, porque o seu sindicato,  FESAP, decidiu aderir à greve geral. Talvez a FESAP se tenha sentido pressionada pela grandiosa manifestação da UGT no dia 26 de Outubro, que mobilizou milhares centenas dezenas de trabalhadores.





Curiosamente, hoje ficámos a saber que mais de metade dos 50 sindicatos afectos à UGT vai aderir à greve geral do dia 14 de Novembro. Recordemo-nos desta notícia. Vamos guardá-la bem para, mais tarde, o mesmo Proença não vir dizer que a CGTP mente quando diz que sindicatos afectos à UGT aderiram à greve.

Por fim, cabe então perguntar quem manda na UGT? O órgão executivo da UGT consiste apenas no João Proença? Felizmente, a ligação da UGT ao PS faz dela uma central democrática, de outra forma, teríamos o caldo entornado.

A greve geral é dos trabalhares e do povo, foi deles que partiu a exigência. Mas Proença não o sabe, porque deve andar entretido a coleccionar os elogios de Passos Coelho, Nuno Magalhães e do patrão dos patrões.

Dia 16, lá estaremos. Trabalhadores ao lado de trabalhadores. E tu, Proença?

domingo, outubro 28, 2012

A maratona de Gaspar

A tremenda habilidade de Vítor Gaspar para tratar das finanças do país é semelhante à sua capacidade de gerar momentos embaraçosos para esta espécie de comissão liquidatária que está à frente dos destinos do rectângulo.

Gaspar não tem aspecto de quem faça as suas corridinhas. Não faz mal, há não muito tempo tivemos por cá quem se passeasse em corridas matinais com as câmaras de tv atrás e esse também não deixa saudades. Aqui, estou com o Gaspar: também não gosto de correr. Faço-o quase diariamente porque sei que faz bem e com dois objectivos, que são a saúde física e mental.

Gaspar calçou as sapatilhas e fez-se ao caminho das metáforas com a maratona, ainda por cima com a fase final. Não sei o que será para ele a fase final. Sei que pode ser agonizante. Há entre os maratonistas aquilo que é chamado de "o muro", ocorre cerca dos 30km da prova e é a fase mais difícil dos 42,8km. As falhas musculares afectam também a mente dos atletas e muitos acabam por desistir.

Há portugueses que já desistiram da maratona. Deixaram o país e a prova de afundo. Muitos outros continuam por cá, nesta maratona miserável a que estão a condenar-nos. Gaspar acha que o pior já passou.

Gaspar é sebo. Sebo, sim. O Sebo que Francisco Lázaro usou em 1912 e o levou à morte nos Jogos Olímpicos desse ano. O maratonista cobriu o corpo com sebo para o impedir de suar. Neste momento, somos todos Francisco Lázaro.

O governo de Gaspar e companhia cobre-nos com sebo que nos asfixia todos os poros e acabará por levar-nos à morte. Assim nós o deixemos e não nos hidratemos de todas as formas possíveis. Francisco Lázaro não teria morrido se tivesse tomado um banho. Um banho simples, que os colegas da comitiva portuguesa daquela edição olímpica não conseguiram convencê-lo.

E ele foi morrendo a cada passo que dava. E nós precisamos de um banho. Um banho que limpe o sebo.

segunda-feira, outubro 22, 2012

Tribuna Pública contra a extinção de freguesias



PORTO - TRIBUNA PÚBLICA – CONTRA A EXTINÇÃO DE FREGUESIAS
27 de Outubro – 15H30 – Praça dos Poveiros

A Plataforma Nacional Contra a Extinção de Freguesia agendou para o próximo dia 27 de Outubro, Sábado, uma jornada nacional de luta contra a extinção de freguesias. Por todo o país, em vários distritos e concelhos, vão decorrer acções em defesa do poder local e contra a proposta de reorganização administrativa que o governo quer impor, e que apenas visa liquidar freguesias. Nenhum autarca foi eleito propondo a extinção da sua freguesia, e por isso não podemos aceitar ser os “coveiros” das nossas freguesias.

É com este sentimento que a grande maioria das Assembleias Municipais e das Freguesias não têm apresentado qualquer proposta de reorganização administrativa na sua respectiva área de actuação. É com este mesmo sentimento que a luta contra a extinção das freguesias vai continuar.

No distrito do Porto, a Plataforma Nacional Contra a Extinção de Freguesias e o STAL vão promover uma TRIBUNA PÚBLICA, no próximo dia 27 de Outubro, pelas 15h30, na Praça dos Poveiros, com os seguintes objectivos:

Em defesa do Poder Local Democrático
Contra a Extinção de Freguesias
Pela manutenção dos serviços públicos de proximidade
Pela defesa dos trabalhadores da administração local

A luta tem de continuar! Pela defesa das nossas freguesias! As freguesias são do povo!