quarta-feira, janeiro 28, 2009

Dos Beijinhos* I


Não sei se é do frio, mas tenho ouvido muito nas rádios aquela música dos Pólo Norte ali em cima. Trouxe-me à memória os dias em que ia para a Praia dos Beijinhos*, em Leça da Palmeira, juntamente com uma dúzia de amigos.

Eu, de cabelo comprido e viola às costas, lá ia. A camisola do Che dava aquele ar de artista - eu, que sem saber desenhar, pintar ou esculpir, estive no agrupamento de artes no 10.º ano. O facto de saber dedilhar apenas duas ou três músicas era pouco relevante. Uma delas era precisamente aquela. Chegar à praia com o saco da guitarra às costas servia para colmatar uma falha tremenda na minha pessoa que é o facto de nadar mal e à cão. Assim, sem os fatos de licra dos surfistas ou do pessoal do body-board, eu tinha a minha mais-valia.

O Grande, do alto do seu metro e 98, também com cabelo comprido, ajudava à festa. O facto de ele - e só ele - achar que cantava bem, motivava-me a ir carregado de minha casa até à praia, uns 15 minutos a pé.

O facto de conhecermos o nadador-salvador da praia dava-nos mais algum estatuto. Todos juntos, éramos o "corpo de nadadores-salvadores da Praia dos Beijinhos" - mesmo não sabendo nadar -, como nos chamou uma senhora que foi a correr dizer-nos que estava um homem nas rochas a mexer no pénis. E lá fomos nós atrás do malvado que atentava contra o pudor. Não o encontrámos, mas ficámos com os pés cortados nos mexilhões.

Nós não tínhamos pés como o do sr. João, que todos os dias atravessava a ponte para abrir o bar da praia, um barraco azul. Aquilo eram cascos tremendos. Tinha as unhas dos pés mais temíveis da zona norte. Dizia-se que as usava para tirar lapas das rochas ou ir aos caramujos. Nunca foi confirmado. As mãos eram verdadeiros barrotes, que, um dia, ajudadas por uma pá que usava para segurar os panos das barracas, correu com dois gunas de Perafita, que cometeram o pecado capital: jogar à bola perto das barracas azuis e brancas. E a voz dava-lhe um toque de típico homem do mar, das histórias que preenchem o nosso imaginário: grossa e rouca.

Homem do mar que se preze, não se preocupa com horário das digestões. Por isso, não eram raras as vezes em que o almoço do nadador-salvador era à base de feijoada. Sem quarto-de-banho, pelo menos uma vez o nadador-salvador foi obrigado a pegar na prancha do ISN e afastar-se da costa para fazer a vontade aos intestinos. Não é bonito, mas é real...

*A Praia dos Beijinhos não deve o nome a qualquer pouso romântico. Chama-se Praia dos Beijinhos porque abundavam ali uma espécie de conchas minúsculas, raiadas, parecidas com as dos caramujos. Hoje, quase não se encontram, mas o nome permanece.

2 comentários:

salvoconduto disse...

A história até que ia muito bem até o Sr. João dar cabo dela...

Não volto a lá por os pés...

rms disse...

Nada disso! O sr. João era património da praia dos Beijinhos, até ter sido despejado por um licenciamento de um bar novo que, um dia destes, até pode ser que venha aqui contá-lo...