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segunda-feira, dezembro 17, 2012

Violência inqualificável*



Nos últimos tempos temos assistido a uma escalada de violência miserável. No concelho de Matosinhos, os duelos entre irmãos intensificam-se e ainda estamos a dez meses das eleições, com o trio Narciso-Guilherme-Parada a semi-apresentarem-se como candidatos à presidência da Câmara Municipal.

Narciso está mais ou menos resguardado, vai fazendo a sua campanha estratégica de só aparecer quando interessa. Já Guilherme Pinto e António Parada regressam a um registo que foi habitual no PS de Matosinhos e terminou tragicamente na lota.
Nas últimas três grandes iniciativas do PS de Matosinhos, seja o PS do actual presidente ou o PS do candidato Parada, o resultado foi péssimo.

Nas eleições para a concelhia houve de tudo, desde a vandalização de carros até insultos e outros mimos; seguiu-se a tristemente célebre reunião de Guifões, que teve o seu auge com a agressão a uma jornalista e a polícia no local para acalmar os nervos. Mais recentemente, um jantar de apoio a Guilherme Pinto terminou também com confrontos e a presença da polícia.

A luta pelo poleiro anda quentinha, mas o concelho merece melhor. Melhor que esta política, melhor que este tipo de política e melhor que estes protagonistas.

*Publicado, originalmente, na edição de dezembro do Notícias de Matosinhos

quinta-feira, agosto 16, 2012

A morte é como o sabão*

 A morte é mágica. Tem o condão de limpar tudo. Dizia-se nas margens do Leça que o sabão lava tudo, só não lava as más línguas. Afinal, é a morte. A morte é capaz de limpar o passado mais cretino de qualquer cidadão. Temos nós o hábito do coitadinho na hora da morte. “Morreu, coitado”. Mas a história não morre, pode é ser manipulada e, às vezes, apagada.

Parte do país lamentou a morte de José Hermano Saraiva, um grande comunicador, ao que parece, mas um menos bom historiador, diz quem percebe da poda.

O detalhe de estarmos a falar de um ministro da ditadura fascista de Salazar parece não incomodar quem o elogia. Lá está a morte a limpar as memórias. Diz-se que a educação era o seu grande amor. Um amor à moda antiga, daqueles que se resolvem à bastonada, como quando mandou a GNR carregar sobre os estudantes de Coimbra durante a Crise Académica.

Alguns desses, dos que foram corridos à bastonada por ordem do comunicador, elogiam-no mesmo assim, fazendo ressuscitar a triste máxima do “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Outros, mesmo não tendo vivido esse dia, não perdoam a ditadura.

Continuo a achar que quem não foi bom em vida, não tem de ser bom porque morre.

*publicado originalmente no Notícias de Matosinhos

domingo, julho 08, 2012

Democracia e censura*


Já está. As eleições para a concelhia de Matosinhos e da distrital do Porto do PS decorreram com toda a normalidade. Por entre mensagens intimidatórias oriundas dos aliados do presidente da Câmara até vidros partidos, carros vandalizados e “militantes” que já não o são mas que continuam, como que por mistério, a ser contactados para irem votar de cada vez que há o circo, perdão, o ciclo eleitoral, há de tudo, como na farmácia.

Pode ser que, agora, os responsáveis pelo concelho possam ter algum tempo para tratarem daquilo para que foram eleitos, se não for pedir muito, e se sobrar algum tempo, depois das inaugurações de fachada para “militante” ver.

Faz lembrar o PS nacional, que continua sem tempo para política e preso no seu labirinto, a recolher cacos dos anos de Sócrates: entre a conivência com o pacto de agressão do FMI e a violência das suas abstenções.

Daí o incómodo do PS – mais acentuado que o incómodo do governo – com a moção de censura apresentada pelo PCP. É um problema para o PS ter de censurar o governo sabendo que, se fosse governo, fazia o mesmo que Passos Coelho.

*Publicado originalmente no jornal Notícias de Matosinhos

terça-feira, junho 05, 2012

O coiso do Álvaro é uma oportunidade*




Parece que estar no coiso é uma oportunidade, segundo reza a palavra do nosso Primeiro. Pelos vistos, o Álvaro agarrou na oportunidade e saiu-lhe o coiso pela boca fora, quando segurava na mão perto de 1.000.000 de portugueses que estão repletos de oportunidades.

O coiso do Álvaro atormenta-nos e só alguém com os coisos no sítio é capaz de aguentar tanto disparate vindo de um só governo há tão pouco tempo eleito. O coiso do Álvaro cresce a um ritmo alucinante e parece incapaz de parar, numa espécie de Viagra de longo prazo que parece não ter fim à vista. O pior é que aqueles que agora estão num plano de oportunidade não poderão processar a farmacêutica por possíveis danos causados. 

O coiso está aí, firme e hirto, e afecta uma população cada vez mais descrente. Importa, por isso, que do coiso se faça força para lutarmos pelas oportunidades que todos temos de ter. Mesmo aqueles portugueses menos mediáticos que não aparecem nos límpidos, claros e objectivos relatórios das secretas que o ministro Relvas alega desconhecer.

O coiso de que falava o Álvaro era o desemprego. Faltou-lhe a palavra, pois claro. Pode acontecer a qualquer um que não dê a mínima importância ao assunto.

*Publicado originalmente no jornal Notícias de Matosinhos.

terça-feira, maio 08, 2012

Migalhas de Abril*

 
Passaram 38 anos desde o 25 de Abril de 74. Das conquistas de então resta o que nós, enquanto herói colectivo da Revolução quisemos que restasse. Entretanto, já nos idos anos 80, época do soarismo e do socialismo na gaveta, regressou ao país o braço-armado económico da ditadura salazarista. Passaram 38 anos e o país continua a ser governado nos bastidores pelo poder económico de então, pelas mesmas famílias, pelos mesmos interesses, entretanto com rostos renovados.

O retrocesso atroz que vivemos sente-se profundamente, até na música, com gente que viveu e defendeu Abril a apelar agora a que se dêem os restos aos pobrezinhos. Gente que ajudou Abril a ser o que foi e outros mais jovens, que alegam defendê-lo, a darem a cara por uma campanha miserável de caridadezinha tão à imagem da direita mais saudosista do fascismo.

A minha geração também tem culpa. Alguns vêem Abril como ultrapassado, desvalorizando as suas comemorações. Outros, autarcas até, vão às escolas explicar que Portugal viveu numa ditadura durante 30 anos e que o Marcello Caetano era Presidente da República. Para isso mais vale estarem quietos.


Publicado originalmente na edição de Maio do jornal Notícias de Matosinhos*

quinta-feira, abril 05, 2012

Impedimentos que impedem*


Cavaco ficou intimidado com perigosos manifestantes de uma escola secundária. Miúdos até aos 15 anos, o terror de qualquer político que até foi professor, mas universitário. A desculpa oficial, foi que ficou impedido por um impedimento. Assim mesmo, como aquelas subidas que sobem para cima ou quando se entra para dentro.

Quem não entrou para dentro foi Passos Coelho, no dia da Greve Geral, no Porto. O ilustre primeiro preferiu a porta do cavalo para fugir aos manifestantes que o esperavam. É sempre melhor quando falamos com aqueles que devemos representar pela televisão ou pela rádio, sem direito a contraditório.

Fugiu, o piegas. Teve medo de dar a cara perante aqueles que contestam o caminho de pobreza que nos pretendem impingir como inevitável, ao mesmo tempo que arranjam lugares de relevo para amigos e compadres, com cortes que mais parecem arranhões para quem ganha milhares de euros.

Segue a luta, que é dura e, muitas vezes, poluída por opiniões de quem tem mais umbigo do que olhos para encararem a realidade com que (sobre)vivem milhões de portugueses.

*originalmente publicado na edição de Abril do Notícias de Matosinhos

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Quarto escuro*

Acabou, finalmente, o ano de 2011. O pleonasmo é forçado, mas confesso que estava ansioso. A verdade é que foi um ano muito, muito difícil para a generalidade dos portugueses, que foram chamados a escolher os deputados que queriam ver representados na Assembleia da República. Pelo meio, uns fugiram, de fininho, para França, na esperança para obterem mais estudos, numa premonição do que viria a ser a palavra de ordem do governo entretanto eleito: emigrai. De perto, seguiu-se a família de uma cadeia de hipermercados, que vai pagar menos 10 por cento de impostos, mas na Holanda. Fica o aviso: na Holanda vai deixar de ser permitido vender produtos derivados da cannabis a estrangeiros.

O povo escolheu quando não sabia o que ia escolher. O pacto de agressão do FMI já estava alinhavado e faltava aplicá-lo. O povo escolheu, pois, de olhos vendados, às escuras, enganado pelos apelos da resignação e da inevitabilidade.

Com a agressão externa de que o país está a ser vítima, está em marcha a privatização de tudo o que são serviços públicos e daquilo que deve ser o Estado. Daquilo que o Estado tem obrigação de dar a quem paga impostos. Curiosamente, este Estado é o mesmo que não quis tributar dividendos de accionistas dos grupos
cobrados em bolsa, no ano passado.

Sendo realista, a pior notícia de 2011 foi o início de 2012. A menos que o povo saiba travar o retrocesso. E há duas formas de travar; ou se trava parado à espera do impacto ou se trava avançando. Com confiança.

*Publicado, originalmente, no jornal Notícias de Matosinhos

quarta-feira, dezembro 07, 2011

O fim da rosa*

À data em que escrevo este texto ainda não está dada mais uma machadada no frágil tecido produtivo de Leça da Palmeira. Mas sê-lo-á, em Assembleia Municipal extraordinária devidamente convocada para o efeito. Quem vive em Leça sabe que, nas últimas duas décadas, principalmente, Leça se transformou num oásis da linha de praia, ficando para trás a zona norte da freguesia, bem como a zona de Gonçalves, ali por trás do Centro Hípico do Porto.


Há quase 30 anos Leça deixou cair a FACAR. Na altura, os trabalhadores acusavam a Câmara Municipal de estar a ceder a interesses imobiliários, o que foi prontamente desmentido pelo então autarca, Narciso Miranda. Anos mais tarde, com umas alterações ao PDM, construíram-se as torres que agora vemos ainda antes de entrar em Leça, bem como o complexo Entre Quintas. É que o tempo tem esta coisa teimosa de dar razão a quem a tem.

Anos mais tarde, com manobras mais ou menos obscuras, nasceu, paredes-meias com a Petrogal, um condomínio de luxo, numa distância da refinaria inferior àquela que, durante muitos anos, foi considerada de segurança. Toda a gente sabe como.

Agora, Leça da Palmeira perderá a Ramirez para Perafita, ficando por saber o que sucederá com o actual espaço da fábrica, onde me habituei a ver dezenas de ondas cor-de-rosa das batas das operárias.

A Rua Óscar da Silva ficará ainda mais pobre. Veremos como viverão os pequenos negócios nas imediações da Ramirez. Veremos o que nascerá no lugar da fábrica. Mais tarde ou mais cedo. É aquela coisa do tempo...

*Publicado originalmente na edição de Dezembro do Notícias de Matosinhos

quarta-feira, outubro 12, 2011

O ponto do i*


O i surgiu há uns tempos não só como um novo jornal, mas como um jornal novo. Num formato pouco tradicional, até já ganhou prémios internacionais de design, que devem orgulhar todos os que lá trabalham.
Mais tarde, o i acabou vendido e com nova direcção, também editorial. Perdeu a linha recta e desviou-se para a direita mais retrógrada, sob a tutela de António Ribeiro Ferreira, que nas últimas semanas se tem entretido em insultos e calúnias a tudo o que se assemelha com sindicatos e movimentos de trabalhadores.
Há dias, o ex-colunista do Correio da Manhã, onde assinava a crónica “Diário da Manhã”, um título bem elucidativo do que sai daquela cabeça e escorre até aos dedinhos com que bate no teclado, decidiu que “é preciso partir a espinha aos sindicatos”.
Ribeiro Ferreira gasta toda a sua crónica caricaturando os pançudos sindicalistas, acomodados a qualquer coisa que o cronista deve achar mordomias – e só o que vai dentro daquela cabeça poderá explicar.
Na verdade, Ribeiro Ferreira faz de ponto da sociedade, soprando-lhe aos olhos aquilo que o guião indica: contra os sindicatos, pela inevitabilidade da crise, pelo fim dos direitos adquiridos pelos trabalhadores. Ora, mas em todas as peças de teatro há espaço para o improviso, como bem se vê no filme “Pai Tirano”, filmado na década de 40 – tempos que serão de boa memória para o colunista.
Por vezes, o actor, que neste caso é colectivo, surpreende encenadores, pontos e outros que tais, e sai do guião, transformando a peça em algo bem mais interessante, dependendo do contexto. Pode ser que assim seja. Da minha parte, espero que sim.
E já que estamos numa de teatros, é melhor ter cuidado. Não vá o povo, em vez de partir a espinha aos sindicatos, começar a distribuir “pancadas de Molière”.

*Publicado originalmente na edição de Outubro do jornal Notícias de Matosinhos.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Albardem-me!*

Numa noite destas, parece que Leça da Palmeira tremeu até à Foz do Douro. Eu não acordei, confesso, que sou rapaz de sono duro, mas consta que a Petrogal pregou mais um susto. A verdade é que para nós, leceiros, a Petrogal  já faz parte da paisagem, os riscos são conhecidos, as vantagens e as desvantagens também. Já as consequências que poderia ter um acidente grave na refinaria, ninguém pode medir com certeza. E nós preferimos não pensar nisso.
Mas há quem tenha obrigação de o fazer. Uma dessas entidades é a Câmara Municipal, que, à terceira tentativa, respondeu à pergunta que coloquei, através do Facebook:  Gostava de saber onde posso ter acesso ao plano de emergência municipal que contém as indicações sobre o que as populações devem fazer em caso de um acidente grave na refinaria de Leça”. Parece simples, não parece? Mas não é. Nunca foi. A questão é há anos colocada, pelo menos, nas Assembleias de Freguesia de Leça da Palmeira. A resposta foi sempre a mesma: o plano existe mas não é divulgado para não alarmar a população.
Deixemos o lado ridículo da resposta. A CMM enviou-me não o plano de emergência que solicitei, e que alegadamente existe, mas sim o Plano de Emergência Municipal, coisa antiga, uma vez que a edição mais recente data de 2006/2007. Refere mesmo a difusão de notícias através da rádio local, a mesma que foi recentemente vendida, e dos jornais cá do burgo, referindo-se, certamente, ao Notícias de Matosinhos, que comemora dois anos de vida, e ao Jornal de Matosinhos, já que, entretanto, o Matosinhos Hoje fechou.
Sobre o plano específico, nada. Sobre o que as populações devem fazer, zero. Sobre o tipo de gases libertados e o que fazer caso tal suceda, menos ainda. A questão acima continua sem resposta e fica, através deste texto, lançada de novo.
A CMM encontrou uma forma original de chamar-me burro. Não levo a mal, gosto da originalidade. Agora mostrai o que pedi e que, como munícipe, creio ter direito a conhecer.
*Publicado originalmente na edição de Setembro do Notícias de Matosinhos

segunda-feira, agosto 01, 2011

Terrorismo sem rosto, mas só às vezes

Os atentados terroristas de Oslo apanharam toda a gente de surpresa. Primeiro por ser num país que tomamos tantas vezes como exemplo de avanços civilizacionais, de educação, de formação cívica, depois por ter furado as primeiras teorias que surgiam nos media e nas redes sociais, que apontaram para terroristas islâmicos. 

No Twitter, uma conta associada à defesa cega dos crimes de Israel dizia ainda a quente, e cito de memória, que a Noruega dá apoio a grupos que atacam Israel e agora provava o seu próprio veneno. Afinal, o terrorista é anti-islão. Mas centremo-nos no preconceito, que começa aqui. Os terroristas islâmicos não têm rosto, nem família, nem amigos, nem uma infância difícil. São só terroristas islâmicos.

No entanto, este norueguês tem tudo isso. Na RTP, por exemplo, o terrorista de extrema-direita era tratado por “jovem norueguês” e não por terrorista. Até tem nome: chama-se Anders Breivik. E já se diz que é louco, como convém nestes casos.

Ao que parece, o terrorista tinha planos de ataque a uma série de países, e Portugal não escapava ao rol de nações inimigas, com mais de 11.000 alvos a abater. Também a refinaria de Leça da Palmeira era um alvo. Miguel Macedo, ministro da Administração Interna, apressou-se a assegurar que foram tomadas todas as medidas de segurança necessárias. Um dia depois, os jornais divulgam que uma norma da PSP de Matosinhos, que engloba Leça da Palmeira, que espera há décadas por uma esquadra, indica que as viaturas policiais deverão realizar apenas 25 a 30km por turno, devendo o restante serviço realizar-se a pé.


Fiquemos, por isso, descansados. A PSP tem permissão para dar três voltas ao perímetro da refinaria e fazer o resto a pé. Esperemos que os eventuais terroristas tenham isso em consideração.

Publicado originalmente na edição de Agosto do Notícias de Matosinhos.