«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e... a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, (...) privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos»
José Saramago - Cadernos de Lanzarote
Na tarde de ontem foram detidos oito membros dos Bukaneros, claque do Rayo Vallekano. Depois do episódio de Alfon, a repressão e a intimidação voltaram à carga. A explicação é simples: as enormes manifestações de 23 de Fevereiro, por todo o reino de Espanha, voltaram a assustar o poder e, como tal, é preciso reprimir e assustar todos os movimentos sociais, onde se incluem os Bukaneros, que são muito mais que uma claque, como pode ver-se na imagem.
A República de Vallekas resistirá a mais este ataque. E nós devemos estar atentos e solidários. É que Espanha é já aqui ao lado...
LA VIDA PIRATA ES LA VIDA MEJOR!
(A PARTIR DOS 2.40)
La vida pirata es la vida mejor (bis) sin trabajar (bis) sin estudiar (bis) Con la botella de ron (bis) Soy capitán (bis) del Santa Ines (bis) y en cada puerto tengo una mujer (bis) la rubia es (bis) fenomenal (bis) y la morena tampoco esta mal (bis) Las inglesas con su seriedad (bis) Y las francesas que todo lo dan (bis) Si alguna vez (bis) me he de casar (bis) Con la del RAYO, una, una y no más (bis)
Os Bukaneros mantêm uma luta constantecontra o futebol-negócio, o preço dos bilhetes, os jogos disputado a dias da semana e a horas impróprias. A direcção - que daqui para a frente não terá a vida facilitada em Vallekas -, pelos vistos, voltou as costas aos adeptos. E em Vallekas, um são todos.
Beatriz Talegón tornou-se viral na internet com o vídeo abaixo e fez feliz uma série de gente. Uma série de verdades ditas por alguém do PSOE que deviam fazer corar de vergonha qualquer partido que tenha estado na reunião da Internacional "socialista".
Confesso que o que mais me fez pensar no discurso de Beatriz foi o que leva alguém a estar num partido que pratica o contrário do que um militante defende. Entendamos: há sempre espaço para divergências dentro dos partidos. Há no qual milito e, creio, haverá também nos outros. Mas há questões de fundo, de princípio de que não abdico. E, como tal, não percebo a Beatriz. Como poderia eu estar, por exemplo, num partido que defende na opinião pública o aumento do salário mínimo mas que, no Parlamento, na casa da Democracia, rejeita duas propostas nesse sentido, considerando-as demagogas e populistas?
Falo agora directamente para a Beatriz, que é quase da minha idade e fala como se fosse minha camarada - e ela não há-de importar-se, que não me lerá. Não podemos defender o que não praticamos. Podemos. Afinal podemos. Mas isso é o PSOE, como cá é o PS. E se a tua prática não vai além das palavras - do que agora se chama, pomposamente, soundbites - então, estás no lugar certo. Já sabemos que estiveste no Parlamento Europeu, onde ganhavas 3.000 euros por mês, se dividirmos o teu salário global por 14 meses. E bem. Todos pudessem ganhar o mesmo. Mas eras funcionária do PSOE e, daqui, podemos tirar duas confusões: uma, demonstraste uma coragem notável ao afrontar assim o teu patrão. Outra, foste na onda dos soundbites e criaste um fait-diver. Daqueles para enganar, dos que faz um partido parecer aquilo que não é aos olhos dos mais incautos. E dos que dão mau nome aos partidos, daqueles existem para servir e não para servir-se
O que te pede o teu ex-colega é apenas que sejas consequente. Que, como dizes no texto, deixes o hotel de 5 estrelas e te juntes à rua com os cidadadãos que sofrem, no teu país como no meu, com as políticas levadas a cabo pelo teu partido e pelo seu partido-irmão, aqui em Portugal. Estamos sempre a tempo de mudar. Eu serei o primeiro a fazê-lo se o meu Partido deixar de ser aquilo que é.
Nesta Europa a andar para trás, os sinais de perseguição a quem divirja da ideologia dominante são cada vez mas alarmantes. A Greve Geral europeia de dia 14 de Novembro teve importantes acontecimentos em todos os países. Desta vez, vamos até Espanha, mais propriamente Vallekas, em Madrid, capital do reino espanhol.
Vallekas mantém ainda hoje as suas tradições antifascistas, num bairro com cerca de 300.000 habitantes. O bairro dos subúrbios madrilenos foi um importante espaço de resistência à ditadura de Franco, o que lhe valeu o apelido de "pequena Rússia". O orgulho de classe continua a ter uma marca profunda e tem o seu expoente nos adeptos do clube do bairro operário, o Rayo Vallecano. Os Bukaneros, claque do Rayo, são um grupo assumidamente antifascista e, na última Greve Geral, pagaram por isso. Como poderão ver nas imagens que ilustram o texto, os Bukaneros utilizam a curva, 'la grada', para enviar mensagens políticas e sociais, pelo que começam a ser incómodos para todos os poderes.
Espanha: estado opressor
Nos últimos tempos a repressão acentuou-se generalizadamente na Europa, particularmente no país vizinho. Das detenções arbitrárias no País Basco, às acusações de apologia ao terrorismo do poeta e rapper Pablo Hasel e do produtor Marc Hijo de Sam, que lhes valeram vários dias na prisão.
Na noite de 13 para 14 de Novembro, Alfonso Fernández, de 21 anos, saiu de casa com a namorada para participar num piquete de greve. Perto de casa foram ambos detidos e levados para uma esquadra sem motivo aparente. Seguiram-se interrogatórios por polícias de cara tapada, ameaças a familiares e, para surpresa do próprio, uma acusação de posse de explosivos, que pode resultar numa ena de prisão entre quatro e oito anos. E mais ameaças e pressão para uma autoconfissão.
Nas diligências efectuadas em casa de Alfon nada foi encontrado. Alfon serviu também de desculpa para uma invasão policial de um dos pontos onde os Bukaneros costumam reunir-se. E, mais uma vez, nada de incriminatório foi encontrado.
Acabar com os Bukaneros?
É convicção generalizada entreos membros dos Bukaneros que Alfon está a servir de bode expiatório para uma possível ilegalização do grupo de adeptos. Estes têm-se destacado na denúncia da corrupção do futebol moderno, contra os horários absurdos dos jogos do campeonato espanhol e os jogos do campeonato às quintas-feiras. Tudo a bem do interesse económico das televisões e das direcções dos clubes e contra o que o futebol deve ser: uma festa de adeptos para os adeptos.
Marcha proibida
Os Bukaneros, a IU, associações sindicais e movimentos sociais organizaram uma série de eventos de solidariedade, que culminariam com uma marcha, no dia 15 de Dezembro, até aos estabelecimento prisional onde está Alfon. A marcha foi considerada ilegal e acabou por não se realizar. Alfon estava proibido de efectuar telefonemas desde a quarta-feira anterior. Curiosamente, no sábado, a sua mãe recebeu um telefonema. Era Alfon. Avisava a sua mãe que, caso a marcha se realizasse, seria enviado para as Canárias... O direito de manifestação está ameaçado também em Espanha.
Alfon continua detido
Alfon está ainda hoje detido, em prisão preventiva. É o único detido em toda a Europa por eventos relacionados com a Greve Geral. Primeiro, devido a pressões de altas instâncias judiciais, o argumento utilizado era a possibilidade de fuga, que foi depois descartada. Agora, continua detido por, supostamente, ser uma ameaça à paz social. Todo o contacto que tem com familiares, amigos e mesmo advogados tem a presença de elementos policiais. O amigos que lhe escreveram para a cadeia estão a ser perseguidos e investigados pela polícia.
Silêncio mediático, UE calada
Parece incrível mas estamos a falar de um estado da União Europeia, que deveria ser o farol das liberdades e garantias dos seus cidadãos. Que não o é já todos sabemos. Só não estávamos habituados a que não o fosse tão descaradamente. Os media mainstream também não dão importância ao caso. Apenas blogs e redes sociais vão impedindo que este caso caia no esquecimento e que um jovem permaneça na cadeia por ter consciência de classe, por ser inconformado, por não se resignar.
Pablo Hasel, também ele ex-detido, fez este poema em homenagem a Alfon, onde consta também o testemunho da mãe do jovem.