«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e... a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, (...) privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos»
José Saramago - Cadernos de Lanzarote
Na tarde de ontem foram detidos oito membros dos Bukaneros, claque do Rayo Vallekano. Depois do episódio de Alfon, a repressão e a intimidação voltaram à carga. A explicação é simples: as enormes manifestações de 23 de Fevereiro, por todo o reino de Espanha, voltaram a assustar o poder e, como tal, é preciso reprimir e assustar todos os movimentos sociais, onde se incluem os Bukaneros, que são muito mais que uma claque, como pode ver-se na imagem.
A República de Vallekas resistirá a mais este ataque. E nós devemos estar atentos e solidários. É que Espanha é já aqui ao lado...
LA VIDA PIRATA ES LA VIDA MEJOR!
(A PARTIR DOS 2.40)
La vida pirata es la vida mejor (bis) sin trabajar (bis) sin estudiar (bis) Con la botella de ron (bis) Soy capitán (bis) del Santa Ines (bis) y en cada puerto tengo una mujer (bis) la rubia es (bis) fenomenal (bis) y la morena tampoco esta mal (bis) Las inglesas con su seriedad (bis) Y las francesas que todo lo dan (bis) Si alguna vez (bis) me he de casar (bis) Con la del RAYO, una, una y no más (bis)
Os Bukaneros mantêm uma luta constantecontra o futebol-negócio, o preço dos bilhetes, os jogos disputado a dias da semana e a horas impróprias. A direcção - que daqui para a frente não terá a vida facilitada em Vallekas -, pelos vistos, voltou as costas aos adeptos. E em Vallekas, um são todos.
Nesta Europa a andar para trás, os sinais de perseguição a quem divirja da ideologia dominante são cada vez mas alarmantes. A Greve Geral europeia de dia 14 de Novembro teve importantes acontecimentos em todos os países. Desta vez, vamos até Espanha, mais propriamente Vallekas, em Madrid, capital do reino espanhol.
Vallekas mantém ainda hoje as suas tradições antifascistas, num bairro com cerca de 300.000 habitantes. O bairro dos subúrbios madrilenos foi um importante espaço de resistência à ditadura de Franco, o que lhe valeu o apelido de "pequena Rússia". O orgulho de classe continua a ter uma marca profunda e tem o seu expoente nos adeptos do clube do bairro operário, o Rayo Vallecano. Os Bukaneros, claque do Rayo, são um grupo assumidamente antifascista e, na última Greve Geral, pagaram por isso. Como poderão ver nas imagens que ilustram o texto, os Bukaneros utilizam a curva, 'la grada', para enviar mensagens políticas e sociais, pelo que começam a ser incómodos para todos os poderes.
Espanha: estado opressor
Nos últimos tempos a repressão acentuou-se generalizadamente na Europa, particularmente no país vizinho. Das detenções arbitrárias no País Basco, às acusações de apologia ao terrorismo do poeta e rapper Pablo Hasel e do produtor Marc Hijo de Sam, que lhes valeram vários dias na prisão.
Na noite de 13 para 14 de Novembro, Alfonso Fernández, de 21 anos, saiu de casa com a namorada para participar num piquete de greve. Perto de casa foram ambos detidos e levados para uma esquadra sem motivo aparente. Seguiram-se interrogatórios por polícias de cara tapada, ameaças a familiares e, para surpresa do próprio, uma acusação de posse de explosivos, que pode resultar numa ena de prisão entre quatro e oito anos. E mais ameaças e pressão para uma autoconfissão.
Nas diligências efectuadas em casa de Alfon nada foi encontrado. Alfon serviu também de desculpa para uma invasão policial de um dos pontos onde os Bukaneros costumam reunir-se. E, mais uma vez, nada de incriminatório foi encontrado.
Acabar com os Bukaneros?
É convicção generalizada entreos membros dos Bukaneros que Alfon está a servir de bode expiatório para uma possível ilegalização do grupo de adeptos. Estes têm-se destacado na denúncia da corrupção do futebol moderno, contra os horários absurdos dos jogos do campeonato espanhol e os jogos do campeonato às quintas-feiras. Tudo a bem do interesse económico das televisões e das direcções dos clubes e contra o que o futebol deve ser: uma festa de adeptos para os adeptos.
Marcha proibida
Os Bukaneros, a IU, associações sindicais e movimentos sociais organizaram uma série de eventos de solidariedade, que culminariam com uma marcha, no dia 15 de Dezembro, até aos estabelecimento prisional onde está Alfon. A marcha foi considerada ilegal e acabou por não se realizar. Alfon estava proibido de efectuar telefonemas desde a quarta-feira anterior. Curiosamente, no sábado, a sua mãe recebeu um telefonema. Era Alfon. Avisava a sua mãe que, caso a marcha se realizasse, seria enviado para as Canárias... O direito de manifestação está ameaçado também em Espanha.
Alfon continua detido
Alfon está ainda hoje detido, em prisão preventiva. É o único detido em toda a Europa por eventos relacionados com a Greve Geral. Primeiro, devido a pressões de altas instâncias judiciais, o argumento utilizado era a possibilidade de fuga, que foi depois descartada. Agora, continua detido por, supostamente, ser uma ameaça à paz social. Todo o contacto que tem com familiares, amigos e mesmo advogados tem a presença de elementos policiais. O amigos que lhe escreveram para a cadeia estão a ser perseguidos e investigados pela polícia.
Silêncio mediático, UE calada
Parece incrível mas estamos a falar de um estado da União Europeia, que deveria ser o farol das liberdades e garantias dos seus cidadãos. Que não o é já todos sabemos. Só não estávamos habituados a que não o fosse tão descaradamente. Os media mainstream também não dão importância ao caso. Apenas blogs e redes sociais vão impedindo que este caso caia no esquecimento e que um jovem permaneça na cadeia por ter consciência de classe, por ser inconformado, por não se resignar.
Pablo Hasel, também ele ex-detido, fez este poema em homenagem a Alfon, onde consta também o testemunho da mãe do jovem.
"Em cada etapa, questionávamos se o material era necessário para compreensão pelos estudantes da economia do século XXI (...) A agricultura, os sindicatos e a economia marxista foram reduzidos para dar lugar à economia do ambiente, à economia de rede, aos ciclos económicos reais e à economia financeira".
Portanto, num dos livros obrigatórios para algumas áreas do ensino universitário - espaços anteriormente conhecidos como centros de reflexão, de avanço ideológico e de importantes lutas contra o fascismo - decidiram os autores reduzir a atenção dada ao pensamento divergente onde, curiosamente, se encontram algumas das respostas para a os problemas económicos actuais: Na produção nacional, que terá de renascer após ter sido destruída pelo liberalismo, pelo capitalismo selvagem da UE, pela organização dos trabalhadores em sindicatos, que não permitam dar mais passos atrás em relação aos avanços civilizacionais conseguidos às custas do sangue de milhares de outros explorados.
Nem um passo atrás. O que o sistema nos tira, teremos de procurar nos meios alternativos, na internet, nos livros, lendo e relendo o que os processos de luta revolucionária dos Povos nos ensinaram ao longo dos séculos.
Agora que aquilo no Cáucaso parece que está mais calmo, já posso dizer que o senhor Saakashvili tem a visão política e estratégica de uma alcaparra.
Agora percebi que o Kosovo da Geórgia não pode ser tão independente como a Ossétia do Sul da Sérvia.
Soube que a muda Manuela escreveu para criticar silêncios. Acho que, agora, o PSD tem, finalmente, uma líder credível para levar o partido de vez para o abismo. RIP.
Soube que para os números do desemprego não contam os 100.000 em formação profissional (mal) remunerada.
Para perceber por que é que nos referendos sobre a UE, quando o voto é positivo é porque o Povo está informado e quer uma Europa forte; quando o voto é negativo é porque o povo é ignorante e quer castigar as políticas nacionais;
Para perceber o que estão aqueles quatro senhores a discutir no Prós & Prós;
Para perceber o que leva a RTP a ter um programa chamado "Conversas de Mário Soares";
Para perceber se a mesma RTP paga mais ao pessoal da Antena 1, que trabalha para a rádio Antena 1, para transmitirem o programa Antena Aberta na RTPN.
A frase do ministro não é de hoje, mas de dia 3 de Julho de 2007.
Ontem, em Bruxelas, aconteceu algo inédito, na manifestação de pescadores italianos, espanhóis e franceses. Foi queimada uma bandeira da UE, algo inédito neste tipo de protestos.